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domingo, 5 de janeiro de 2020

O aclamado general que, afinal, pode ter sido mulher ou intersexual

Smith Collection/Gado/ Getty Images

Exames de ADN realizados por cientistas confirmaram que os restos mortais com caraterísticas femininas encontrados há duas décadas pertencem mesmo a Casimir Pulaski, considerado um dos heróis da Guerra de Independência dos EUA, no século XVIII

Casimir Pulaski lutou ao lado dos americanos contra o exército britânico pela sua independência, no século XVIII, durante a Guerra de Independência dos EUA, que aconteceu entre 1775 e 1783. Foi considerado um herói de guerra, também na Polónia – de onde era – e foi várias vezes homenageado com monumentos em seu nome.

Agora, os cientistas dizem que o aclamado general pode ter sido, afinal, uma mulher, ou até intersexual, um termo usado para descrever pessoas que nascem com caraterísticas sexuais biológicas que não se encaixam nas caraterísticas típicas do sexo feminino ou masculino.

Há cerca de duas décadas, investigadores americanos exumaram o corpo de Casimir Pulaski, que tinha sido sepultado em Geórgia, nos EUA, e descobriram que o seu esqueleto tinha várias caraterísticas femininas.

“Nas mulheres, a cavidade pélvica tem um formato mais oval. Tem menos forma de coração do que a pélvis masculina. A de Pulaski parecia muito feminina”, explicou, à NBC, Virginia Estabrook, que fazia parte da equipa que estudou, em 1996, os seus restos mortais.

Contudo, o grupo de antropólogos não tinha conseguido provar de que se tratava mesmo do corpo de Casimir Pulaski. Novos testes de ADN mitocondrial realizados em 2018 por cientistas norte-americanos, incluindo Virginia Estabrook, revelaram uma correspondência entre o ADN extraído do esqueleto de Pulaski e de um parente do militar, confirmando que se tratava, realmente, do corpo de Casimir Pulaski.

“O que sabemos é que há uma desconexão entre o que vemos no esqueleto e o que sabemos sobre a vida de Pulaski”, Virginia Estabrook explicou à NBC. A cientista observou que a pesquisa sobre como as caraterísticas intersexuais afetam o desenvolvimento do esqueleto é muito escassa e referiu que o caso de Pulaski é um sinal do trabalho que precisa de ser realizado nessa área.

Esta descoberta vai ser explicada ao pormenor na próxima segunda-feira, com a estreia do documentário “O General era feminino?”, que faz parte da série “Histórias Ocultas nos EUA”, no canal de televisão do Smithsonian.

Quando Casimir Pulaski era muito jovem, foi exilado da Polónia por ter lutado contra o domínio russo e, por isso, o militar acabou por fugir para Paris. Foi aí que conheceu Benjamin Franklin, um dos líderes da Revolução Americana, que o convenceu a apoiar as colónias que lutavam contra a Inglaterra na Guerra de Independência dos EUA.

Acredita-se que o militar salvou a vida de George Washington, que comandava as tropas americanas, durante a Batalha de Brandywine, no ano de 1777.

Casimir Pulaski nunca se casou e não teve descendentes. Pensa-se que morreu aos 34 anos, depois de sofrer ferimentos durante o cerco à cidade de Savannah, nos EUA, em 1779. Ainda hoje é homenageado com o “Dia de Casimir Pulaski”, sempre na primeira segunda-feira de março, em Chicago, Illinois.

SARA BORGES DOS SANTOS

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

A extraordinária vida dos transístores e dos chips


São cada vez mais pequenos e dão-nos cada vez mais em todo o tipo de objetos eletrónicos. Esta é a história dos velhinhos chips (e dos transístores): como chegámos aqui e como será o futuro, recorrendo à luz ou ao papel para transmitir dados. A caminho da computação quântica.

São o cérebro dos sistemas computadorizados que, hoje, damos por garantidos no nosso dia-a-dia. São cada vez mais pequenos, conectados e integrados em circuitos que são verdadeiros sistemas de planetas minúsculos no cosmos que é o mundo digital. Os chamados chips de computação podem parecer pequenos, mas escondem um sem-fim de transístores que têm crescido em número e decrescido em tamanho de forma vertiginosa ao longo dos anos.

São eles que permitem dar funções específicas a uma infinidade de aparelhos eletrónicos. Se no passado, começando nos eletrodomésticos, a sua capacidade era muito limitada, agora temos supercomputadores, smartphones, tablets, aspiradores robôs, colunas digitais inteligentes e sensores da chamada internet das coisas (que alimentam cidades e casas inteligentes e podem ir de caixotes de lixo a lugares de estacionamento que transmitem informação).

Estes pequenos transístores não são, no entanto, componentes isoladas ou individuais, fazem parte do chamado circuito integrado (também conhecido como microchip) ou dos processadores (que podem ser de diferentes tipos - úteis para tarefas muito diferentes), nos quais os transístores trabalham de forma concertada para ajudar o sistema computadorizado a completar os seus cálculos.

Como começou a era dos chips?

Em menos de 60 anos evoluiu-se mais na sofisticação da computação de máquinas do que em milénios de evolução humana. As várias guerras e a própria era espacial que, nos anos 1960, culminou com a chegada do primeiro homem à Lua - neste ano cumpriram-se 50 anos que Neil Armstrong pisou o solo lunar - foram fulcrais para evolução da computação em geral e dos chips em particular. Foram precisas algumas décadas de experimentação para que materiais sólidos, os transístores, pudessem substituir a tecnologia anterior: tubos de vácuo que eram o meio utilizado para canalizar os eletrões.

Robert Noyce, cofundador da Fairchild e da Intel, é um dos pais do microchip, 
desenvolvido em Stanford, em Silicon Valley.

O autor norte-americano James Jay Carafano explica, no livro Wiki at War (ed. Texas A&M University Press), que "os novos transístores sólidos surgidos na década de 1960 eram mais pequenos, precisavam de menos potência e eram bem mais rápidos". E tudo começou com a Força Aérea dos EUA, já que foram eram eles a promover o desenvolvimento dos transístores a pensar no espaço reduzido disponíveis nos aviões.

Em várias investigações patrocinadas pela Força Aérea, houve uma que se destacou, desenvolvida pela empresa Fairchild Camera and Instrument Corporation - conhecida por fornecer câmaras durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria a pensar na espionagem. A Fairchild tinha fortes ligações à Universidade de Stanford, na Califórnia, e foi dali que a empresa lançou comercialmente, em 1961, o primeiro circuito integrado com chips de silicone que a Força Aérea usou em computadores e mísseis. O sucesso foi tal que a Fairchild passou a chamar-se Fairchild Semiconductor e Stanford tornou-se o coração da zona que hoje conhecemos como Silicon Valley.

Alcides Fonseca, professor e investigador em Computação Evolucionária da Universidade de Lisboa, lembra uma lei muito referida nos anos 1990 para explicar esta evolução dos chips. A Lei de Moore baseia-se numa investigação de 1965 de Gordon Moore - cofundador da Fairchild e da Intel (nascida em 1968) - que indicava que o número de componentes num circuito integrado poderia duplicar anualmente durante dez anos e, depois disso, passaria a duplicar a cada dois anos. O professor admite que essa evolução já é diferente do que diz a lei, já que "o ritmo de aumento de transístores num chip pode duplicar de dois em dois anos, mas a rapidez dos dados que passam por eles não cresce ao mesmo ritmo".

O investigador dá o exemplo do último iPhone 11 Pro e do seu processador A13, para explicar como este tipo de chips tem evoluído: embora um processador possa ter muitos núcleos (cores), estes têm naturezas distintas e fazem coisas diferentes. "O novo iPhone tem no A13 seis núcleos, em que dois são mais rápidos do que os outros quatro, que são mais eficientes no consumo de energia - todas as combinações são possíveis tendo em conta os que estão ativos."

Quando o telefone executa coisas simples, usa os processadores mais lentos para poupar bateria, quanto se joga um jogo mais exigente, "ativa todos porque precisa da potência máxima e "ainda vai buscar quatro núcleos da placa gráfica, para gerar o que vemos no ecrã". Existem ainda oito núcleos neuronais no iPhone, que incluem técnicas de machine learning que já permitem melhorar a qualidade das imagens e vídeos em tempo real. "Daí a que, hoje, quando filmamos um vídeo com um telefone estamos a usar vários tipos processadores. Só para filmar são os processadores normais que executam todo o tipo de tarefas, já os processadores gráficos mostram-nos no ecrã o vídeo que estamos a fazer e os neuronais ajustam a luminosidade ou o foco através de machine learning." Alcides Fonseca admite que hoje temos nos nossos bolsos o que seria considerado um supercomputador há uns anos.

Nunca houve a nível tecnológico na história da humanidade uma onda tão rápida de redução de custos, aumento de simplicidade e crescimento de fiabilidade e eficácia quanto aquela a que os computadores navegaram.

Os chips de silicone são também centrais na criação da chamada Internet 2.0, explica ainda Carafano. Sem a criação do tal semicondutor integrado, a tecnologia computadorizada não teria feito a transição para ser uma ferramenta de ligação social entre humanos - onde o imediatismo e a facilidade de envio de texto, áudio e vídeo também trouxe desafios sociais e de privacidade inesperados. O chip tornou, desta forma, o computador acessível a uma grande parte da humanidade.

O futuro da computação: chips com luz

Já apelidada por publicações especializadas como "o futuro da computação", esta é uma solução com chips que usam luz para transmitir os dados, embora se trate na mesma de uma computação eletrónica. "Estamos a desenvolver chips optoeletrónicos que permitem reduzir a energia gasta na computação e aumentar a velocidade que já não era possível alcançar com os transístores de cobre. É um design único com componentes que transmitem os dados usando ondas de luz, mas em que mantemos o uso dos chips de silicone", explica a CEO da empresa que já começou a aplicar os avanços feitos em centros de dados de gigantes como Facebook e Amazon.

Wright-Gladstein admite que é possível reduzir os gastos energéticos até 95% nas comunicações entre chips e aumentar a rapidez até dez vezes além do que os chips de cobre permitem, graças à investigação de dez anos. Nos centros de dados dos gigantes de tecnologia, têm conseguido reduzir o consumo energético entre 30 a 50%. "Neste momento, há um bloqueio nos centros de dados grandes em relação à rapidez de transmissão de dados que esperamos melhorar significativamente." A doutorada do MIT admite que o objetivo é levar estes chips para os supercomputadores, mas também para carros autónomos, aparelhos médicos ou de realidade aumentada em que, além de melhorar a potência de computação, "podemos tornar estas tecnologias mais baratas e acessíveis". "Estamos entusiasmados com o que poderá desbloquear no futuro", diz.

Chips de papel made in Portugal

Há soluções bem criativas no mundo dos chips, para outros tipos de uso, e uma delas está a ser desenvolvida em Portugal e permite criar um papel eletrónico (Paper-E) que chegou já a finalista do Prémio Inventor Europeu do Ano, em 2016. Elvira Fortunato lidera a equipa da Universidade Nova de Lisboa (UNL) que criou estes transístores com papel, uma descoberta que irá permitir a criação de sistemas eletrónicos descartáveis a baixo custo, o que vai ajudar a explorar de forma mais fácil a chamada internet das coisas.

A solução usa celulose em vez de silicone ou silício e, embora não seja uma opção tão boa a nível de rapidez e de desempenho de computação, "permite dobrar-se sem se estragar e explorar várias ideias que vão de ecrãs de papel a etiquetas e pacotes inteligentes, chips de identificação ou aplicações médicas de vários tipos", diz a investigadora premiada, que também é vice-reitora da UNL e acredita que este trabalho vai chegar ao comum dos mortais num futuro próximo.

O segredo acaba por estar na tinta aplicada no papel. "Em vez de usarmos as tintas apenas para dar cor, usamo-las também com outras funções, como conectividade, com propriedades semicondutoras."

E tudo a computação quântica quer levar

Há muito que se fala na promessa revolucionária da computação quântica, que poderá mudar a forma como as máquinas funcionam e processam informação, desbloqueando mais-valias inimagináveis para a ciência, a saúde, a logística e a economia. Para o investigador Alcides Fonseca, a dificuldade maior neste momento "é manter a qualidade das leituras porque os qubits mudam o jogo como o conhecemos".

E o que são os qubits? Ao contrário dos bits num computador digital, que registam 1 ou 0, os bits quânticos - conhecidos como qubits -, podem ser ambos ao mesmo tempo. Essa possibilidade abre caminho a que os sistemas consigam lidar com problemas muito mais complexos. Recentemente, a Google anunciou que o processador quântico da empresa "executou em três minutos e 20 segundos um cálculo que o computador clássico mais avançado levaria aproximadamente dez mil anos" - uma demonstração da supremacia quântica, de acordo com os investigadores.

Yasser Omar, investigador português do Instituto de Telecomunicações e do Instituto Superior Técnico, membro do grupo internacional Physics of Information and Quantum Technologies, explica-nos que, embora a promessa revolucionária seja real, "a área ainda está na sua infância e pode demorar alguns anos a ter efeitos práticos na sociedade, dependendo de como a tecnologia evoluir".

Em dezembro deste ano, a Intel anunciou um chip chamado Horse Ridge, feito para computadores quânticos, que promete dar soluções para simplificar estes aparelhos complexos. A solução promete ajudar a tornar estes computadores uma realidade para usos mais práticos e convencionais do que tem sido possível até agora.

Fonte: DN

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

"Marree Man." NASA divulga fotografia de geoglifo mistério na Austrália


Tem 3,5 quilómetros de comprimento e é visível do espaço. Não é conhecida a autoria deste desenho com a figura de um homem, nem com que intuito esta obra foi deixada no local.

"Homem de Marree" [Marree Man] é um desenho gravado na terra em solo australiano. Desde que foi detetado por um piloto, em 1998, o geoglifo tem gerado mistério e especulação, mas a NASA acaba de divulgar uma fotografia da inscrição situada no sul da Austrália.

Tem 3,5 quilómetros de comprimento e é visível do espaço. Não é conhecida a autoria deste desenho com a figura de um homem, nem com que intuito esta obra foi deixada no local.

Em 2016, refere a CNN , os contornos do desenho foram reforçados por uma comunidade de uma cidade a 60 quilómetros do lugar, para que a erosão não apagasse as suas linhas.

Várias teorias têm surgido ao longo dos anos quanto à autoria do geoglifo. Acredita-se que tenha sido idealizado por um artista profissional, mas as hipóteses divergem no que diz respeito à nacionalidade do autor. De Alice Springs (Austrália) ou dos EUA, o artista fez nascer uma obra misteriosa que pode vir a tornar-se verde, já que o grupo de pessoas que reforçou os limites do desenho criou sulcos de vento, projetados para capturar a água e incentivar o crescimento da vegetação.

A imagem divulgada pela NASA data de 22 de junho de 2019.

Fonte: TSF

Arqueólogos descobrem restos mortais de mulher cita com um cocar de ouro

O crânio da mulher cita encontrada com um cocar cerimonial

Uma equipa de arqueólogos descobriu os restos mortais de uma antiga mulher cita, enterrada com um cocar cerimonial feito com metais preciosos como ouro.

De acordo com a Newsweek, o túmulo continha ainda os restos mortais de duas jovens mulheres, com idades entre os 20 e os 29 anos e os 25 e os 35 anos, e de uma rapariga que devia ter entre 12 e 13 anos.

A equipa de arqueólogos fez esta descoberta no Cemitério Devitsa V, no sudoeste da Rússia, de acordo com o comunicado divulgado pelo Instituto de Arqueologia da Academia de Ciências Russa.

As mulheres são citas, nómadas e guerreiras que vieram das estepes da Eurásia, naquilo que hoje em dia é o sul da Sibéria — antes de estenderem a sua influência por toda a Ásia Central, da China ao Mar Negro.

Pensa-se que a mais velha das quatro tenha morrido quando tinha entre 45 e 50 anos — um feito impressionante para um tempo em que se acredita que a expectativa média de vida tenha sido de 30 a 35 anos. Os citas parecem ter tido um maior risco de morrer no início da idade adulta do que outros grupos da Idade do Ferro devido à sua propensão para a guerra.

A mulher foi encontrada enterrada com um cocar cerimonial decorado com padrões florais, com um aro que exibe pingentes em forma de ânfora. É feito de ouro (65% a 70%) com cobre, prata e uma pequena fração de ferro. Segundo os investigadores, esta é uma grande concentração de ouro para a cultura cita.

Do lado esquerdo, uma reconstrução desse cocar

Uma das mais jovens foi encontrada na posição de cavaleiro, de forma a que os tendões das suas pernas fossem cortados. Ao seu lado estava um espelho de bronze, uma pulseira de missangas, duas lanças e dois vasos.

No local, os arqueólogos descobriram ainda um gancho de ferro em forma de pássaro, fragmentos de um chicote de cavalo, ganchos de ferro para pendurar arreios, facas de ferro, ossos de animais e uma coleção de mais de 30 pontas de flecha de ferro.

A equipa também descobriu uma passagem de ladrões no extremo norte do local do enterro, que pensa ter sido escavado um ou dois séculos depois da construção do túmulo. Apenas as partes norte e leste da sepultura — onde a adolescente e uma das mulheres estão enterradas — parecem ter sido atingidas.

Valerii Guliae, que liderou a investigação, afirma que esta é a primeira vez que um enterro de mulheres citas, com idades diferentes entre si, é encontrado.

“Deparámo-nos com um enigma: duas mulheres no auge da idade, uma adolescente e outra bastante velha para a época cita. Não é claro como poderão ter falecido na mesma altura. Não têm vestígios de lesões ósseas. Existem algumas marcas de tuberculose e brucelose, mas essas doenças não podem causar a morte de forma simultânea“, afirma.

Fonte: ZAP

sábado, 28 de dezembro de 2019

Projeto Mercúrio: o plano secreto da maçonaria para recrutar políticos


O candidato à liderança do PSD, Miguel Pinto Luz, e o Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Duarte Cordeiro, foram dois dos muitos recrutados no âmbito desta estratégia de poder da Grande Loja Legal de Portugal.

oi através de um plano secreto e estrategicamente montado pela Grande Loja Legal de Portugal que a maçonaria recrutou figuras estratégicas do PSD, como Miguel Pinto Luz, e Marco António Costa e também do PS, como Duarte Cordeiro e Francisco André, chefe de gabinete do Primeiro-ministro

Batizado dentro da maçonaria como Projeto Mercúrio visava captar personalidades influentes para combater a cada vez maior influência da outra obediência maçónica, o Grande Oriente Lusitano. Começou por ter como objetivo o recrutamento de pessoas ligadas à comunicação, mas acabou apostar na área política, tanto em deputados e figuras de destaque, como também em jovens promissores que estavam nas juventudes partidárias.


A teia de ligações foi exposta recentemente por Rui Rio, que acusou os seus adversários de serem maços. Mas não só Miguel Pinto Luz – que esteve na Loja Mercúrio e na Loja Prometeu) e Luís Montenegro – que admite ter participado em, pelo menos, um evento da Loja Mozart – têm ligações com maçons. O homem que o próprio Rui Rio escolheu para fazer a sua comunicação é um ativo maçon do Grande Oriente Lusitano.

Na edição desta semana da VISÃO, conheça toda a teia de ligações, os políticos iniciados, os esquemas de recrutamento e veja quem foram os maçons que integraram todos os governos das últimas três décadas.

CATARINA GUERREIRO
Editora Executiva

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

"Para os judeus sefarditas, a terra prometida nunca foi Israel. É Portugal e Espanha"

 

Da passagem medieval por Castelo de Vide à sinagoga do Porto criada no século XX. Do imaginário literário à materialidade da saudade. A TSF seguiu a rota da memória sefardita por Portugal e nela encontrou a terra prometida.

ichael Rothwell leva o livro sagrado até à linha dos olhos e abre-o com reverência, diante de uma sinagoga calada, a 25 Sivan do ano hebraico de 5779. O calendário civil marca 28 de junho de 2019, uma sexta-feira, e faltam poucas horas para o pôr-do-sol que inicia o sabat, e que apenas se extingue, de acordo com o Génesis, ao aparecimento das primeiras três estrelas da noite de sábado.

Aqui, em Portugal, não temos medo. O que temos é uma consciência histórica.

O templo está esvaziado da união de 10 homens de mais de 13 anos necessária ao serviço religioso, mas guarda a luz, sempre acesa, dirigida para Jerusalém. Para os judeus, a sinagoga tem de se orientar, como a própria ação o indica, para Oriente, onde o templo verdadeiro existiu em tempos.

"Escuta, Israel, o eterno é nosso Deus, o eterno é um. Bendito seja o nome daquele cujo glorioso reino é eterno. Amarás ao eterno, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas posses." As palavras são lidas da Tora, onde o hebraico e o português convivem como secularmente se falaram, sem empecilhos. A sinagoga portuense, Kadoorie - Mekor Haim ("Fonte de Vida"), a maior da Península Ibérica, reverbera as palavras de culto contra as paredes de azulejos com inspirações marroquinas, a favor da estrela de David.

 Michael Rothwell © Catarina Maldonado Vasconcelos

Com a eclosão da Guerra, as ideias de um projeto encantado desabaram. A ideia de resgate de marranos foi substituída pela necessidade da sobrevivência.

Michael Rothwell não ignora que há 500 anos poderia ser apanhado entre as rezas, pelos colarinhos, e levado até aos autos-de-fé. Há um peso histórico que se abate sobre os seus ombros, uma lembrança que vai sendo renovada, como uma história que tem várias formas de ser contada.

"Aqui, em Portugal, não temos medo. O que temos é uma consciência histórica, e sabemos que o que hoje está bem amanhã pode não estar", confidencia, à TSF, o professor de matemática, inglês, de 65 anos. As sombras de uma mão pesada da Inquisição são apenas silenciadas nos programas escolares, onde a questão judaica, aponta, raras vezes encontra protagonismo.

"Luz simboliza vida, não é? Tem de se manter sempre acesa essa luz." Foi debaixo deste ideal que a comunidade judaica do Porto foi criada há 96 anos, em 1923. Reza a história judaica que o militar Barros Basto, guiado pela motivação de fazer retornar ao judaísmo as famílias de cripto judeus/ marranos que tinham sido forçadas à conversão a partir de 1496. Em plenos anos 20, lembra Michael Rothwell, criar pontes entre as várias aldeias remotas de Portugal era uma tarefa hercúlea.

Ainda há orações em português e noutra língua muito rica, o ladino, formada com junção do espanhol e do português medievais.

Alguns jovens foram trazidos para o Porto para se tornarem líderes comunitários, depois de uma jornada penosa: "Não havia estradas, e ele ia a cavalo. Foram muito difíceis as viagens e as conversas com os cripto judeus, que por natureza escondiam a sua religião."

Na escalada que antecedeu a II Grande Guerra, no entanto, "o capitão foi alvo de inveja e de ódio, acusado de crimes que não tinha cometido, pelo que foi afastado do exército". Os marranos deixaram de sentir confiança no líder e regressaram às aldeias de origem. "Com a eclosão da Guerra, as ideias de um projeto encantado desabaram. A ideia de resgate de marranos foi substituída pela necessidade de sobrevivência", conta o representante da maior sinagoga da península.

Muitas famílias ainda hoje possuem chaves medievais das suas casas em Portugal da altura em que receberam o édito de expulsão em 1496.

As obras tinham terminado em 1938, um ano particularmente dramático para os judeus, com novembro a assinalar a Kristallnacht (Noite de Cristal), em que dezenas de judeus foram violentadas até à morte e as suas lojas vandalizadas, até partir o orgulho judaico em mil pedaços de vidro que faziam sangrar no peito. "Provavelmente foi a única sinagoga inaugurada na Europa nesse ano."

Ainda que o projeto de Barros Basto tenha sido deitado por terra nos seus primeiros anos, as sementes judaicas portuguesas tinham-se espalhado pelo mundo, sem que os fundamentalismos tivessem conseguido dizimá-las. "A cultura sefardita manteve-se ao longo dos séculos. Ainda há orações em português e noutra língua muito rica, o ladino, formada com junção do espanhol e do português medievais", explica Michael Rothwell.

É praticamente impossível que alguém em Portugal não descenda desses judeus.

Hugo Vaz, 31 anos, um dos casos raros de conversão ao judaísmo, ergue um molho de chaves, que tilintam: "Um dos objetos mais representativos dessa presença é precisamente este. Muitas famílias ainda hoje possuem chaves medievais das suas casas em Portugal da altura em que receberam o édito de expulsão em 1496."

"As casas já não existem, mas as chaves ainda existem", completa o professor de 65 anos. Em tempo de diáspora, os judeus levaram pedaços de Portugal e Espanha dentro do coração e pelos quatro cantos do mundo. "Ainda hoje há pessoas na Turquia com avós que falam ladino e que conseguem chegar cá e entender-nos, sem que qualquer membro da família, desde 1497, tenha pousado os pés na Península Ibérica", assevera o membro da direção da comunidade judaica do Porto.

Michael Rothwell © Catarina Maldonado Vasconcelos

Vem da inveja (...) Basta ver as estatísticas dos prémios Nobel para perceber que os judeus os ganham numa proporção bastante elevada.

Docente, Michael Rothwell volta-se para a História com a mesma ênfase com que soma conhecimentos matemáticos. Na perspetiva do inglês radicado em Portugal, é urgente rever os manuais escolares. "Muitas pessoas, senão todas, têm raízes judaicas em Portugal. Depois da expulsão decretada em Espanha, em 1492, estimamos que 100 mil judeus de Espanha se tenham juntado aos 100 mil que já havia em Portugal, o que perfazia 20% de população judaica. É praticamente impossível que alguém em Portugal não descenda desses judeus."

De acordo com Michael Rothwell, a comunidade judaica prefere manter-se discreta, resguardada do antissemitismo que "vem da inveja, porque há, sem dúvida, muitos judeus bem-sucedidos e inteligentes"."Basta ver as estatísticas dos prémios Nobel para perceber que os judeus os ganham numa proporção bastante elevada relativamente à sua quantidade", concretiza.

Uma comunidade pequena, sobre a qual ainda são apregoadas "teorias da conspiração", com um léxico português a favorecer preconceitos. As expressões 'és como um judeu' ou 'judiarias' não encontraram trava-línguas com o passar dos séculos e radicaram-se na cultura do país.

A ideia "ultrapassada" referente ao aspeto do judeu
© Catarina Maldonado Vasconcelos

A chave que voltou a casa, 400 anos depois

Foi em Castelo de Vide, no nordeste alentejano e a 12 quilómetros de Espanha, que se construiu uma das mais antigas e significativas ruas de habitações judaicas portuguesas. É um marrano que anda pela judiaria (no Priberam, 'bairro de judeus' ou 'reunião ou conjunto de judeus') sem travessura, mas com o olhar atento sobre os menorás - candelabros de sete braços - estilizados na pedra à porta das casas e sobre as reentrâncias onde se guardavam as escrituras judaicas sagradas.

© Catarina Maldonado Vasconcelos

Carolino Tapadejo, antigo autarca e estudioso dos assuntos sefarditas em colaboração com a Universidade Hebraica de Jerusalém, conta de cor as origens da História judaica em Castelo de Vide, que são também as páginas escritas pelos seus antepassados. E inicia-se assim: quando, em 1320, 17 famílias hebraicas se estabelecem na vila pertencente ao concelho de Portalegre. "Com o tempo, juntaram-se muitas outras famílias na rua da judiaria."

A rua da sinagoga © Catarina Maldonado Vasconcelos

Com a chegada da Inquisição a Portugal, em 1536, a lista de vítimas assassinadas em autos-de-fé avolumou-se, e o branco no preto não mente: foram mais mulheres perseguidas, para que se quebrasse o vínculo da educação judaica que a progenitora passaria aos filhos. Clara Mendes, Catarina Gomes, a Bonita, Isabel Gomes, Beatriz Henriques, Violante Lopes, Mécia Rodrigues, Inês Tristôa, Leonor Vaz. Estes são apenas alguns dos nomes por que Mário Soares, Presidente da República em 1989, pediu perdão "em nome de Portugal".

Sefarad transformou-se quase num mito.

Algumas das vítimas da perseguição da Inquisição em Portugal 
© Catarina Maldonado Vasconcelos

Em compromissos velados, algumas casas mantiveram as práticas (e as sinagogas escondidas) que o judaísmo lhes instruíra. Os cripto judeus, forçados à conversão por um batismo na fonte central da vila, continuaram a dizer 'dessa água não beberei', no que ao catolicismo dizia respeito, tudo isto consagrado em rituais secretos e à sombra do medo. "As minhas vizinhas, nas sextas-feiras à tarde, faziam umas cerimónias que eu nunca compreendi, e uma delas colocava aqui uma vela [retira a tampa de um jarro de argila]. Ela cortava em pedaços o rebordo do recipiente para lá dentro poder alojar a candeia. Dizia que a luz não podia ser vista da rua. Faziam isto sem saber explicar muito bem porquê", recorda Carolino Tapadejo, em entrevista à TSF.

Menorá, o candelabro de sete braços que representa os dias da semana
© Catarina Maldonado Vasconcelos

O entusiasta que já passou por Espanha, Grécia, Itália, França, Inglaterra, Bélgica, Alemanha, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Canadá e Brasil numa cruzada com recurso apenas ao dom da palavra veio a encontrar uma das histórias de amor à terra mais surpreendentes em Israel.

"Estive a dar uma palestra numa universidade a norte de Telavive. Quando já estava a sair do palco, uma das senhoras, já idosa e muito doente, disse-me, num ladino muito alterado: 'Eu sou de Castelo de Vide, mas eu nunca lá fui.' Eu disse-lhe que não tinha compreendido, e ela respondeu-me: 'A minha família fugiu de Castelo de Vide, na primeira metade do século XVI, para o Império Otomano; Constantinopla, depois Istambul, mas sempre me disseram que a minha terra era Castelo de Vide. Eu vi que vinha cá um homem da minha terra-mãe, e quis vir ouvi-lo.'" A castelo-vidense, deslocada em geografia mas nunca em identidade, percorreu mais de 170 quilómetros, porque não tinha descendentes, estava com cancro e só queria voltar a casa.

As chaves do retorno © Catarina Maldonado Vasconcelos

Foi em 2015 que se fechou o último capítulo de um livro há tanto tempo guardado nas prateleiras do legado familiar. Chegada a Castelo de Vide, "a senhora depositou nas minhas mãos a chave medieval e os nomes da rua e de umas vizinhas". Guardião da casa e da História dos seus conterrâneos espalhados pelo mundo, Carolino Tapadejo afiança: é a primeira vez que uma chave daquela época retorna à porta que em tempos abriu.

Carolino Tapadejo e a chave medieval © Catarina Maldonado Vasconcelos

Em ladino, também se diz 'saudade'

"É interessantíssimo como chegámos ao século XX e depois ao século XXI com uma diáspora de judeus pelo mundo que mantém uma lagrimazinha no cantinho do olho quando se fala de Sefarad. Sefarad transformou-se quase num mito, o que significa que muitos judeus de origem portuguesa hoje procuram Portugal para fazer uma arqueologia da sua memória." As palavras são de Paulo Mendes Pinto, coordenador da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona.

A História dos judeus em Portugal é fascinante, dramática, mas maravilhosa.

Sefarad - Portugal e Espanha - permaneceu no imaginário destas famílias obrigadas a abandonar o território peninsular como uma terra de esperança, uma terra onde foram felizes, onde houve prosperidade e possibilidade de diálogo, desde a época do domínio islâmico e até à primeira dinastia. "Efetivamente, para muitos judeus sefarditas, o fim da história não é Jerusalém. O fim da história é Portugal e Espanha", analisa o embaixador do Parlamento Mundial das Religiões e fundador da European Academy of Religions.

Capítulos que ainda não encerraram com um final feliz encontraram oportunidades de reconstruir a imagem idílica que estes antepassados longínquos têm de terras lusas. Desde 2016, mais de 2100 sefarditas solicitaram cidadania portuguesa , e, no final de junho de 2018, os israelitas já se encontravam em segundo lugar entre os candidatos à nacionalidade portuguesa. De portas abertas, Portugal dificilmente voltará a sofrer fenómenos de perseguição à comunidade judaica, de acordo com Paulo Mendes Pinto, que explica: "Curiosamente, nós não temos o antissemitismo que grassa pela Europa central. A maioria dos portugueses garantidamente nunca se cruzou na rua com um judeu, e, mesmo que tivesse cruzado, não o saberia."

Com mais literacia e cuidados com a higiene que os demais habitantes medievais das vilas e centros urbanos, os judeus foram ostracizados e incompreendidos. "O judeu começa a ser visto como o bode expiatório por todas as situações que corram mal: pode ser um ano em que há fome, pode ser um ano de peste, pode ser uma fonte com água contaminada", revela o autor, que aponta que os judeus mais religiosos não adoeciam por terem já hábitos de desinfeção, limpeza e fervura das roupas usadas.

As pessoas tinham medo e não queriam investigar ascendência judaica nas suas árvores genealógicas. Era um tabu.

O Bar Mitzvá, realizado aos 13 anos no caso dos rapazes e aos 12 para as raparigas, obrigava também a que todos comungassem da literacia para que, sem dificuldades, dissessem as palavras sagradas. "Aos 12 anos, qualquer judeu é letrado, sabe ler e escrever. Temos provas de que funcionava assim, e isso lançava sobre eles um olhar incómodo da turbe cristã analfabeta. No século XV, alguém que é letrado, tem conhecimentos de matemática e consegue calcular juros e percentagens está muito mais preparado para ter sucesso."

"Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória"

Para ter sucesso e para gerir as finanças das grandes instituições portuguesas. "A História dos judeus em Portugal é fascinante, dramática, mas maravilhosa. Antes da conversão forçada, todas as cidades e aldeias tinham uma comunidade judaica. Eram sapateiros, mercadores, alfaiates e participavam ativamente na vida pública. Tiveram também a sua participação nos Descobrimentos." É assim que Richard Zimler, autor de 11 romances, levanta o véu ao que desvelou, desde 1996, data de publicação d'O Último Cabalista de Lisboa.

Muitos poetas sefarditas escreveram sobre a saudade que tinham de Segóvia, Granada, Toledo, Barcelona, Valência, Lisboa, Évora ou Porto.

"Começava ao mesmo tempo a compreender que, ao voltar para Lisboa, me era dada a possibilidade de reparar o desvio do meu destino", está escrito nas primeiras páginas. Longe desse mergulho iniciático, Richard Zimler, mais judeu por identidade do que por crença, norte-americano, português, filho de um marxista que considerava ser a religião o "ópio do povo", continua a encarar com fascínio a presença sefardita na Península Ibérica.

"O que mais me espantou, quando comecei a escrever 'O Último Cabalista de Lisboa', foi que, sempre que eu falava com os meus amigos sobre o massacre de Lisboa de 1506, em que milhares de cristãos-novos foram queimados e mortos no Rossio, todos eles - advogados, médicos e professores catedráticos - respondiam: 'Mas qual massacre?' Ninguém sabia de nada, talvez apenas meia dúzia de peritos", recorda Richard Zimler. O estigma fazia com que nem mesmo o código genético e as raízes dos portugueses lhes fossem assuntos familiares: "As pessoas tinham medo e não queriam investigar a ascendência judaica nas suas árvores genealógicas. Era um tabu, porque aprenderam, depois de 240 anos de Inquisição e de 50 anos de ditadura, a não falar de certos temas como o judaísmo."

Richard Zimler © Maria João Gala / Global Imagens

Numa mesa de café, à roda das conversas mundanas, o autor, cidadão de Nova Iorque, Porto, Lisboa, Israel, mundo, faz questão de lembrar que os próximos tempos testarão a abertura e flexibilidade da jovem democracia portuguesa. "Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória." É a frase de José Saramago que ali se entrelaça nas ideias e convicções do também jornalista.

"A terra prometida, para os judeus sefarditas, não era a Palestina. Era Espanha e Portugal. Muitos poetas sefarditas escreveram sobre a saudade que tinham de Segóvia, Granada, Toledo, Barcelona, Valência, Lisboa, Évora ou Porto." Podiam não falar um português perfeito, mas sabiam como soa, quando bate, a palavra 'saudade'.

Embaixadores do judaísmo português da época moderna

Para José Oulman Carp, antigo presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, basta abrir o álbum de família para compreender como a História de Portugal se dilui, anónima e indistintamente, no legado dos judeus sefarditas. O primeiro registo que encontra data de 1818, ano em que Abraão Bensaúde retorna aos Açores, à ilha de São Miguel, por ainda constatar que, no território continental, o cenário não era nada católico, ou, por outra, era demasiado católico.

"A minha família chegou a Marrocos com o nome Hassiboni. No cemitério judaico de Ponta Delgada - um cemitério muito bonito, aliás, e com um nome muito adequado para um cemitério, que é Campo da Igualdade -, as campas mais antigas são de Bensaúde, depois de Hassiboni, e, mais tarde, voltam a ser Bensaúde", conta. Os primeiros retornados judeus pós-Inquisição iniciaram a edificação da mais antiga sinagoga portuguesa desde a perseguição cristã em Ponta Delgada, logo no ano de 1836.

Pioneiros na exportação da laranja açoriana, fundadores da fábrica de tabaco micaelense e donos de estufas de ananases, os Bensaúde, família judaica, impulsionaram a economia da região insular. Os conhecimentos eram trazidos do estrangeiro, onde os mais novos estudavam, porque, "nos finais do século XIX, os judeus não podiam frequentar universidades portuguesas".

José Oulman Carp detém-se sobre cada uma das fotografias, e, entre os dedos, desfia as contribuições mais diretas dos seus familiares. "A Matilde era uma mulher notável, que estudou em Portugal e nos Estados Unidos, e introduziu o certificado fitossanitário, que hoje ainda é utilizado em muitas transações de mercadorias."

"O Joaquim foi engenheiro e historiador. Publicou cerca de 300 livros, todos sobre o período das viagens de circum-navegação", continua. "O Alfredo Bensaúde fundou o Instituto Superior Técnico." José Oulman Carp é também sobrinho de Alain Oulman, poeta e compositor de fados cantados por Amália Rodrigues.

Portugueses, judeus, comerciantes, engenheiros e artistas, devolveram a diversidade religiosa e cultural ao país. "Cada pessoa é uma planta de estufa. Precisamos de luz, de água, de terra. Temos de cuidar uns dos outros, sobretudo quando somos uma comunidade tão pequena. Ser presidente da comunidade foi como ser um jardineiro que cuida desta página da História do judaísmo", conclui José Oulman Carp.

Por Catarina Maldonado Vasconcelos, 21 Julho, 2019

Fonte: TSF

18 de Dezembro de 1961 na Índia.


O aviso “Afonso de Albuquerque”, na baía de Mormugão, sob o comando do Capitão-de-Mar e Guerra António da Cunha Aragão, está cercado por 3 fragatas da União Indiana que a meio desse dia 18 de Dezembro de 1961, lhe ordenam que se renda. 

A resposta portuguesa foi abrir fogo com as suas 4 peças de 120 mm iniciando um combate com fim anunciado.

A Marinha Portuguesa perdeu o navio que propositadamente foi encalhado na proximidade de uma das praias da foz do rio Mandoviaqui, mas perdeu também o telegrafista Rosário Piedade e uma dezena de feridos entre os quais o seu comandante em estado grave. 

No combate ainda foi atingida uma fragata indiana, que se retirou da batalha.

"Na madrugada do dia 18 de Dezembro, o aviso de 1ª classe “Afonso de Albuquerque” encontrava-se fundeado em Mormugão. 

A sua guarnição entrara no regime de prevenção rigorosa no dia 8 desse mês. Na eventualidade de uma invasão a sua missão era defender o porto e impedir o desembarque de forças da União Indiana nas praias próximas. 

O Plano de Operações do Comando Naval de Goa previa, além da acção naval contra as forças navais indianas
:- O encalhe em local previamente escolhido quando, na sequência do combate, corresse o risco de se afundar;
  • Ação artilheira como bateria costeira, defendendo o acesso ao porto;
  • A sua destruição quando se esgotassem as munições, a sua artilharia ficasse incapacitada ou as forças invasoras ameaçassem directamente Pangim;
  • E, por fim, a incorporação da guarnição no núcleo de defesa concentrado em Mormugão após o abandono do navio.
Às 0640 foi recebida a bordo uma mensagem do Comando Naval informando que a invasão tinha sido desencadeada (a notícia já era, no entanto, conhecida desde as 0400, pois tinha sido transmitida pela Emissora de Goa), tendo o pessoal ocupado postos de combate às 0655.

Cerca de cinco minutos depois, a aviação inimiga bombardeava o aeroporto de Dabolim e a Estação Radionaval, que foi imediatamente reduzida ao silêncio. Às 0730, porém, o navio estabeleceu comunicações com Lisboa. Até às 1030 transmitiu (e recebeu) várias mensagens para o Estado-Maior da Armada, dando conta da sua posição e dos bombardeamentos observados. Uma das mensagens transmitidas foi do Comandante-Chefe para a Defesa Nacional em que, mais uma vez, comunicava a falta de meios para fazer face ao ataque.

Por volta das 0900 foram avistadas ao largo de Mormugão três fragatas indianas, tendo a guarnição ocupado os postos de combate de superfície (não existia a bordo pessoal suficiente para garantir simultaneamente as componentes anti-superfície e anti-aérea, pelo que teve de acorrer ora a uma ora a outra, conforme a ameaça do momento). Às 1200 as fragatas aproavam ao porto a grande velocidade e abriam fogo com toda a sua artilharia, tendo um dos cinco navios mercantes fundeados na baía sido atingido.

O Comandante do aviso, Capitão-de-Mar-e-Guerra António da Cunha Aragão, mandou, então, picar a amarra, abrir fogo e sair o porto para enfrentar os navios inimigos.

Destes foram transmitidos vários sinais de morse acústico que, devido ao ruído do combate, não foram imediatamente descodificados. O Comandante mandou suspender o fogo, tendo, porém, ordenado a sua continuação antes de terem sido recebidas as duas últimas letras que constituíam a única palavra da mensagem: “surrender”. Nessa altura uma das fragatas foi atingida e foi rendida por um destroyer.

O “Afonso de Albuquerque” estava, porém, numa situação altamente desvantajosa, pois manobrava numa área confinada, enquanto os navios inimigos, aos rumos norte e sul, fora do porto, podiam utilizar toda a sua artilharia.

Também se verificavam grandes disparidades ao nível do poder de fogo: cada fragata indiana dispunha de 4 peças de 101 mm, com uma cadência de 60 tiros por minuto (e melhor capacidade de pontaria devido à existência de direcções de tiro), enquanto o aviso português só possuía 4 peças de 120 mm, com um ritmo de 2 tiros por minuto. 

Não tardou, assim, que o “Afonso de Albuquerque” sofresse os primeiros impactes, um dos quais atingiu em cheio a torre directora, causando a morte do 1º grumete telegrafista Rosário da Piedade e ferindo o Comandante com gravidade. Este chamou o Chefe do Serviço de Navegação, 2º Tenente Sarmento Gouveia, e pediu-lhe que transmitisse ao Oficial Imediato a ordem de assumir o comando e de não se render.

Nessa altura, outra fragata inimiga era atingida e substituída por uma nova unidade.

Ao assumir o comando, o Imediato, Capitão-de-Fragata Pinto da Cruz viu-se confrontado com a destruição prematura da instalação propulsora, pois o Chefe do Serviço de Máquinas (que perdera as comunicações com a ponte) entendera a ordem de abertura das válvulas de fundo para alagar os paióis a ré como o início do plano de destruição do navio. 

Não lhe restou, então, outra alternativa senão ordenar o encalhe do navio fora do local previamente estabelecido (frente à praia de Bambolim e não à de Dona Paula), o que aconteceu por volta das 12:35. 

Verificou, entretanto, o 2º Tenente Sarmento Gouveia que alguém içara uma bandeira branca numa das adriças. 

Como estava enrolada na verga de sinais (o que tornava praticamente impossível o seu avistamento pelos navios indianos, que prosseguiram o fogo) a adriça partiu-se quando se tentou arriá-la, acabando por ser retirada e destruída pelo 1º Tenente Martins Gonçalves. 

Mas com a torre directora inoperactiva, os circuitos eléctricos avariados, os monta-cargas das peças de vante fora de acção e as duas peças de ré encravadas, o “Afonso de Albuquerque” tinha esgotado a sua capacidade combatente (efectuara cerca de 400 tiros, tendo infligido 18 baixas – 5 mortos e 13 feridos – ao inimigo), pelo que, cerca das 1250, foi dada ordem de iniciar o abandono do navio. 

A bandeira nacional permaneceu içada. O fogo inimigo prosseguia com grande intensidade, não só em torno do navio como também sobre a praia. Mesmo assim, um grupo de oficiais, sargentos e praças regressou ao navio, sempre debaixo de fogo, numa vã tentativa de encontrar uma embarcação que pudesse transportar o Comandante por mar até Mormugão.

Em terra, o Capitão dos Portos de Mormugão, Capitão-Tenente Abel de Oliveira, indicou como local de reunião à guarnição do “Afonso de Albuquerque” o Clube Militar Naval, em Caranzalem (ao abandonar o navio, - a maioria a nado - o pessoal não pôde transportar consigo mais do que algumas armas individuais, pelo que não estava em condições de incorporar a defesa em terra), tendo o Comandante sido transportado numa viatura ao Hospital Escolar de Pangim.

Cerca das 1300 do dia 19, a guarnição foi, por fim, aprisionada. O Comandante das forças indianas deslocou-se pessoalmente ao Hospital Escolar de Pangim para visitar o Comandante Aragão e inteirar-se do estado dos restantes feridos."

Texto parcial do artigo publicado na RA nº 348, Dezembro 2001 da autoria do CFR Moreira Silva.

Revista da Armada - Homenagem da Marinha aos mortos da Índia em 1961: https://www.marinha.pt/Conteudos_Externos/Revista_Armada/PDF/2012/RA459.pdf

O fim da Índia portuguesa: 


Fonte: Facebook

Estruturas e objetos maias nunca antes vistos descobertos em Chichén Itzá


Cinco complexos arquitetónicos e vários objetos maias nunca antes vistos foram encontrados recentemente na zona arqueológica da antiga cidade de Chichén Itzá, no estado mexicano de Yucatán.

Em comunicado, o Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH) do México detalha que os cinco complexos arquitetónicos, um dos quais de utilizado para rituais, foram localizados entre os sítios arqueológicos de las Monjas e Serie Inicial.

Cada um dos complexos “esconde” dezenas de estruturas que estão a ser mapeadas por especialistas, que recorrem à tecnologia LIDAR (Light Detection and Ranging).

“Quatro complexos parecem ser residenciais, havendo um que, tendo em conta que tem uma pirâmide de cerca de cinco metros de altura, um quarto duplo no topo e uma escada, indica-nos que pode ser sido utilizado para rituais”, explica o arqueólogo Francisco Pérez, que liderou a investigação juntamente com José Osorio León.

De acordo com a mesma nota do INAH, foi encontrada uma mesa de pedra com representações de guerreiros e cativos esculpidos nas bordas, cujas idade está compreendida em 900 a 1000 d.C. Os cientistas acreditam que este objeto pertença a uma construção anterior que não foi ainda localizada.

A mesa, que mede 1,66 metros de comprimento por 1,27 de largura, tem 34 representações, 18 das quais são pessoas em cativeiro com as mãos amarradas a uma corda. Os restantes 16 são guerreiros, os responsáveis pela sua captura.

No mesmo local foi também descoberto um disco de pirite (sulfureto de ferro) com 30 centímetros de diâmetro, sendo este objeto considerado uma peça única que representa uma oferta datada entre 850 a 1200 d.C.

“Estes discos eram objetos importantes para a elite maia. Em Chichén Itzá, foram encontrados três que estão agora no Museu Nacional de Antropologia. Este é o quarto [até agora encontrado]”, disse o diretor do sítio arqueológico, Marco Antonio Santos.

Fonte: ZAP
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