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sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Tecnologia de outro mundo?


Quais são os 300 discos de pedra encontrados em um antigo templo de 5.000 anos localizado na Dinamarca? É uma tecnologia de outro mundo?

Na ilha de Bornholm, na costa da Suécia, proliferam as lendas sobre os Aesir, uma espécie de semideus que submeteu e instruiu os habitantes desta ilha dinamarquesa, cercados pelas águas frias do Mar Báltico, e dizem que eles poderiam ter deixado para trás uma tecnologia de outro mundo. 

Bornholm também abriga um dos sítios arqueológicos mais fascinantes do mundo que se relaciona com essa raça de gigantes que deu origem aos deuses escandinavos míticos. Há quase 30 anos, os restos de uma paliçada de mais de 5.000 anos sob a forma de labirinto foram descobertos em Vasagård. 

No fundo, os pesquisadores localizaram um pedaço de parede decorado com símbolos solares, o que lhes permitiu deduzir que este deveria ter sido um templo da Idade da Pedra, o primeiro de seu tipo. Uma descoberta posterior pareceu confirmar isso. Eram 2.300 figuras de ouro esculpido que mostravam estranhos seres macro cefálicos, com apenas três dedos no final dos braços longos. Os Aesir eram?

A ciência ignora o propósito de mais de 300 pedras escavadas na Suécia que datam da idade da pedra 

"Na tentativa de acrescentar lógica, especulou-se que esse local havia sido destinado a um local de culto e que as pequenas figuras douradas eram uma espécie de oferta periódica" - explica o pesquisador José Antonio Prieto. Mas, eu me pergunto: de que tipo de credo estamos falando? «É estimulante ver como os habitantes da região ainda falam hoje de luzes poderosas nos céus» - acrescenta.

A relação estabelecida por Prieto entre as luzes no céu e os seres macro cefálicos foi corroborada pela recente descoberta, no final de dezembro de 2017, de 300 discos de pedra entalhada nos quais foram gravadas linhas e símbolos que lembram o sol. Por esse motivo, eles foram baptizados como pedras solares e ninguém sabe para que eram ou por que tentaram queimá-las.

O finlandês Ole Sonne Nielsen, arqueólogo-chefe do Museu Bornholm, acredita que as pedras demonstram o culto ao sol de seus ancestrais. «Não é de surpreender, porque eram agricultores e, portanto, totalmente dependentes do sol para cultivar o solo e manter a vida. As rochas redondas - ele acrescenta - são de tamanho diferente, mas em todas elas um sol redondo com seus raios está presente.

Confesso que a história trouxe à mente uma leitura fascinante da minha adolescência intitulada Os Deuses do Sol no Exílio. Seu autor, Karyl Robin-Evans, descreveu em suas páginas uma expedição ao Tibete em 1947 para reunir informações sobre um disco comprado na Índia ou no Nepal por um colega dele de Oxford. 

Durante sua invasão a Baian Kara Ula, o explorador encontrou uma tribo chamada Dzopa cujos ancestrais vieram de - de acordo com suas tradições - um planeta que orbitava a estrela síria. Um problema em sua nave os deixou presos na Terra em algum momento do ano 1014 de nossa era. Como os escandinavos, eles tinham registos com gravuras de seres macro cefálico e três dedos nas extremidades.


No entanto, descobriu-se que "Robin-Evans e Lolladoff e seu colega de Oxford são personagens fictícias inventadas por David Gamon , o verdadeiro autor do livro" - esclarece o editor do Olho Crítico, Manuel Carballal. "Os dzopa, o termo que significa 'homem das montanhas' no tibetano, são, no entanto, um povo real de profundas convicções religiosas, especificamente budistas", acrescenta ele.

Decepção no entanto, houve registos. Um engenheiro austríaco chamado Ernst Wegener conseguiu fotografá-los em 1974, embora, diferentemente dos publicados no livro de Gamon, eles não possuíssem desenhos de seres de cabeça grande. 

Confesso que, obcecado com o assunto, fui viajar à China para tentar localizá-los no Museu de Banpo, em Xian. Lá encontrei o termo bi , mandarim, que significa disco e que está relacionado a alguns tubos ( Cong ) localizados em seu orifício central. Eles se lembram dos discos de vinil poderosamente, excepto que sua antiguidade remonta ao terceiro milénio aC Ninguém sabe sua função.

Seus tamanhos variam entre o centímetro e o metro de diâmetro e seu grau de sofisticação continua surpreendendo os pesquisadores. Como as pedras solares encontradas na Escandinávia, esses discos de jade constituem um testemunho impressionante e enigmático de um culto desconhecido ou, talvez, parte de uma tecnologia cuja função não podemos imaginar.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

"Marree Man." NASA divulga fotografia de geoglifo mistério na Austrália


Tem 3,5 quilómetros de comprimento e é visível do espaço. Não é conhecida a autoria deste desenho com a figura de um homem, nem com que intuito esta obra foi deixada no local.

"Homem de Marree" [Marree Man] é um desenho gravado na terra em solo australiano. Desde que foi detetado por um piloto, em 1998, o geoglifo tem gerado mistério e especulação, mas a NASA acaba de divulgar uma fotografia da inscrição situada no sul da Austrália.

Tem 3,5 quilómetros de comprimento e é visível do espaço. Não é conhecida a autoria deste desenho com a figura de um homem, nem com que intuito esta obra foi deixada no local.

Em 2016, refere a CNN , os contornos do desenho foram reforçados por uma comunidade de uma cidade a 60 quilómetros do lugar, para que a erosão não apagasse as suas linhas.

Várias teorias têm surgido ao longo dos anos quanto à autoria do geoglifo. Acredita-se que tenha sido idealizado por um artista profissional, mas as hipóteses divergem no que diz respeito à nacionalidade do autor. De Alice Springs (Austrália) ou dos EUA, o artista fez nascer uma obra misteriosa que pode vir a tornar-se verde, já que o grupo de pessoas que reforçou os limites do desenho criou sulcos de vento, projetados para capturar a água e incentivar o crescimento da vegetação.

A imagem divulgada pela NASA data de 22 de junho de 2019.

Fonte: TSF

Arqueólogos descobrem restos mortais de mulher cita com um cocar de ouro

O crânio da mulher cita encontrada com um cocar cerimonial

Uma equipa de arqueólogos descobriu os restos mortais de uma antiga mulher cita, enterrada com um cocar cerimonial feito com metais preciosos como ouro.

De acordo com a Newsweek, o túmulo continha ainda os restos mortais de duas jovens mulheres, com idades entre os 20 e os 29 anos e os 25 e os 35 anos, e de uma rapariga que devia ter entre 12 e 13 anos.

A equipa de arqueólogos fez esta descoberta no Cemitério Devitsa V, no sudoeste da Rússia, de acordo com o comunicado divulgado pelo Instituto de Arqueologia da Academia de Ciências Russa.

As mulheres são citas, nómadas e guerreiras que vieram das estepes da Eurásia, naquilo que hoje em dia é o sul da Sibéria — antes de estenderem a sua influência por toda a Ásia Central, da China ao Mar Negro.

Pensa-se que a mais velha das quatro tenha morrido quando tinha entre 45 e 50 anos — um feito impressionante para um tempo em que se acredita que a expectativa média de vida tenha sido de 30 a 35 anos. Os citas parecem ter tido um maior risco de morrer no início da idade adulta do que outros grupos da Idade do Ferro devido à sua propensão para a guerra.

A mulher foi encontrada enterrada com um cocar cerimonial decorado com padrões florais, com um aro que exibe pingentes em forma de ânfora. É feito de ouro (65% a 70%) com cobre, prata e uma pequena fração de ferro. Segundo os investigadores, esta é uma grande concentração de ouro para a cultura cita.

Do lado esquerdo, uma reconstrução desse cocar

Uma das mais jovens foi encontrada na posição de cavaleiro, de forma a que os tendões das suas pernas fossem cortados. Ao seu lado estava um espelho de bronze, uma pulseira de missangas, duas lanças e dois vasos.

No local, os arqueólogos descobriram ainda um gancho de ferro em forma de pássaro, fragmentos de um chicote de cavalo, ganchos de ferro para pendurar arreios, facas de ferro, ossos de animais e uma coleção de mais de 30 pontas de flecha de ferro.

A equipa também descobriu uma passagem de ladrões no extremo norte do local do enterro, que pensa ter sido escavado um ou dois séculos depois da construção do túmulo. Apenas as partes norte e leste da sepultura — onde a adolescente e uma das mulheres estão enterradas — parecem ter sido atingidas.

Valerii Guliae, que liderou a investigação, afirma que esta é a primeira vez que um enterro de mulheres citas, com idades diferentes entre si, é encontrado.

“Deparámo-nos com um enigma: duas mulheres no auge da idade, uma adolescente e outra bastante velha para a época cita. Não é claro como poderão ter falecido na mesma altura. Não têm vestígios de lesões ósseas. Existem algumas marcas de tuberculose e brucelose, mas essas doenças não podem causar a morte de forma simultânea“, afirma.

Fonte: ZAP

FACTO OU FICÇÃO General Steven Kwast (USAF): “Existe tecnologia para tele transportar seres humanos da Terra para qualquer lugar”


Steven Lloyd Kwast é tenente-general aposentado da Força Aérea dos Estados Unidos que realizou uma conferência no mês passado que parece sinalizar ainda mais que o espaço será o próximo grande campo de batalha.

A conferência de Steven Kwast, realizada no prestigioso Hillsdale College, incluiu comentários que sugerem fortemente a possibilidade de os militares dos EUA e seus parceiros da indústria já terem desenvolvido tecnologias de próxima geração que têm o potencial de mudar drasticamente o campo aeroespacial e a civilização humana para sempre, como também publicado pela revista The Drive num extenso artigo sobre tecnologia espacial avançada.


Entre os 11:55 - 12:10 minutos do vídeo que pode ver abaixo, Kwast afirma de alguma forma bizarra que os Estados Unidos actualmente têm tecnologias revolucionárias que podem tornar obsoletas as actuais capacidades aeroespaciais: ”Actualmente, a tecnologia está presente nos bancos de engenharia. Mas a maioria dos americanos e a maioria dos membros do Congresso não tiveram tempo de realmente analisar o que está acontecendo aqui. 

Mas tive o benefício de 33 anos de estudo e amizade com esses cientistas. Hoje, essa tecnologia de ponta pode ser construída com um sistema tecnológico não muito evolutivo, adequado para transportar (ou melhor, tele transportar - ADN) de qualquer ser humano de qualquer lugar do planeta Terra, para qualquer outro lugar em menos de uma hora . Assim, o general Kwast, em seu discurso no Hillsdale College, afirmou claramente que a tecnologia STARGATE realmente existe.


O Dr. Dan Burisch, um ex-funcionário das forças militares secretas dos Estados Unidos, que também trabalhou directamente sob as ordens do "Majestic 12" fala sobre essas tecnologias. Uma de suas declarações mais importantes diz respeito a "Stargate" ou portais dimensionais. São dispositivos fabricados também na Terra, mas com tecnologia de origem extraterrestre. Segundo o Dr. Burisch, as informações sobre como construir os Stargates estão nas tabelas sumérias que eram usadas para se comunicar com outras civilizações extra-planetárias.


Através dessa tecnologia Stargate, qualquer ser humano pode ter acesso a um buraco de minhoca e se tele transportar da Terra para qualquer outro lugar, mesmo no espaço, na Lua ou em Marte. Dan descreve um Stargate que está na Área 51 dizendo que próximo a esse enorme aparato, havia uma plataforma que permitia que o objecto fosse jogado dentro do buraco de minhoca para viajar para outras estrelas, transportando pessoas ou materiais de um lugar para outro, instantaneamente.

Novamente, uma teoria da conspiração se torna realidade e foi demonstrado que o tele transporte não é apenas ficção, é uma realidade.

Também nos mostra o quanto os governos escondem, por segurança ou por seguir uma agenda sombria da tecnologia que existe hoje, que é muito mais avançada do que podemos imaginar.

O que acha? Acredita nas palavras do tenente-general Kwast sobre tele transporte? 


Fonte: SOUL:ASK

sábado, 28 de dezembro de 2019

Vamos ter as doenças que os políticos quiserem

Sobrinho Simões e Elsa Lagartinho falam sobre as doenças do futuro 
© Leonel de Castro/ Global Imagens

Sobrinho Simões, médico, 71 anos, investigador na área do cancro, e Elsa Logarinho, 46 anos, especialista em genética e líder da equipa que descobriu o gene da juventude, falam sobre as doenças e a sociedade que aí vem.

Uma hora e dois minutos. Foi quanto bastou para que Sobrinho Simões e Elsa Logarinho lançassem algumas questões sobre o futuro. Poderiam ter sido duas, quatro, quantas pudessem levar-nos a esmiuçar o sentido de cada palavra, de cada pensamento de um e de outro, para melhor aprofundarmos o que de inquietante aí vem. Mas sempre no pressuposto de que o que dizemos hoje pode não ser verdade em 2064. Tudo vai depender dos políticos que mandarem no mundo e das políticas que definirem. Fala-se muito do esgotamento dos recursos naturais mas, na opinião dos cientistas, a política, a comunicação e os relacionamentos também se esgotaram. «Hoje já não somos só o que comemos, somos muito mais e seremos cada vez mais aquilo que os políticos definirem para o nosso bem-estar, desde as políticas ambientais, de saúde, de trabalho, de natalidade, de compensação, etc.», diz Sobrinho Simões.

Seremos tudo o que conseguirmos prevenir e fazer para mudar a nossa vida. Sem medos nem receios da palavra envelhecimento, porque este é o caminho a partir do momento em que se nasce. «Começamos a envelhecer assim que nascemos», diz Elsa Logarinho. Afinal, é esta a doença que aí vem, de forma crónica, não aguda, e para todos, «se não dermos antes cabo do mundo», alerta o professor.

Hospital de São João, no Porto, numa manhã de terça-feira antes do Natal. As agendas dos dois cientistas estão recheadas de compromissos, mas um e outro adaptaram-nas. Para a conversa levaram pensamentos, ideias para discutir, mas também uma só pergunta: o que vai acontecer? O DN lançou outra.

Que doenças vamos ter em 2064? «Muitas, não tenho dúvidas, e a Elsa? Não sabemos o que nos vai acontecer, isso é impossível. Sabemos que vamos ficar muito velhinhos, vamos esticar tanto a idade das pessoas que vamos ter mais doenças, mas de outro tipo. Os cancros, por exemplo, serão pequeninos. O corpo de um velhinho não tem energia para que um cancro se desenvolva. Vão aparecer na mesma, até mais, mas quanto mais velhinhos ficarmos mais pequeninos serão.»

"Os políticos podem decidir que a partir de hoje ninguém come carne, ninguém anda de carro e ninguém usa plásticos. Nós obedecemos e assim acredito que possa haver mudanças."

«O que tem graça é que os cancros vão aumentar muito como incidência, mas não como causa de mortalidade», completa Elsa. «Vamos morrer de outras coisas. Em relação às doenças neurodegenerativas e ao Alzheimer, está previsto que em 2050 dupliquem, mas a esperança média de vida também vai aumentar para os 80 e muitos anos. Se hoje uma pessoa com 65 é capaz de procurar um geriatra, em 2064 projeto que só o faremos com 75 ou mais anos.»

Mas quais são as doenças que nos vão atacar mais?, insistimos. As que já existem, como o cancro, a diabetes, a artrite reumatoide, ou outras? Para o professor Sobrinho Simões, «vamos ter é insuficiência cardíaca, doenças cardiovasculares, insuficiência sistémica, essas vão ser as grandes doenças». Elsa Logarinho fala em «infeções e doenças virais. «Nem vai ser preciso que sejam vírus de estirpes muito raras, podem até ser de estirpes banais, mas se atacarem alguém em idade mais avançada será difícil dar a volta à infeção. Consegue fazer-se isso em pessoas mais jovens, mas com idade avançada não, porque já houve uma perda de resposta autoimune.»


O professor olha para a doutora e explica: «O que a Elsa está a dizer é muito importante. Vêm aí as doenças por falência da capacidade de resposta do organismo, porque vamos chegar a muito velhinhos e perder cada vez mais a eficiência na reparação de erros no nosso organismo, os erros que se vão acumulando ao longo do tempo. Só que seremos tão velhinhos que nada disto será dramático.»

Não? Nem assustador ou doloroso? O envelhecimento não nos fará sentir assim? «Não. Nada será dramático», responde o professor já reformado. Pelo contrário, «vai ser a possibilidade que temos de sobreviver com uma qualidade de vida muito longa».

"Vêm aí as doenças por falência da capacidade de resposta do organismo, porque vamos chegar a muito velhinhos e perder cada vez mais a eficiência na reparação de erros no nosso organismo."

Lado a lado na sala de reuniões do serviço de patologia, o diálogo entre os dois faz-nos perceber que vamos chegar a velhos, a muito velhinhos, com cancros, infeções e sem resposta imunitária para algumas situações. «À medida que temos envelhecimento vamos tendo ou não resposta imunitária à inflamação. Por isso, hoje usamos muito uma palavra, inflammaging», diz Sobrinho Simões.

O que é o envelhecimento senão um estado inflamatório? A diferença, diz Elsa Logarinho, «é que é um estado inflamatório crónico e não agudo. Não é como uma gripe». A bioquímica, que aos 15 anos soube que queria seguir investigação, esclarece: «O nosso organismo vai acumulando células velhinhas, zombies, senescentes, e essas células são pró-inflamatórias, enviam para o sistema imunitário químicos e proteínas que provocam estados inflamatórios. Mesmo as células saudáveis que estão vivas e na vizinhança acabam por estar sujeitas a essa inflamação. Daí o inflammaging.»

Sobrinho Simões interrompe: «Em 2064, as pessoas vão ter mais de 100 anos. A doutora sabe disto muito mais do que eu. Ela estuda o envelhecimento. Mas há algo que eu sei: temos muito pouca tradição de começarmos a cuidar-nos desde o nascimento.»

A conversa toca num ponto essencial: «Temos a palavra cuidar, mas ao contrário do que se pensa o cuidar não é compaixão - que também é importante. Mas este cuidar tem que ver com a ética do care. É o cuidar desde o nascimento. Portanto, a primeira coisa a fazer para se ter um velhinho razoável, saudável, é que seja cuidado desde recém-nascido, para já não falar da gravidez», afirma o patologista, acrescentando que se há mudanças que temos de fazer no futuro esta é uma delas. «As pessoas têm de começar a pensar em cuidar-se muito antes. As crianças têm de brincar, saltar à corda, têm de se mexer e têm de se relacionar.»

"A falta de atenção, de tempo, de ausência de relacionamentos, pode levar-nos a doenças ainda mais graves: às sociopatias. Serão estas as doenças do futuro? Não, Estas já são doenças do presente."

Elsa Logarinho interrompe-o também: «Isso é muito interessante. Os estudos sobre o envelhecimento estão a tentar perceber qual é o impacto a nível celular de todas as receitas que conhecemos, como as dietas, a restrição calórica, os períodos de jejuns, a importância do sono, o respeitar o ciclo circadiano, o exercício físico. Todos estes fatores estão a ser testados no modelo animal para se perceber a nível celular e molecular como podem influenciar e aumentar a esperança de vida no modelo animal e, depois, certamente no humano.»

Sobrinho Simões lança a dica da fome à investigadora e ela responde: «A fome é um aspeto muito curioso. Quando ficamos doentes, o que nos acontece logo? Deixamos de comer. É uma resposta ao estado inflamatório do nosso organismo. Faz-nos jejuar para baixarmos a inflamação.»

Ele acrescenta: «É uma resposta inteligente do organismo. As pessoas têm de dormir, as crianças têm de brincar, de aprender a lavar os dentes, não podem ter cáries, tudo isto importa.» E ela garante: «O pior no envelhecimento é o açúcar.»

Sobrinho Simões continua: «Há dietas que podem associar-se a certos tratamentos de doenças. Não são aquelas em que nos dizem que podemos comer muitos brócolos. Gostam de brócolos? Comam, mas não se encham disso. Temos é de ter esta noção: diminuir os hidratos de carbono. Os portugueses fazem uma alimentação hipercalórica, encharcam-se em açúcar.» Neste momento, e de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), trinta por cento das nossas crianças sofrem de obesidade. Não pode ser, algo tem de mudar. E a carne? Há que eliminá-la de vez da alimentação?, perguntamos. «Isso não, mas consumi-la com bom senso», defende o professor.

«A carne também tem o problema da sustentabilidade ambiental. A sua produção está a destruir o ambiente», argumenta a investigadora. O professor brinca: «As vacas é que estão a dar cabo disto tudo, mas nós gostamos tanto de carne... A grande descoberta é que em dois milhões de anos o ser humano ficou muito esperto. É algo extraordinário, e não sou crente. Saiu melhor do que as encomendas, mas agora podemos dar cabo de tudo.»


Dar cabo do mundo? «Claro», responde o professor. «Não é o capitalismo que vai dar cabo disto. Muito antes de acabar o capitalismo acaba o mundo, literalmente. As pessoas não fazem ideia do que está a acontecer com o clima ou com a biodiversidade.» A investigadora do I3S, que integra o Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (Ipatimup), interrompe-o: «O desequilíbrio da biodiversidade compromete o futuro e, em termos de projeções de doenças, podemos dizer que os grandes predadores - ratos, insetos, mosquitos -, que estão a ter migrações muito atípicas, são os maiores portadores de vírus. Na pior das projeções para 2064, posso prever que apareçam novas estirpes de vírus que não conseguiremos controlar. Estirpes com outras temperaturas, humidades. Por exemplo, o degelo do Ártico. Está tudo preocupado com o aumento do nível do mar, e com o que está no gelo? É que ali também estão vírus e bactérias que desconhecemos e que podem chegar cá.»

O ambiente e a biodiversidade entram na conversa. «Havia uma diversidade brutal de espécies e um equilíbrio que nos mantinha, mas se rebentarmos com ele ninguém consegue prever o que vai acontecer... e certamente que não é bom. Depois, em 2064, não vamos caber todos, seremos uns dez mil milhões a ocupar o solo, a usar a água e todos os outros recursos. Não vamos aguentar.»

Mas se há doenças que prevê para o futuro são as infeções e a falência do sistema. Todas as outras já nos acompanham e vão ser tratadas ou retardadas. «Estamos a esquecer-nos de uma coisa: os implantes», alerta Elsa. «Os ciborgues», ataca o professor. «Mas tudo quanto é prótese e implante só irá funcionar para cinco por cento da população. Pode haver um ciborgue para um Simões, mas para um milhão será difícil.» Ri-se: «Gosto muito dela porque pensa muito bem. Está a pensar melhor do que eu pensava [riem-se]. Nós cientistas devíamos conversar mais vezes.»

Como cientistas muito têm falado do fim dos recursos naturais - da água, do esgotamento dos solos, mas há outros dois pontos que se esgotaram: «A política esgotou-se. Por isso temos um desequilíbrio brutal. Veja a erupção dos populismos disparatados. E há outra coisa que queria discutir : a pouca disponibilidade para termos atenção. Ninguém tem atenção, não acha?», questiona o patologista.

«Acho. Isso é o que algumas pessoas chamam de personalidade computorizada. Estamos a tornar-nos pessoas do yes, no, like, delete. Transpondo isso para as doenças, serão as que implicam questões psicológicas.»

Sobrinho Simões vai mais longe e defende que a falta de atenção, de tempo, de ausência de relacionamentos, pode levar-nos a doenças ainda mais graves. «Às sociopatias.» Serão estas as doenças do futuro? Não, diz, estas já são doenças do presente, mas «podem agravar-se no futuro».

A cientista concorda: «Serão mais graves porque há a perda de contacto com a natureza, com a comunicação. As pessoas sabem cada vez menos relacionar-se. Já não contam histórias uns aos outros», comenta o professor, contador nato de experiências vividas. «A falta dessa componente afetiva e emotiva vai refletir-se social e economicamente», argumenta Elsa Logarinho. «Às vezes penso que quando há grandes desequilíbrios na sociedade aparecem medidas retificativas. No futuro, quero acreditar que vai acontecer o mesmo e que alguma coisa será feita.»


«Tem de ser feita alguma coisa, quanto mais não seja por medo», argumenta o cientista. A investigadora reforça: «Tem de haver uma mobilização mundial. Independentemente dos políticos doidos ou não, tem de haver algo que permita convergir no sentido de medidas retificativas e eficazes, quer no ambiente quer no trabalho ou em todas as outras políticas. Os políticos podem decidir que a partir de hoje ninguém come carne, ninguém anda de carro e ninguém usa plásticos. Nós obedecemos e assim acredito que possa haver mudanças...»

A sociedade de que falam, a que não tem disponibilidade para a atenção, tempo para relacionamentos, deixará de ser competitiva?

«Não sei», responde o professor. Será uma sociedade repleta de personalidades computorizada? «Já é uma sociedade do imediatismo, em que acabou toda e qualquer forma de nos expressarmos que não seja por uma emoção. Não há tempo para os sentimentos, já ninguém os quer. O imediatismo trouxe a recompensa imediata para tudo. Por isso pergunto à Dra. Elsa: o que vai acontecer? Como serão estes miúdos dos computadores? Serão competidores? O que vão eles trazer-nos?»

«Eles podem ser competidores ou não, mas a adição à tecnologia é um comportamento aditivo e isso nunca é saudável. Ou seja, pode acontecer que muitas das pessoas desta geração, ao terem este comportamento aditivo, percam uma certa noção da responsabilidade com o trabalho, com a família e isso...» O professor interrompe e lança mais uma certeza: «A família acabou. E não só. E o sexo? Como vai ser? É que isto também tem importância.»

«O sexo será virtual», diz Elsa Logarinho a rir. O professor insiste: «Isto é muito importante. Há muitos estudos que dizem que os jovens fazem cada vez menos sexo.» E isso vai tornar-se uma doença? Vai influenciar o envelhecimento? «Vai afetar a demografia», responde Sobrinho Simões. «Acabaram as crianças nas sociedades desenvolvidas, eu não vejo crianças, só vejo corpos velhinhos. Mas não sei o que vai acontecer, sou de uma geração em que o sexo era das melhores coisas que havia. Agora, parece que dá um trabalhão, que é uma chatice.»

O sexo será ou não uma compensação para o ser humano? Uma expressão de afeto? Será só uma necessidade? Poderá ser substituído por outros estímulos? As perguntas ficam no ar. Elsa ri-se. «Eu tenho miúdos pequenos e fico passada quando me dizem que não têm nada para fazer, se a televisão está desligada ou se estão sem o tablet. Digo-lhes logo: vão brincar. Mas isto é o que acontece hoje, tanto crianças como jovens têm pouco contacto com o exterior. E isso vai influenciar também a forma como vamos envelhecer.»

Vivemos a geração das crianças superesterilizadas. Onde é que isso irá levar-nos? A mais autoimunidades? Sobrinho Simões reage: «As alergias estão a aumentar extraordinariamente, em parte por isso. É assustador. Os pais e os professores têm medo de que as crianças brinquem, que se sujem, que tenham contacto com a água ou com a terra. Eu não queria acreditar quando li que um terço das crianças portuguesas não sabiam saltar à corda.»

Para os cientistas, esta questão é importante e faz-nos regressar às doenças. Quais vão ser piores? Quais as que são o mal menor? Como as prevenir? O investigador não tem dúvida: «Para mim, as piores, se não estiver diminuído mentalmente, serão as que estão associadas à falta de mobilidade, visão e audição. E o mais engraçado é que estas aparecem em grande parte porque não temos a tal ética do cuidar, do care, de um estilo de vida que nos leve a viver muito mais fora do que dentro.»

A investigadora do I3S, também nascida e criada no Porto, curso feito na universidade da cidade, relembra que «o envelhecimento é contínuo, nós próprios adiamos a nossa idade desde o dia em que nascemos». Por isso, tudo o que se fizer para o nosso bem-estar «tem de ser preventivo e não retificativo. Espero que em 2064 a sociedade esteja mais informada sobre qualidade de vida, acredito que haverá maior tendência para seguir boas dietas, para se fazer exercício físico regularmente e que tudo isto ajude a aumentar a esperança média de vida, porque a que se alcançou até agora foi pela melhoria dos cuidados médicos.»

Agora é a vez da medicina. O que nos trará no futuro a área que progrediu à velocidade da luz no último século - da penicilina à robótica? «Vamos ter mais capacidade para tratar, prestar cuidados médicos», diz Sobrinho Simões.» O mais interessante vai ser perceber «quanto mais a medicina e a investigação poderão estender a nossa longevidade pelo tratamento dos órgãos», lança a bioquímica.

«Se nos mantivermos todos com os nossos órgãos, se não fizermos substituições de peças, até onde poderemos ir? Há um estudo sobre a esperança média de vida para indivíduos com 100 anos que é igual tanto para o início do século xx como para o xxi. Parece que os 100 anos são a nossa base genética. O que acha?» Sobrinho Simões responde: «A espécie tem limites. Individualmente, poderemos ir até aos 110 ou 120, mas no geral não.»

Sendo o cérebro o órgão mais difícil de tratar e estando as doenças neurodegenerativas a aumentar, o futuro é assustador? «Não. O que é preciso é estimular a regeneração», explica o patologista. «Sabemos que as células pró-inflamatórias no cérebro estão a contribuir para a incidência ou para o agravamento das doenças neurodegenerativas, como Alzheimer ou Parkinson. Se conseguirmos retificar estes estados inflamatórios, através de melhor qualidade de vida, ou de medicação que se descubra entretanto, talvez possa adiar-se a neurodegeneração», diz a investigadora.

O que envelhece primeiro no nosso organismo? É possível saber? Não, dizem-nos. Os órgãos comunicam uns com os outros. Mas o que é pior? Ter um fígado velho com um cérebro jovem ou um cérebro mais velho e um fígado novo? Isto será inevitável? «Não, mas é uma verdade», diz o professor. «Pode haver assimetrias em que nem a cabeça nem o corpo funcionam», adianta Elsa Logarinho, que espera que o futuro traga «terapias antienvelhecimento eficazes».

E a depressão? O tempo que tinham para conversar está a terminar e ainda não se falou da doença que dizem ser a epidemia deste século. Portugal é dos países da Europa onde mais se consome ansiolíticos e antidepressivos. A perspetiva de uma sociedade computorizada levará a que a doença aumente ainda mais? Para a investigadora, «a depressão vai crescer», mas diz que esta não é a sua área e que tem muita dificuldade em classificar as doenças. «O que me preocupa é o rótulo dado a estas doenças.» Sobrinho Simões comenta: «Há muitas demências, mas não sei se há mais depressão. O que sei é que somos dos povos do mundo que mais medicamentos tomamos para a depressão. Somos grandes consumidores de pastilhas, pingos e TAC.»

«Eu tomo algumas. Só de pensar que vou ter uma dor de cabeça tomo logo uma pastilha», confessa. Elsa assume: «Não tomo nada. Mas no caso do professor parece funcionar, pelo menos previne.»

Depois do riso, a preocupação. «Ninguém sabe se a depressão está a aumentar, o que está a aumentar são os velhinhos. E voltamos ao mesmo, às doenças do futuro, que, no fundo, será uma só: o envelhecimento.»

Doenças previsíveis como artrite reumatoide, artroses, diabetes, cancro e Alzheimer vão acompanhar-nos. Disto não há que duvidar. Poderemos ser surpreendidos pelas imprevisíveis: as virais. E a surpresa pode chegar pelo simples facto de se rejeitar a vacinação. «Podemos voltar a ter doenças que pensávamos estarem erradicadas», alerta Elsa. «Mas podem trazer algo mais sério, como o que aconteceu na viragem do século xxi, o vírus HN1, ou até uma peste. É catastrófico, eu sei, mas é o imprevisível.»

Para 2064, Sobrinho Simões tem um grande receio: «Como vai ser o poder? Vai ser mais concentrado, mais capitalista, de face chinesa ou americana? Vão ser poucos a mandar e o resto a trabalhar? Vão querer que sejamos muito saudáveis e felizes para sermos mais produtivos? Ou vão querer apenas mão-de-obra barata e tratar-nos à bruta? Esta é a grande questão: como vai ser a política?»

«Se não forem parvos, vão querer que sejamos civilizados, magrinhos, saudáveis, simpáticos, bem-educados», diz a rir-se. Elsa acrescenta: «E põem-nos a trabalhar até aos 80 anos.» «Exatamente. Não tenho dúvidas de que as doenças do futuro serão aquelas que os políticos quiserem, aquelas que surgirão das políticas que aprovarem quer a nível ambiental quer de trabalho, natalidade, lazer, prazer. Tudo isto importa.»

No final, ainda há tempo para elogios, perguntas e comentários entre os dois. «Aprendi imenso com ela. Pensa muito bem. Ainda está na fase em que pensa que é praticamente imortal. Eu já estou na fase em que não estou assustado, mas triste com a velhice. A Dra. Elsa ainda tem o olho brilhante quando fala de tudo.»

Elsa Logarinho contra-argumenta: «Eu é que continuo a aprender com o professor. É um exemplo do que é o envelhecimento ativo. Portanto, não pode estar pessimista. É o que todos deveríamos projetar para nós em 2064.» Ele, que já passou por um acidente vascular cerebral, confessa: «Sabe, tenho uma toxicodependência: o trabalho. É uma fuga em frente.» Ela responde de forma positiva: «Apesar de tudo, não é bom estar aqui?» «Sim, é bom. Se pudermos levantar-nos de manhã», responde o professor a rir-se. O tempo acabou. Agora esperava-o uma reunião em Coimbra.

Será esta a receita para 2064?

Fonte: DN

Segundo navio oceânico 100% português ganha forma nos estaleiros de Viana


Segue a bom porto a construção do segundo navio oceânico de fabrico inteiramente português. O MS World Voyager vai ganhando forma nos estaleiros da West Sea (subconcessionária dos extintos Estaleiros Navais de Viana do Castelo) e prepara-se para navegar pelos diferentes oceanos do globo com a chancela do coração do Alto Minho.

Construção do MS World Voyager. Foto: Mário Ferreira

Mário Ferreira, empresário proprietário da Mystic Invest, responsável pela gestão destes navios, adianta que o mesmo deverá entrar em atividade antes de maio de 2020, “porque já estão bilhetes vendidos para essa altura”.

De acordo com as especificidades do navio, consultadas por O MINHO, o mesmo terá um custo de cerca de 70 milhões de euros, valor aproximado da primeira versão deste navio oceânico, que já zarpou em agosto de 2019 para águas geladas do Norte da Europa.


Este novo navio, à semelhança do Explorer, está preparado para expedições no gelo, atingindo velocidades de 18 milhas horárias (30 quilómetros horários) com uma extensão de 126 metros de largura e uma boca náutica de 19 metros.

Construção do MS World Voyager. Foto: Mário Ferreira

Várias viagens já foram vendidas até final de 2020

O MINHO consultou o promotor destas viagens, a Nicko-Cruises, confirmando as afirmações de Mário Ferreira, de que vários bilhetes já foram vendidos e outros tantos se encontram disponíveis para venda.

Por exemplo: entre 24 de outubro e 02 de novembro de 2020, com bilhetes a partir dos 2.399 euros, poderá fazer uma viagem no novo navio pelo Mar Mediterrâneo, passando por Valeta, Ilhas Lipari, Amalfi, Córsega, Maiorca, Valência, Málaga e Lisboa.

Os bilhetes podem variar de preço por entre os 200 lugares disponíveis em oito conveses (deques), três deles com 86 cabines.


6.699 euros (por pessoa) é o preço de bilhete mais caro, comportando a estadia numa suite situada no sexto convés.

Mais navios a caminho

Segundo a promotora destas viagens, novos navios podem estar a caminho, para além dos três inicialmente apontados por Mário Ferreira. A Nicko-Cruises dá conta de, pelo menos, mais três navios além dos já espectados.

Depois de World Explorer (2019), deste World Voyager (2020) e do World Navigator (2021), é ainda anunciado o World Traveler (2022), World Adventurer (2023) e o World Seeker (2024).

A Nicko-Cruises, empresa alemã de viagens em navio cruzeiro, aluga (à Mystic Cruises) as embarcações durante grande parte do ano. Já a Quark Expeditions aluga os navios para expedições no gelo polar.

Fotomontagem do MS World Voyager. Autoria: Nicko-Cruises

Os navios pertencem à empresa portuguesa Mystic Cruises, do mesmo empresário proprietário da Douro Azul.

Fonte: O Minho

sábado, 21 de dezembro de 2019

Misteriosos sinais são recebidos da mesma zona espacial


O observatório IceCube, localizado no Polo Sul, detectou um fluxo de neutrinos vindo de uma área do espaço cósmico.

Apenas 43 segundos depois, o observatório LIGO/Virgo, nos EUA, captou ondas gravitacionais provenientes da mesma zona espacial.

Já o observatório HAWC, no México, registou 80 segundos depois raios gama originados da mesma área.

O astrofísico norte-americano Daniel Hoak questionou a misteriosa sequência de eventos captada pelos três observatórios.

Alguns cientistas acreditam que os três fenómenos cósmicos poderiam estar relacionados. 

Sendo assim, as ondas gravitacionais registadas podem ter sido originadas pela fusão de um pequeno buraco negro e uma estrela de neutrões.

Signal in LIGO/Virgo data. Most likely #gravitationalwaves from a source with one component in NS-BH mass gap. Observed 24 minutes ago. Find out more at: https://t.co/VglnWwjvCN pic.twitter.com/jpvJ9dF9HJ
Sinal nos dados do LIGO/Virgo. Provavelmente, ondas gravitacionais vindas de uma fonte com um componente no intervalo de massa NS-BH. Observados há 24 minutos. 

O fluxo de neutrinos e radiação gama, captados de forma quase simultânea na Terra, poderiam também ter sido causados por essa fusão, no entanto, o facto de os fenómenos ocorrerem com intervalos de segundos faz com que a hipótese citada seja questionada.

"A sequência de eventos parece estranha: não entendo como é possível que 43 segundos antes da fusão de uma estrela de neutrões e um buraco negro (se foi isso que aconteceu), ocorra uma explosão de neutrinos, e 80 segundos depois dessa fusão sejam emitidos fotões com uma energia de aproximadamente 100 GeV", publicou Hoak.

O astrofísico russo Valery Mitrofanov, professor do Departamento de Física da Universidade Estatal de Moscovo e chefe do grupo científico de colaboração internacional LIGO, explicou que as ondas gravitacionais, os raios de neutrinos e a radiação gama se propagam à velocidade da luz, e as discrepâncias no tempo entre esses fenómenos espaciais sugerem que não estão relacionados.

Mitrofanov também afirmou que a diferença no tempo de recepção dos sinais não pode ser explicada pela falta de sincronização dos equipamentos ou outro erro técnico, já que nada parecido havia ocorrido antes.

Para esclarecer o misterioso evento no espaço, os especialistas dos três observatórios deverão verificar os dados e realizar uma análise exaustiva.

Fonte: Sputnik News

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Há um megadrone israelita a vigiar o mar europeu e os pilotos são portugueses


A Agência Marítima Europeia juntou Israel e Portugal num projeto inédito de cooperação para vigiar o Mediterrâneo. Portugueses foram treinados pelos israelitas para pilotar o gigante Hermes 900

Oito pilotos portugueses estão já a trabalhar em Tympaki, na ilha grega de Creta, no Centro de Controlo Terrestre onde é feita a vigilância de uma zona do mar Mediterrâneo, que é uma das principais rotas de refugiados em direção à Europa. Contratados pela Agência Europeia de Segurança Marítima (EMSA), estão em missão a pedido da Frontex (Agência Europeia de Guarda de Fronteiras). Foram treinados para pilotar um dos maiores drones do mundo - o Hermes 900 (o maior é o norte-americano Northrop Grumman RQ-4 Global Hawk) - fabricado pela Elbit, um gigante israelita da indústria de defesa.,


Como se fosse um jogo de PlayStation, é com um joy stick e teclados que os portugueses fazem o Hermes 900 levantar voo, aterrar e sobrevoar o mar grego, enquanto observam os ecrãs com as imagens de satélite. É a primeira vez que aquele mega drone é pilotado por portugueses, recrutados por um consórcio nacional de aeronáutica, o CEIIA (Centro de Engenharia e Desenvolvimento). Fazem parte de um projeto da EMSA, que disponibiliza drones aos estados membros que o pretendam para operações de vigilância marítima - controlo das pescas e da poluição do mar, tráfico de droga e imigração ilegal -, bem como para operações de busca e salvamento.

O primeiro teste a esta inédita aliança luso-israelita teve lugar na Islândia, durante os últimos seis meses, já depois de os portugueses, com idades entre os 25 e os 45 anos, terem recebido formação na sede da Elbit, em Telavive. As autoridades islandesas pediram à EMSA que este drone apoiasse a guarda costeira na vigilância do mar gelado da sua zona económica exclusiva, principalmente na monitorização de pesca ilegal.


Nesta missão, os portugueses ainda estiveram acompanhados por pilotos israelitas, mas agora na Grécia estão por sua conta. "É uma experiência única na vida e um grande privilégio fazer parte desta equipa excecional. É um projeto de grande potencial, com resultados surpreendentes", sublinha João, de 25 anos, residente em Lisboa (os nomes dos pilotos são fictícios, a pedido da CEIIA, por razões de segurança). Nunca antes tinha pilotado e interrompeu o curso de Engenharia Mecânica para viajar para Israel. Rafael, 37 anos, de Lagos, já tinha experiência de pilotagem de helicópteros e assinala que estar ao comando deste drone "é igualmente gratificante", tratando-se de uma missão que, "não tendo, naturalmente, o risco pessoal associado", necessita de todo "o rigor e exigência que são uma constante no mundo da aeronáutica".

O DN contactou a Elbit para comentar este projeto, mas não recebeu resposta. Da parte da empresa portuguesa, fonte oficial sublinha a "grande satisfação de poder participar nesta operação com a Elbit, a maior empresa de defesa de Israel, com grande prestígio e capacidade tecnológica". A CEIIA destaca que a cooperação estabelecida com Portugal, com a operação dos drones a ficar sob responsabilidade de um país estrangeiro, "é única no mundo". "Criou-se um ambiente de grande confiança", assinala a empresa.

Além dos pilotos, cujos perfis a CEIIA procurou que fossem "variados, com mais e menos experiência, mais novos e mais velhos", foram também recrutados em Portugal seis mecânicos - ou seja, no total, a operação do Hermes 900 envolve 14 portugueses.

Com estes drones, explica o porta-voz da EMSA, "os Estados membros dispõem de vigilância marítima que não poderia ser alcançada com os meios clássicos (terrestres, satélites e aeronaves tripuladas). Os RPAS (remotely piloted aircraft systems) oferecem a capacidade única de fornecer dados de alta resolução a uma grande distância e têm a capacidade de permanecer imobilizados no ar em situações no mar, "como num caso de busca e salvamento".


O Hermes 900, acrescenta a EMSA, "tem a grande vantagem de ter uma autonomia de 12 a 14 horas, muito maior do que alguns aparelhos tripulados, como helicópteros e aviões, que normalmente têm uma resistência menor (quatro a seis horas), devido à necessidade de mudança de tripulação e de abastecimento de combustível".

A CEIIA e a Elbit ganharam este concurso - no valor de 56 milhões de euros - em 2018 e a sua missão na Islândia teve início em abril deste ano. O contrato é por dois anos, mas prolongável por mais dois. Com esta aliança, a empresa portuguesa ganhou pilotos com formação de alto nível para poder concorrer a outros concursos internacionais. "Foi construída uma capacidade de base", salienta a CEIIA.

Fonte: DN

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

"Para os judeus sefarditas, a terra prometida nunca foi Israel. É Portugal e Espanha"

 

Da passagem medieval por Castelo de Vide à sinagoga do Porto criada no século XX. Do imaginário literário à materialidade da saudade. A TSF seguiu a rota da memória sefardita por Portugal e nela encontrou a terra prometida.

ichael Rothwell leva o livro sagrado até à linha dos olhos e abre-o com reverência, diante de uma sinagoga calada, a 25 Sivan do ano hebraico de 5779. O calendário civil marca 28 de junho de 2019, uma sexta-feira, e faltam poucas horas para o pôr-do-sol que inicia o sabat, e que apenas se extingue, de acordo com o Génesis, ao aparecimento das primeiras três estrelas da noite de sábado.

Aqui, em Portugal, não temos medo. O que temos é uma consciência histórica.

O templo está esvaziado da união de 10 homens de mais de 13 anos necessária ao serviço religioso, mas guarda a luz, sempre acesa, dirigida para Jerusalém. Para os judeus, a sinagoga tem de se orientar, como a própria ação o indica, para Oriente, onde o templo verdadeiro existiu em tempos.

"Escuta, Israel, o eterno é nosso Deus, o eterno é um. Bendito seja o nome daquele cujo glorioso reino é eterno. Amarás ao eterno, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas posses." As palavras são lidas da Tora, onde o hebraico e o português convivem como secularmente se falaram, sem empecilhos. A sinagoga portuense, Kadoorie - Mekor Haim ("Fonte de Vida"), a maior da Península Ibérica, reverbera as palavras de culto contra as paredes de azulejos com inspirações marroquinas, a favor da estrela de David.

 Michael Rothwell © Catarina Maldonado Vasconcelos

Com a eclosão da Guerra, as ideias de um projeto encantado desabaram. A ideia de resgate de marranos foi substituída pela necessidade da sobrevivência.

Michael Rothwell não ignora que há 500 anos poderia ser apanhado entre as rezas, pelos colarinhos, e levado até aos autos-de-fé. Há um peso histórico que se abate sobre os seus ombros, uma lembrança que vai sendo renovada, como uma história que tem várias formas de ser contada.

"Aqui, em Portugal, não temos medo. O que temos é uma consciência histórica, e sabemos que o que hoje está bem amanhã pode não estar", confidencia, à TSF, o professor de matemática, inglês, de 65 anos. As sombras de uma mão pesada da Inquisição são apenas silenciadas nos programas escolares, onde a questão judaica, aponta, raras vezes encontra protagonismo.

"Luz simboliza vida, não é? Tem de se manter sempre acesa essa luz." Foi debaixo deste ideal que a comunidade judaica do Porto foi criada há 96 anos, em 1923. Reza a história judaica que o militar Barros Basto, guiado pela motivação de fazer retornar ao judaísmo as famílias de cripto judeus/ marranos que tinham sido forçadas à conversão a partir de 1496. Em plenos anos 20, lembra Michael Rothwell, criar pontes entre as várias aldeias remotas de Portugal era uma tarefa hercúlea.

Ainda há orações em português e noutra língua muito rica, o ladino, formada com junção do espanhol e do português medievais.

Alguns jovens foram trazidos para o Porto para se tornarem líderes comunitários, depois de uma jornada penosa: "Não havia estradas, e ele ia a cavalo. Foram muito difíceis as viagens e as conversas com os cripto judeus, que por natureza escondiam a sua religião."

Na escalada que antecedeu a II Grande Guerra, no entanto, "o capitão foi alvo de inveja e de ódio, acusado de crimes que não tinha cometido, pelo que foi afastado do exército". Os marranos deixaram de sentir confiança no líder e regressaram às aldeias de origem. "Com a eclosão da Guerra, as ideias de um projeto encantado desabaram. A ideia de resgate de marranos foi substituída pela necessidade de sobrevivência", conta o representante da maior sinagoga da península.

Muitas famílias ainda hoje possuem chaves medievais das suas casas em Portugal da altura em que receberam o édito de expulsão em 1496.

As obras tinham terminado em 1938, um ano particularmente dramático para os judeus, com novembro a assinalar a Kristallnacht (Noite de Cristal), em que dezenas de judeus foram violentadas até à morte e as suas lojas vandalizadas, até partir o orgulho judaico em mil pedaços de vidro que faziam sangrar no peito. "Provavelmente foi a única sinagoga inaugurada na Europa nesse ano."

Ainda que o projeto de Barros Basto tenha sido deitado por terra nos seus primeiros anos, as sementes judaicas portuguesas tinham-se espalhado pelo mundo, sem que os fundamentalismos tivessem conseguido dizimá-las. "A cultura sefardita manteve-se ao longo dos séculos. Ainda há orações em português e noutra língua muito rica, o ladino, formada com junção do espanhol e do português medievais", explica Michael Rothwell.

É praticamente impossível que alguém em Portugal não descenda desses judeus.

Hugo Vaz, 31 anos, um dos casos raros de conversão ao judaísmo, ergue um molho de chaves, que tilintam: "Um dos objetos mais representativos dessa presença é precisamente este. Muitas famílias ainda hoje possuem chaves medievais das suas casas em Portugal da altura em que receberam o édito de expulsão em 1496."

"As casas já não existem, mas as chaves ainda existem", completa o professor de 65 anos. Em tempo de diáspora, os judeus levaram pedaços de Portugal e Espanha dentro do coração e pelos quatro cantos do mundo. "Ainda hoje há pessoas na Turquia com avós que falam ladino e que conseguem chegar cá e entender-nos, sem que qualquer membro da família, desde 1497, tenha pousado os pés na Península Ibérica", assevera o membro da direção da comunidade judaica do Porto.

Michael Rothwell © Catarina Maldonado Vasconcelos

Vem da inveja (...) Basta ver as estatísticas dos prémios Nobel para perceber que os judeus os ganham numa proporção bastante elevada.

Docente, Michael Rothwell volta-se para a História com a mesma ênfase com que soma conhecimentos matemáticos. Na perspetiva do inglês radicado em Portugal, é urgente rever os manuais escolares. "Muitas pessoas, senão todas, têm raízes judaicas em Portugal. Depois da expulsão decretada em Espanha, em 1492, estimamos que 100 mil judeus de Espanha se tenham juntado aos 100 mil que já havia em Portugal, o que perfazia 20% de população judaica. É praticamente impossível que alguém em Portugal não descenda desses judeus."

De acordo com Michael Rothwell, a comunidade judaica prefere manter-se discreta, resguardada do antissemitismo que "vem da inveja, porque há, sem dúvida, muitos judeus bem-sucedidos e inteligentes"."Basta ver as estatísticas dos prémios Nobel para perceber que os judeus os ganham numa proporção bastante elevada relativamente à sua quantidade", concretiza.

Uma comunidade pequena, sobre a qual ainda são apregoadas "teorias da conspiração", com um léxico português a favorecer preconceitos. As expressões 'és como um judeu' ou 'judiarias' não encontraram trava-línguas com o passar dos séculos e radicaram-se na cultura do país.

A ideia "ultrapassada" referente ao aspeto do judeu
© Catarina Maldonado Vasconcelos

A chave que voltou a casa, 400 anos depois

Foi em Castelo de Vide, no nordeste alentejano e a 12 quilómetros de Espanha, que se construiu uma das mais antigas e significativas ruas de habitações judaicas portuguesas. É um marrano que anda pela judiaria (no Priberam, 'bairro de judeus' ou 'reunião ou conjunto de judeus') sem travessura, mas com o olhar atento sobre os menorás - candelabros de sete braços - estilizados na pedra à porta das casas e sobre as reentrâncias onde se guardavam as escrituras judaicas sagradas.

© Catarina Maldonado Vasconcelos

Carolino Tapadejo, antigo autarca e estudioso dos assuntos sefarditas em colaboração com a Universidade Hebraica de Jerusalém, conta de cor as origens da História judaica em Castelo de Vide, que são também as páginas escritas pelos seus antepassados. E inicia-se assim: quando, em 1320, 17 famílias hebraicas se estabelecem na vila pertencente ao concelho de Portalegre. "Com o tempo, juntaram-se muitas outras famílias na rua da judiaria."

A rua da sinagoga © Catarina Maldonado Vasconcelos

Com a chegada da Inquisição a Portugal, em 1536, a lista de vítimas assassinadas em autos-de-fé avolumou-se, e o branco no preto não mente: foram mais mulheres perseguidas, para que se quebrasse o vínculo da educação judaica que a progenitora passaria aos filhos. Clara Mendes, Catarina Gomes, a Bonita, Isabel Gomes, Beatriz Henriques, Violante Lopes, Mécia Rodrigues, Inês Tristôa, Leonor Vaz. Estes são apenas alguns dos nomes por que Mário Soares, Presidente da República em 1989, pediu perdão "em nome de Portugal".

Sefarad transformou-se quase num mito.

Algumas das vítimas da perseguição da Inquisição em Portugal 
© Catarina Maldonado Vasconcelos

Em compromissos velados, algumas casas mantiveram as práticas (e as sinagogas escondidas) que o judaísmo lhes instruíra. Os cripto judeus, forçados à conversão por um batismo na fonte central da vila, continuaram a dizer 'dessa água não beberei', no que ao catolicismo dizia respeito, tudo isto consagrado em rituais secretos e à sombra do medo. "As minhas vizinhas, nas sextas-feiras à tarde, faziam umas cerimónias que eu nunca compreendi, e uma delas colocava aqui uma vela [retira a tampa de um jarro de argila]. Ela cortava em pedaços o rebordo do recipiente para lá dentro poder alojar a candeia. Dizia que a luz não podia ser vista da rua. Faziam isto sem saber explicar muito bem porquê", recorda Carolino Tapadejo, em entrevista à TSF.

Menorá, o candelabro de sete braços que representa os dias da semana
© Catarina Maldonado Vasconcelos

O entusiasta que já passou por Espanha, Grécia, Itália, França, Inglaterra, Bélgica, Alemanha, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Canadá e Brasil numa cruzada com recurso apenas ao dom da palavra veio a encontrar uma das histórias de amor à terra mais surpreendentes em Israel.

"Estive a dar uma palestra numa universidade a norte de Telavive. Quando já estava a sair do palco, uma das senhoras, já idosa e muito doente, disse-me, num ladino muito alterado: 'Eu sou de Castelo de Vide, mas eu nunca lá fui.' Eu disse-lhe que não tinha compreendido, e ela respondeu-me: 'A minha família fugiu de Castelo de Vide, na primeira metade do século XVI, para o Império Otomano; Constantinopla, depois Istambul, mas sempre me disseram que a minha terra era Castelo de Vide. Eu vi que vinha cá um homem da minha terra-mãe, e quis vir ouvi-lo.'" A castelo-vidense, deslocada em geografia mas nunca em identidade, percorreu mais de 170 quilómetros, porque não tinha descendentes, estava com cancro e só queria voltar a casa.

As chaves do retorno © Catarina Maldonado Vasconcelos

Foi em 2015 que se fechou o último capítulo de um livro há tanto tempo guardado nas prateleiras do legado familiar. Chegada a Castelo de Vide, "a senhora depositou nas minhas mãos a chave medieval e os nomes da rua e de umas vizinhas". Guardião da casa e da História dos seus conterrâneos espalhados pelo mundo, Carolino Tapadejo afiança: é a primeira vez que uma chave daquela época retorna à porta que em tempos abriu.

Carolino Tapadejo e a chave medieval © Catarina Maldonado Vasconcelos

Em ladino, também se diz 'saudade'

"É interessantíssimo como chegámos ao século XX e depois ao século XXI com uma diáspora de judeus pelo mundo que mantém uma lagrimazinha no cantinho do olho quando se fala de Sefarad. Sefarad transformou-se quase num mito, o que significa que muitos judeus de origem portuguesa hoje procuram Portugal para fazer uma arqueologia da sua memória." As palavras são de Paulo Mendes Pinto, coordenador da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona.

A História dos judeus em Portugal é fascinante, dramática, mas maravilhosa.

Sefarad - Portugal e Espanha - permaneceu no imaginário destas famílias obrigadas a abandonar o território peninsular como uma terra de esperança, uma terra onde foram felizes, onde houve prosperidade e possibilidade de diálogo, desde a época do domínio islâmico e até à primeira dinastia. "Efetivamente, para muitos judeus sefarditas, o fim da história não é Jerusalém. O fim da história é Portugal e Espanha", analisa o embaixador do Parlamento Mundial das Religiões e fundador da European Academy of Religions.

Capítulos que ainda não encerraram com um final feliz encontraram oportunidades de reconstruir a imagem idílica que estes antepassados longínquos têm de terras lusas. Desde 2016, mais de 2100 sefarditas solicitaram cidadania portuguesa , e, no final de junho de 2018, os israelitas já se encontravam em segundo lugar entre os candidatos à nacionalidade portuguesa. De portas abertas, Portugal dificilmente voltará a sofrer fenómenos de perseguição à comunidade judaica, de acordo com Paulo Mendes Pinto, que explica: "Curiosamente, nós não temos o antissemitismo que grassa pela Europa central. A maioria dos portugueses garantidamente nunca se cruzou na rua com um judeu, e, mesmo que tivesse cruzado, não o saberia."

Com mais literacia e cuidados com a higiene que os demais habitantes medievais das vilas e centros urbanos, os judeus foram ostracizados e incompreendidos. "O judeu começa a ser visto como o bode expiatório por todas as situações que corram mal: pode ser um ano em que há fome, pode ser um ano de peste, pode ser uma fonte com água contaminada", revela o autor, que aponta que os judeus mais religiosos não adoeciam por terem já hábitos de desinfeção, limpeza e fervura das roupas usadas.

As pessoas tinham medo e não queriam investigar ascendência judaica nas suas árvores genealógicas. Era um tabu.

O Bar Mitzvá, realizado aos 13 anos no caso dos rapazes e aos 12 para as raparigas, obrigava também a que todos comungassem da literacia para que, sem dificuldades, dissessem as palavras sagradas. "Aos 12 anos, qualquer judeu é letrado, sabe ler e escrever. Temos provas de que funcionava assim, e isso lançava sobre eles um olhar incómodo da turbe cristã analfabeta. No século XV, alguém que é letrado, tem conhecimentos de matemática e consegue calcular juros e percentagens está muito mais preparado para ter sucesso."

"Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória"

Para ter sucesso e para gerir as finanças das grandes instituições portuguesas. "A História dos judeus em Portugal é fascinante, dramática, mas maravilhosa. Antes da conversão forçada, todas as cidades e aldeias tinham uma comunidade judaica. Eram sapateiros, mercadores, alfaiates e participavam ativamente na vida pública. Tiveram também a sua participação nos Descobrimentos." É assim que Richard Zimler, autor de 11 romances, levanta o véu ao que desvelou, desde 1996, data de publicação d'O Último Cabalista de Lisboa.

Muitos poetas sefarditas escreveram sobre a saudade que tinham de Segóvia, Granada, Toledo, Barcelona, Valência, Lisboa, Évora ou Porto.

"Começava ao mesmo tempo a compreender que, ao voltar para Lisboa, me era dada a possibilidade de reparar o desvio do meu destino", está escrito nas primeiras páginas. Longe desse mergulho iniciático, Richard Zimler, mais judeu por identidade do que por crença, norte-americano, português, filho de um marxista que considerava ser a religião o "ópio do povo", continua a encarar com fascínio a presença sefardita na Península Ibérica.

"O que mais me espantou, quando comecei a escrever 'O Último Cabalista de Lisboa', foi que, sempre que eu falava com os meus amigos sobre o massacre de Lisboa de 1506, em que milhares de cristãos-novos foram queimados e mortos no Rossio, todos eles - advogados, médicos e professores catedráticos - respondiam: 'Mas qual massacre?' Ninguém sabia de nada, talvez apenas meia dúzia de peritos", recorda Richard Zimler. O estigma fazia com que nem mesmo o código genético e as raízes dos portugueses lhes fossem assuntos familiares: "As pessoas tinham medo e não queriam investigar a ascendência judaica nas suas árvores genealógicas. Era um tabu, porque aprenderam, depois de 240 anos de Inquisição e de 50 anos de ditadura, a não falar de certos temas como o judaísmo."

Richard Zimler © Maria João Gala / Global Imagens

Numa mesa de café, à roda das conversas mundanas, o autor, cidadão de Nova Iorque, Porto, Lisboa, Israel, mundo, faz questão de lembrar que os próximos tempos testarão a abertura e flexibilidade da jovem democracia portuguesa. "Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória." É a frase de José Saramago que ali se entrelaça nas ideias e convicções do também jornalista.

"A terra prometida, para os judeus sefarditas, não era a Palestina. Era Espanha e Portugal. Muitos poetas sefarditas escreveram sobre a saudade que tinham de Segóvia, Granada, Toledo, Barcelona, Valência, Lisboa, Évora ou Porto." Podiam não falar um português perfeito, mas sabiam como soa, quando bate, a palavra 'saudade'.

Embaixadores do judaísmo português da época moderna

Para José Oulman Carp, antigo presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, basta abrir o álbum de família para compreender como a História de Portugal se dilui, anónima e indistintamente, no legado dos judeus sefarditas. O primeiro registo que encontra data de 1818, ano em que Abraão Bensaúde retorna aos Açores, à ilha de São Miguel, por ainda constatar que, no território continental, o cenário não era nada católico, ou, por outra, era demasiado católico.

"A minha família chegou a Marrocos com o nome Hassiboni. No cemitério judaico de Ponta Delgada - um cemitério muito bonito, aliás, e com um nome muito adequado para um cemitério, que é Campo da Igualdade -, as campas mais antigas são de Bensaúde, depois de Hassiboni, e, mais tarde, voltam a ser Bensaúde", conta. Os primeiros retornados judeus pós-Inquisição iniciaram a edificação da mais antiga sinagoga portuguesa desde a perseguição cristã em Ponta Delgada, logo no ano de 1836.

Pioneiros na exportação da laranja açoriana, fundadores da fábrica de tabaco micaelense e donos de estufas de ananases, os Bensaúde, família judaica, impulsionaram a economia da região insular. Os conhecimentos eram trazidos do estrangeiro, onde os mais novos estudavam, porque, "nos finais do século XIX, os judeus não podiam frequentar universidades portuguesas".

José Oulman Carp detém-se sobre cada uma das fotografias, e, entre os dedos, desfia as contribuições mais diretas dos seus familiares. "A Matilde era uma mulher notável, que estudou em Portugal e nos Estados Unidos, e introduziu o certificado fitossanitário, que hoje ainda é utilizado em muitas transações de mercadorias."

"O Joaquim foi engenheiro e historiador. Publicou cerca de 300 livros, todos sobre o período das viagens de circum-navegação", continua. "O Alfredo Bensaúde fundou o Instituto Superior Técnico." José Oulman Carp é também sobrinho de Alain Oulman, poeta e compositor de fados cantados por Amália Rodrigues.

Portugueses, judeus, comerciantes, engenheiros e artistas, devolveram a diversidade religiosa e cultural ao país. "Cada pessoa é uma planta de estufa. Precisamos de luz, de água, de terra. Temos de cuidar uns dos outros, sobretudo quando somos uma comunidade tão pequena. Ser presidente da comunidade foi como ser um jardineiro que cuida desta página da História do judaísmo", conclui José Oulman Carp.

Por Catarina Maldonado Vasconcelos, 21 Julho, 2019

Fonte: TSF
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