Mercados chumbam o 'além troika' de Passos e Gaspar
Estudo do BNP Paribas revela que os países que mais austeridade implementam são também os mais penalizados pelos ratings e juros da dívida.
Ser bom aluno e ir além das metas acordadas com a troika vale a pena? A austeridade é a solução da crise? Os investidores premeiam quem reduz o défice orçamental? Para a maioria dos governos, políticos nacionais e líderes europeus obviamente que sim, para os mercados, nem por isso.
Três anos após o início da crise da dívida soberana na Zona Euro, os países que mais esforços fizeram para corrigir as suas finanças públicas foram precisamente os que mais cortes sofreram nos seus ratings e aqueles onde os juros da dívida pública mais subiram.
Esta é a conclusão de um estudo BNP Paribas publicado no final do mês passado. Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha e Itália, por esta ordem, foram os ‘campeões da austeridade’ entre 2009 e 2012. E o resultado foi um resgate da troika ou mais um passo a caminho de um intervenção externa. Antes da crise, Portugal tinha um rating igual a Espanha, Itália ou Bélgica, e hoje tem uma classificação semelhante a Angola ou Bangladesh.
Grécia, a mais penalizada
Os economistas do banco francês analisaram a relação entre a dimensão da austeridade implementada pelos vários governos da Zona Euro e o impacto desta na classificação atribuída pelas agências de rating e no risco do país – este último dado pela diferença de spreads dos juros cobrados pelos investidores face à dívida pública alemã, considerada como referência.
A Grécia, por exemplo, lançou medidas de consolidação orçamental (cortes na despesa ou aumentos de impostos) equivalentes a 15% do seu PIB. Em troca, viu as agências de notação colocarem o seu rating praticamente ao nível de bancarrota. Os juros da dívida helénica a 10 anos dispararem para níveis acima de 25%. A Alemanha paga 1%.
Atenas – apesar de ter aplicado o maior plano de austeridade da história financeira moderna – é regularmente vista como um caso à parte na crise do euro pelos líderes europeus e políticos nacionais, quando querem diferenciar o seu país. Recorde-se que a Grécia era o único Estado que ia ser intervencionado (já vão quatro), o único que faria uma reestruturação da dívida e o único que deveria sair do euro. Os dados do BNP mostram que as diferenças entre os países da periferia contam pouco para os investidores.
Dívida é factor chave
Veja-se o caso português. Quatro avaliações da troika positivas, imagem externa de ‘bom aluno’ e cumpridor de metas orçamentais não foram suficientes para fazer descer os juros da dívida do Estado abaixo dos 10% e evitar cortes de rating. O regresso aos mercados em Setembro de 2013 é pouco provável e um novo pacote financeiro da troika ou uma reestruturação de dívida são admitidas pelos investidores.
O BNP lembra que este ano Portugal fará mesmo o maior esforço de consolidação orçamental em toda Zona Euro – cortes equivalentes a 5,4% do PIB, ou nove mil milhões de euros. Na avaliação a Portugal, os investidores continuam a dar muito mais valor ao que se passa na Grécia ou em Espanha do que aos esforços do Governo de Passos Coelho.
Os mercados continuam a reprovar a estratégia da austeridade usada na Zona Euro para solucionar a crise da dívida soberana. Itália e Espanha, os dois mais recentes ‘alvos’, continuam a ver os juros da sua dívida a atingir níveis de resgate externo ( acima de 6%) e os ratings a ser constantemente reduzidos, apesar dos sucessivos planos de austeridade apresentados como aumentos de impostos, corte de salários e afins.
O BNP adianta que os investidores consideram que, apesar de necessários, os esforços de equilíbrio das contas públicas não são credíveis em países onde a dívida pública é demasiado elevada para ser corrigida só pelo Governo. Grécia (160% do PIB), Itália (120%) e Portugal (110%) detêm as maiores dívidas públicas de toda a Zona Euro. Mais do que a austeridade, a solução da crise do euro passa sobretudo pela resolução do elevado endividamento de muitos Estados, onde só acções concertadas a nível europeu – eurobonds ou mutualização da dívida – poderão ser eficazes.