quarta-feira, 27 de setembro de 2017

ARQUIVO: P2 V Neptune da FAP persegue Ovni em Angola


Luzes inexplicáveis no céu de Luanda

Remonta a África e aos anos 60 uma das mais intensas e estranhas experiência de vida de Carlos Alberto Feliciano Marques Pereira, piloto e ex-tenente-coronel da Força Aérea Portuguesa.

Quando foi colocado em Luanda, o militar tinha como principal missão comandar um destacamento de dois aviões Lockheed P2 VS, também conhecidos por Neptunes.

Estes aviões, «extremamente avançados para aquela época», con­ forme faz questão de frisar o ex-piloto, eram modelos bimotor, de asa média e trem retrátil, especialmente cedidos pela Nato ao exér­ cito português na Guerra do Ultramar para patrulha naval e luta anti submarina.


Por isso, a tarefa principal de Carlos Pereira em Angola era preci­samente percorrer a costa angolana de norte a sul, até uma determi­nada distância de terra, para detectar e identificar todos os navios ou submarinos que circulassem pela zona. «Para sabermos para onde iam e o que faziam, e mapear, dia a dia, a sua posição, rumo, veloci­dade, etc.», explica.

E no contexto da guerra, não seria de admirar que os que mais interessavam à marinha e à aviação portuguesas eram os navios Elint soviéticos. «Quando passávamos por eles durante a nossa rota para norte ou para sul, era vulgar vê-los a pairar com a linha de água bastante acima, o que significa que estavam carregados. Algumas horas depois, quando voltávamos a passar, no regresso à base, os mesmos navios tinham por vezes a proa toda levantada e grossos tubos que, saindo do convés, mergulhavam no mar... por isso, desconfiávamos sempre do que estavam ali a fazer e o que estavam a descarregar, sem transbordo de cargas exequível, pelo menos pelos meios normais. »

Além das cargas suspeitas, multiplicavam-se outros episódios que mantinham os militares atentos às movimentações destes navios.


«Uma fragata do Comando Naval em serviço na zona começou a detectar repetidamente ecos no sonar, consistentes, móveis e metá­licos, que o navio conseguia identificar e rastrear durante horas.» Ou o aspecto da areia das praias próximas das zonas de contacto, pequenos veículos mecanizados que entravam ou saíam no mar», recorda, alegando que todos os dados apontavam para a presença de «um submarino, provavelmente soviético», em águas territoriais de Angola, que prestava auxílio aos guerrilheiros.

«É curioso que este tipo de ocorrências, as quais eu informava sempre superiormente, parecia não interessar muito aos meus che­fes, que provavelmente já tinham problemas que chegassem com a própria guerra, os terroristas, a colaboração com o exército, etc... », comenta o antigo tenente-coronel.

Mas essa era uma descontracção que estava prestes a acabar... mais concretamente no fatídico dia 28 de dezembro de 1964. Visto que a alvitrada presença de um submarino soviético tão perto das águas territoriais angolanas representava um ato agressivo em termos de significado bélico para Portugal, foi delineada uma estratégia de intimidação.

O almirante ordenou então ao tenente-coronel Carlos Feliciano Pereira que largasse uma carga de explosivos (bombas de profundi­dade) no mar que servisse para mostrar aos russos o descontenta­mento luso com as suas manobras de aproximação, mas que fosse «suficientemente subtil para não desafiar a União Soviética»: Afinal, Portugal já tinha problemas que chegassem!...


A missão seguiu esse plano inicial, em que o Neptune de Carlos Pereira deveria apoiar a acção da marinha: durante a noite, a fragata tentaria localizar a presença do submarino com o seu sonar, enquanto o avião pilotado por Carlos Pereira, com mais oito homens na tripu­lação, deveria permanecer a sobrevoar discretamente as imediações, com rádio, luzes, radares ou quaisquer outros instrumentos electróni­cos apagados para que não fosse detectada a sua presença.

«Se a fragata identificasse o lugar onde estava o submarino, o avião deveria voar imediatamente para o local indicado e iluminar com o farol de 3 000 000 velas se o submarino estivesse visível ou, caso contrário, tentar rastreá-lo por outros meios. Quando a situação estivesse bem definida, a fragata deveria distanciar -se e largar umas cargas de profundidade. Parecia ser a estratégia mais adequada para o caso», salienta o ex-militar.


O fator surpresa, pelo menos, estava garantido «pelo facto de nunca ter havido, antes ou depois, nas nossas guerras em África, alguma operação parecida». Mas o futuro próximo iria ser ainda mais original...

« Voámos no mais total silêncio e na escuridão, tal como era suposto, só se escutando de vez e quando uma ou outra indicação na interfonia, entre o navegador e o piloto. Os oito elementos da tripulação do P2 V5 aguardavam tranquilamente nos seus postos, prontos para operar os respetivos equipamentos», recorda agora, aos 77 anos, sentado na sala de jantar da sua casa junto ao mar, o ex-tenente-coronel, com as mãos pousadas nas fotografias que naquela época tirou junto aos Neptunes da Força Aérea.

«Passado algum tempo, avistámos, para o lado da costa, duas luzes, uma vermelha e outra verde, que ora se aproximavam uma da outra ora se afastavam. Parecia uma dança. Estranhando aquele tráfego naquele lugar e aquele comportamento tão invulgar, resolvemos quebrar o silêncio e usar o rádio para perguntar ao controlo de Luanda se tinha conhecimento de tal situação, a qual, acontecendo aparentemente à nossa altitude, representava um perigo real. O con­trolo respondeu-nos que desconhecia totalmente a presença de outras aeronaves naquela região! Fizemos a mesma pergunta à torre de Luanda, da qual obtivemos exactamente a mesma resposta .»


Para não prejudicar a missão, Carlos Feliciano Pereira e os seus homens prosseguiram o voo, agora com atenção redobrada. «Era a minha primeira missão como comandante e obviamente que não queria que nada falhasse», observa o ex-militar, que pouco depois do 25 de Abril de 1974 deixou a Força Aérea em prol da aviação civil.

Até que o navio enviou a esperada mensagem flash, ou seja, para agir com prioridade máxima, com o código e a posição. A fragata estava finalmente em contacto com o submarino que tanto intrigara os militares portugueses e, por isso, Carlos Pereira deveria dirigir­-se imediatamente para lá. 

«Ligámos então o potentíssimo radar do avião, que atingia até 300 quilómetros em toda a nossa volta, ace­lerámos os motores ao máximo e avisámos o navio de que nos iría­mos dirigir imediatamente para lá. O radar começou a varrer tudo rendez-vous em menos de 10 minutos.» 

«Passado algum tempo, avistámos, para o lado da costa, duas luzes, uma vermelha e outra verde, que ora se aproximavam uma da outra ora se afastavam. Parecia uma dança. Todos os homens viram aquilo. Era, aliás, impossível não ver. Por instinto, guinei o avião para a esquerda, para evitar o choque.» 

A «luz» tinha então parado instantaneamente mas ficara muito próxima do avião e da tripulação portuguesa («parecia a uma dis­tância de mais ou menos 50 metros»), muito nítida, com um cír­culo de luz branco e azul, sem detalhes. O avião continuava todo iluminado por dentro e o detalhe mais intrigante é que, apesar de Carlos Pereira continuar a voar em círculo, o objecto dava a sen­sação de manter sempre e exactamente a mesma equidistância em relação ao Neptune. 

A situação era muito estranha . «Aquilo não seria uma coisa exe­quível para um outro aparelho, a não ser que fizesse parte de nós. Por esta altura, dois ou três dos tripulantes disseram qualquer coisa no interfone que já nem me lembro, nem sei se percebi muito bem. 

Escu­sado será dizer que um episódio desta intensidade e natureza gerou grande agitação entre a tripulação. Todo o episódio terá durado uns 30 segundos. Mas 30 segundos é muito tempo quando não se conse­gue explicar o que se está a viver. Depois a "coisa" afastou-se a urna velocidade fantástica, até desaparecer completamente. Ninguém mais falou dentro daquele avião. Ainda hoje, nada me tira da cabeça que foi no momento que ligámos o radar que provocámos tudo aquilo», recorda Carlos Pereira. 

A seguir o Neptune cumpriu exactamente aquilo que estava pre­visto para a sua missão, dirigiu-se para o ponto indicado pela fragata que, julga o tenente-coronel, terá chegado a lançar ao longe as cargas de profundidade. 

O avião, por seu turno, nunca obteve qualquer contacto suspeito com o alegado submarino que rondava a costa.

Mas a saga de Carlos Feliciano Pereira não fica por aqui. Enquanto militar, Carlos Feliciano sentia a impreterível necessidade de relatar superiormente tudo o que acontecera naquela estranha noite. Mas aqueles não eram factos fáceis de contar, sobretudo para quem acabara de chefiar a sua primeira missão operacional e não um mau juízo junto dos superiores.

«Começando a sentir as dificuldades que iria enfrentar ao reportar o incidente, dei ordem a todos os homens para não comentarmos o assunto antes de voltarmos a pôr os pés em solo firme. Depois de aterrarmos, cada um faria um relatório individual, pessoal e independente, para que as perspectivas de um não contaminassem as dos outros.»

E de facto assim aconteceu. Nas instalações da esquadrilha, cada um dos militares redigiu o seu relato sobre os acontecimentos insó­litos daquela noite em separado, mas no final as versões eram quase idênticas. Carlos Feliciano Pereira também escreveu à máquina o seu relatório confidencial de cinco páginas, que ainda hoje guarda em casa e mostra a quem lhe pergunta pelo caso.

Ao pegar-se no velhinho papel-manteiga, salta à vista o carimbo a vermelho de «confidencial» e o croqui que o comandante elaborou sobre a posição e o trajecto desenhado pelo seu avião. No texto, nota-se a tentativa de minimizar a espectacularidade e a emoção dos factos...


Naquele dia, o piloto juntou então os oito relatórios, mandou os seus homens descansar e dirigiu-se à chefia. Mas, para ele, a parte mais difícil ainda não tinha chegado. «Aguardei pela hora de começo do serviço e logo cedo dirigi-me ao gabinete do comandante de Grupo onde, remetendo-me ao silêncio, lhe entreguei o conjunto dos rela­tórios produzidos pela esquadrilha, com um misto de receio e prazer maldoso, acrescentando apenas que lamentava muito aumentar-lhe ainda mais as preocupações», conta Carlos Pereira.

Ouvindo aquilo, o comandante começou prontamente a ler os documentos, com um semblante sério. A determinada altura fitou profundamente o olhar do jovem tenente-coronel que tinha à sua frente e que acabara de liderar a sua primeira missão operacional.

«Parecia que estava a avaliar a minha sanidade mental, com aquele olhar. Ficou de estudar o assunto e decidir-se sobre o respectivo enca­minhamento para instâncias superiores. Foi assim que nos despedi­mentos», recorda Carlos, 50 anos volvidos sobre o episódio que o marcou para sempre.

As reacções, todavia, não se fizeram tardar. E vieram como requintes de entusiasmo e excitação, para grande surpresa do oficial.


Horas depois, Carlos Feliciano Pereira foi novamente chamado com ordem de urgência ao gabinete de comando da base para se apresentar ao Comando da Região Aérea.

«Aí fui recebido pelo general e pelos elementos do seu Estado­-Maior numa grande excitação e fui alvo de muitas e curiosas pergun­tas. A minha tensão, porém, só abrandou verdadeiramente quando o próprio general se dirigiu a mim referindo que muitos anos antes também ele tinha sido testemunha de um episódio igualmente intri­gante e inexplicável, de contornos muito parecidos com aqueles que eu próprio tinha vivido! Durante muitos anos nunca contei estes detalhes mas agora, quando já se passou tanto tempo, acho que já não há problema», confidencia o ex-militar que poucos anos depois daquele episódio saiu da Força Aérea.

Esgotada a conversa com os superiores, o tenente-coronel regres­sou imediatamente ·ao seu posto mas, ainda assim, carregava na alma alguma preocupação: o desempenho da esquadrilha tinha sido muito positivo até à data mas aquele relatório poderia vir a tornar-se incómodo para os comandos superiores. Mas, o que fazer? Os dados estavam lançados e não havia maneira de o jovem coronel retroceder no tempo e mudar os acontecimentos daquela noite. Por isso, intimamente, foi-se preparado para eventuais rea­cções negativas.

Passaram-se 48 horas sem quaisquer notícias. Apenas a rotina da guerra tomava conta dos dias dos militares mobilizados para o con­flito em Angola. Até que no final do segundo dia, Carlos Feliciano Pereira voltou a ser chamado com carácter de urgência ao Comando da Região: «À chegada fui imediatamente recebido pelo general, de quem já não me recordo o nome, e companhia, desta vez quase sor­ridentes. O que se teria passado durante aquelas horas? Eu estava bastante curioso sobre o que tinham para me dizer.»


Em cima da mesa estava pousado um telegrama, conspícuo, meio amarrotado e misterioso. «Olhei-o de soslaio mas nem sequer tive tempo para especular com os meus pensamentos. Era um telegrama da Administração de Cabinda, a cerca de 900 quilómetros de Luanda», suas linhas escorreitas eram, no mínimo, surpreendentes... 

Dois dias antes, precisamente à mesma hora em que a tripulação do Neptune tinha sido aturdida pelas indesvendáveis luzes do espaço, o administrador de Cabinda e um grupo de amigos tinham saído para o mato pela calada da noite para uma das suas tradicionais caçadas africanas. 

«De súbito, no mato de Cabinda, e para grande susto de todos os presentes, tinha descido sobre a floresta próxima uma grande bola de luz branca e azul... Administrador e companhia ficaram escondidos debaixo de uma árvore... até que a luz desapareceu subitamente», conta o piloto. Ora estes factos aconteceram precisamente uma hora depois da referida pelo relatório redigido pelos militares. 

A coincidência (ou algo mais) saltava à vista nas parcas palavras do telegrama. «Daí o regozijo dos meus superiores e, tenho de confes­sar, a razão do meu grande alívio também. Nunca soube se as infor­mações contidas naqueles relatórios foram alguma vez partilhadas com hierarquias superiores. 

Nunca soube se houve conclusões a nível nacional ou internacional. Ou se os acontecimentos daquela noite alguma vez chegaram aos ouvidos de Salazar. Se calhar não houve sequer conclusões, como tantas vezes acontece... Talvez eles próprios não o soubessem ou então não me revelaram os seus trâmites, o que também era um sinal claro de que aquela conversa sobre ovnis tinha chegado ao fim», admite.



Carlos Feliciano Pereira continuou a voar tranquilamente até che­gar o dia de finalmente regressar a casa, a Lisboa. Durante o resto do tempo em que esteve no Ultramar, tanto ele como o resto da esqua­drilha não tiveram qualquer percalço e muito menos outro «encontro imediato» de qualquer grau. 

Também os navios ELINT não ficaram intimidados pelas mano­bras da Marinha naquela noite, tanto que continuaram a aparecer e a fazer as suas manobras suspeitas... 

Por duas vezes no decorrer daquele mesmo ano, Carlos Feliciano Pereira foi louvado pelos bons serviços prestados à pátria. Os ele­mentos da sua tripulação ficaram para sempre ligados por fortes laços de camaradagem, tanto por causa dos eventos acima relatados como de outras experiências de vida e de guerra que passaram juntos.

«Quanto acontece encontrar alguém daquele grupo, sinto uma amizade recíproca forte, apesar de já terem passado tantos anos. No entanto, é curioso... nunca mais ninguém falou do episódio daquela noite», confessa Carlos.

Ele, por seu turno, passou muitas horas da sua vida a tentar perceber o que efectivamente se passou. «Tenho para mim algumas conclusões que julgo mais possíveis que outras. A primeira delas leva-me a crer que fomos interceptados e investigados, intencional­mente, por algo inteligente. Também não creio que se tratasse de nenhum engenho secreto de nenhuma das superpotências porque se o fosse, esses países não esperariam tanto para tirar as respectivas vantagens políticas e estratégicas. 

Em relação a aspectos concretos do que aconteceu naquela noite, há ainda uma coisa que não me sai da ideia: desconfio que o que causou tudo aquilo foi o facto de termos ligado o nosso potentíssimo radar, num momento em que ninguém sabia que estávamos ali. A radiação subitamente emitida poderá ter sido considerada um sinal de agressividade por "algo que andasse por ali", daí termos depois sofrido aquela "inspecção", ou seja, aquela luz fortíssima que iluminou todo o avião pode ter sido motivada pela acção do nosso radar», recorda o ex-tenente-coronel Carlos Feliciano Pereira.

Mas como em quase tudo na vida se consegue extrair uma nota de humor, também há detalhes que ainda hoje fazem sorrir Carlos Pereira com bonomia. «Um oficial superior, que pertencia ao staff do general e que por acaso era de todos eles o que tivera a reacção de maior entusiasmo, no meio de toda aquela excitação disse algo tão sensato quanto isto:

 - "Foi uma pena que vocês não tenham partido logo para cima da coisa, agressivamente." Curiosamente foi o mesmo que alguns meses antes desse nosso encontro, ao tomar conhecimento de que andávamos a tentar perseguir e abater um helicóptero que passava a fronteira para abastecer o inimigo, nos sugeriu:

- "Ó pá: vocês são um avião grande... Metem-lhe uma asa e entor­nam o gajo!"»

Carlos Feliciano Pereira conta amiúde a sua história, sempre que a memória lhe é requisitada entre amigos.

Nos arredores de Lisboa, na sua casa perto do mar, guarda ainda as cópias do relatório que levou a palavra «confidencial» a carimbo vermelho e enigmático e as fotos do Neptune que pilotava nessa noite: 

«E quase sempre me perguntam por que é que eu não tentei saber mais, porque não exigi que me dissessem qual tinha sido o curso das investigações. É difícil explicar.. . talvez tenha tido que ver com a própria atitude de contenção que se exigia a um militar e pelo facto de estarmos em guerra e de haver preocupações e pro­blemas muito mais urgentes. 

Mas eu agora tenho pena de não ter perguntado mais...

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