quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

São necessários 17 mil litros de água para produzir uma tabelete de chocolate


Existe 70% de água no planeta terra, mas apenas cerca de 3% é potável e a restante é maioritariamente salgada. Para além de ser usada para consumo próprio, essa percentagem é usada também para a produção de alimentos, vestuário, tecnologia e energia. Sabe quanto de água consome no dia a dia?

Grande parte de nossa pegada hídrica está “oculta”, o que significa que é usada para as coisas que comemos ou vestimos e para a energia que usamos. Só para ter uma ideia, sabia que para fabricar o par de calças de ganga que tem no roupeiro são necessários 10 mil litros de água? Este valor é equivalente ao consumo diário suficiente para atender as necessidades de 47 pessoas, segundo os cálculos da Organização das Nações Unidas (ONU).

Se um pedaço de tecido consome mais de cinco mil litros de água, então quanto é necessário para produzir a comida de comemos diariamente? As plataformas Water Foot Print (WFT) e a Pegada Hídrica fizeram as contas dos alimentos mais consumidos e recomendações de forma a termos um consumo mais saudável e sustentável em prol do meio ambiente. Estes são alguns exemplos.

Café vs. Chá

A diferença no consumo de água entre estas duas bebidas é de quase 100 litros. Para a produção de cerca de três gramas de chá verde são necessários entre 27 a 30 litros de água enquanto que uma chávena de café consome 130 litros de água potável.

Pão vs. Cevada

A pegada hídrica média global do pão é de 1,608 litros, mas depois esse valor varia consoante o tipo de pão. Uma baguete francesa de 300 gramas, por exemplo, quando assada com trigo francês, tem uma pegada hídrica de 155 litros. Já um quilo de cevada requer 1.420 mil litros de água.

Leite vs. Ovos 

Um litro de leite consome mil litros de água. Já para a produção de um ovo (que por sua vez remete para o consumo de uma galinha) são precisos 200 litros de água. Um frango de um quilo bebe mais de quatro mil litros de água.

Carne de porco vs. Carne de vaca

Ainda que seja excessivo, entre as duas, a produção da carne de porco é a que menos consome água de acordo com a média global. São necessários seis mil litros de água para a criação de um porco de um quilo, enquanto que para a produção de um quilo de um vaca é necessário mais do que o dobro, totalizando 15,400 mil litros.

Banana vs. Maça

As frutas e vegetais são dos alimentos que menos consomem água. Enquanto que uma banana precisa de 160 litros de água, para uma maçã é necessário 125 litros. Já um quilo de batatas requer 290 litros de água e uma alface pede 240 litros.

Vinho vs. Cerveja

Curiosamente, não é a bebida que é feita à base de água que consome mais litros. De acordo com as análises, para um litro de vinho são precisos 460 litros de água enquanto que para a mesma quantidade de cerveja são necessários 155 litros de água.

Chocolate vs. Manteiga

Em média, os grãos de cacau têm uma pegada hídrica de 20 mil litros por quilo. Os grãos de cacau são primeiramente transformados em pasta, com cascas de cacau como produto restante. Para a transformação numa tabelete de chocolate são precisos 17 mil de água.

Tal como referido, a pegada hídrica média global do leite de vaca é de cerca de mil litros por quilo, mas apenas cerca de 28% dessa quantidade é destinada à manteiga. Para isso, são precisos cinco mil litros.

Mas não é só a alimentação que requer recursos hídricos.

Tal como um par de calças consome muita água, para a produção de um par de sapatos de couro são necessários 17 mil litros. Para um telemóvel são precisos 900 litros enquanto que um carro pede que sejam utilizados mais de 400 mil litros de água.

Pegada hídrica em Portugal

Portugal é considerado o sexto país entre 140 países com a pegada hídrica de cada habitante mais elevada devido, principalmente, ao setor agrícola.

Calcula-se que a utilização de água em Portugal seja aproximadamente de 52 metros cúbicos por pessoa por ano, no entanto, existe uma modificação da capitação diária regional entre 130 litros nos Açores e mais 290 litros no Algarve. Contudo, se a cada consumo pessoal for acrescentada toda a água utilizada nos bens consumidos, concluímos que cada português é responsável por utilizar 2.264 metros cúbicos por ano. 80 % dos 2,264 metros cúbicos corresponde ao consumo de bens agrícolas e 54% diz respeito à importação de bens para consumo, isto é, mais de metade da pegada hídrica em Portugal é externa.

O estudo concluído pela WWF diz que a elevada pegada hídrica portuguesa se deve à pouca eficiência do sector agrícola nacional e à dependência dos bens agrícolas que importamos, principalmente de Espanha.

Fonte: JE

Molécula venenosa pode ser forte sinal de vida extraterrestre


Fosfina está entre os gases mais fedorentos e exóticos da Terra. Este é um gás altamente inflamável e reativo às partículas da nossa atmosfera. Cientistas acreditam que pode ser um forte indicador de vida extraterrestre.

Em geral, os seres vivos da Terra, especialmente os que respiram oxigénio, não produzem ou dependem da fosfina para sobreviver. No entanto, investigadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) descobriram que a fosfina é produzida por uma forma de vida menos abundante: organismos anaeróbios como bactérias e micróbios, que não dependem de oxigénio para se desenvolver.

A equipa descobriu que a fosfina não pode ser produzida de outra forma na Terra, que não por esses organismos, avessos ao oxigénio. Isto faz dela uma bioassinatura.

Num artigo publicado em novembro na revista científica Astrobiology, a equipa indica que se a fosfina fosse produzida em quantidades similares à do metano na Terra, o gás geraria um padrão de luz característico na atmosfera de um planeta. Este seria claro o suficiente para ser detetado por um telescópio a uma distância de 16 anos-luz.

Assim sendo, se a fosfina fosse detetada em um planeta rochoso, seria um sinal evidente de vida extraterrestre.

Embora na Terra o oxigénio seja um sinal de vida, há outras coisas que produzem oxigénio. Por isso, é importante considerar outras moléculas que podem não ser produzidas com tanta frequência, mas só são produzidas por seres vivos.

A fosfina

Nos anos 70, a fosfina foi descoberta nas atmosferas de Júpiter e Saturno, gigantes gasosos e quentes. A autora do estudo, Carla Sousa-Silva, começou a questionar se a fosfina poderia ser produzida também na Terra.

Portanto, no MIT, em parceria com outros investigadores, começou à procura de resposta. A partir da investigação foi identificado que onde não há oxigénio, a fosfina está presente. Foi assim que os investigadores perceberam que a fosfina é muito tóxica para seres que gostam de oxigénio, mas para os que não gostam de dele, este gás parece ser uma molécula muito útil.

Depois desta perceção, os cientistas precisaram de garantir que a fosfina não pode ser produzida por algo sem vida, para considerá-la então como uma bioassinatura viável.

Para isso, eles passaram anos a executar uma análise teórica exaustiva de caminhos químicos para ver se o fósforo poderia ser transformado em fosfina de forma abiótica. Depois de muita análise, os investigadores chegaram à conclusão de que apenas algo com vida consegue criar quantidades detetáveis de fosfina.

Deteção em exoplanetas

Para identificar se é possível detetar a presença da molécula em exoplanetas, os cientistas simularam a atmosfera de dois tipos de exoplanetas com composição semelhante a da Terra, mas pobres em oxigénio. Os tipos de atmosfera foram: rica em hidrogénio e rica em dióxido de carbono.

Na simulação foram introduzidas diferentes taxas de produção de fosfina e extrapolaram como seria o espetro de luz de determinada atmosfera, dada certa taxa de produção de fosfina.

Foi assim que eles identificaram que, como dito anteriormente, seria possível detetar uma quantidade de fosfina equivalente àquela de metano produzida na Terra, a 16 anos-luz de distância. Essa esfera do espaço cobre uma variedade de estrelas e, possivelmente, hospeda planetas rochosos.

Fonte: ZAP

sábado, 21 de dezembro de 2019

Misteriosos sinais são recebidos da mesma zona espacial


O observatório IceCube, localizado no Polo Sul, detectou um fluxo de neutrinos vindo de uma área do espaço cósmico.

Apenas 43 segundos depois, o observatório LIGO/Virgo, nos EUA, captou ondas gravitacionais provenientes da mesma zona espacial.

Já o observatório HAWC, no México, registou 80 segundos depois raios gama originados da mesma área.

O astrofísico norte-americano Daniel Hoak questionou a misteriosa sequência de eventos captada pelos três observatórios.

Alguns cientistas acreditam que os três fenómenos cósmicos poderiam estar relacionados. 

Sendo assim, as ondas gravitacionais registadas podem ter sido originadas pela fusão de um pequeno buraco negro e uma estrela de neutrões.

Signal in LIGO/Virgo data. Most likely #gravitationalwaves from a source with one component in NS-BH mass gap. Observed 24 minutes ago. Find out more at: https://t.co/VglnWwjvCN pic.twitter.com/jpvJ9dF9HJ
Sinal nos dados do LIGO/Virgo. Provavelmente, ondas gravitacionais vindas de uma fonte com um componente no intervalo de massa NS-BH. Observados há 24 minutos. 

O fluxo de neutrinos e radiação gama, captados de forma quase simultânea na Terra, poderiam também ter sido causados por essa fusão, no entanto, o facto de os fenómenos ocorrerem com intervalos de segundos faz com que a hipótese citada seja questionada.

"A sequência de eventos parece estranha: não entendo como é possível que 43 segundos antes da fusão de uma estrela de neutrões e um buraco negro (se foi isso que aconteceu), ocorra uma explosão de neutrinos, e 80 segundos depois dessa fusão sejam emitidos fotões com uma energia de aproximadamente 100 GeV", publicou Hoak.

O astrofísico russo Valery Mitrofanov, professor do Departamento de Física da Universidade Estatal de Moscovo e chefe do grupo científico de colaboração internacional LIGO, explicou que as ondas gravitacionais, os raios de neutrinos e a radiação gama se propagam à velocidade da luz, e as discrepâncias no tempo entre esses fenómenos espaciais sugerem que não estão relacionados.

Mitrofanov também afirmou que a diferença no tempo de recepção dos sinais não pode ser explicada pela falta de sincronização dos equipamentos ou outro erro técnico, já que nada parecido havia ocorrido antes.

Para esclarecer o misterioso evento no espaço, os especialistas dos três observatórios deverão verificar os dados e realizar uma análise exaustiva.

Fonte: Sputnik News

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Há um megadrone israelita a vigiar o mar europeu e os pilotos são portugueses


A Agência Marítima Europeia juntou Israel e Portugal num projeto inédito de cooperação para vigiar o Mediterrâneo. Portugueses foram treinados pelos israelitas para pilotar o gigante Hermes 900

Oito pilotos portugueses estão já a trabalhar em Tympaki, na ilha grega de Creta, no Centro de Controlo Terrestre onde é feita a vigilância de uma zona do mar Mediterrâneo, que é uma das principais rotas de refugiados em direção à Europa. Contratados pela Agência Europeia de Segurança Marítima (EMSA), estão em missão a pedido da Frontex (Agência Europeia de Guarda de Fronteiras). Foram treinados para pilotar um dos maiores drones do mundo - o Hermes 900 (o maior é o norte-americano Northrop Grumman RQ-4 Global Hawk) - fabricado pela Elbit, um gigante israelita da indústria de defesa.,


Como se fosse um jogo de PlayStation, é com um joy stick e teclados que os portugueses fazem o Hermes 900 levantar voo, aterrar e sobrevoar o mar grego, enquanto observam os ecrãs com as imagens de satélite. É a primeira vez que aquele mega drone é pilotado por portugueses, recrutados por um consórcio nacional de aeronáutica, o CEIIA (Centro de Engenharia e Desenvolvimento). Fazem parte de um projeto da EMSA, que disponibiliza drones aos estados membros que o pretendam para operações de vigilância marítima - controlo das pescas e da poluição do mar, tráfico de droga e imigração ilegal -, bem como para operações de busca e salvamento.

O primeiro teste a esta inédita aliança luso-israelita teve lugar na Islândia, durante os últimos seis meses, já depois de os portugueses, com idades entre os 25 e os 45 anos, terem recebido formação na sede da Elbit, em Telavive. As autoridades islandesas pediram à EMSA que este drone apoiasse a guarda costeira na vigilância do mar gelado da sua zona económica exclusiva, principalmente na monitorização de pesca ilegal.


Nesta missão, os portugueses ainda estiveram acompanhados por pilotos israelitas, mas agora na Grécia estão por sua conta. "É uma experiência única na vida e um grande privilégio fazer parte desta equipa excecional. É um projeto de grande potencial, com resultados surpreendentes", sublinha João, de 25 anos, residente em Lisboa (os nomes dos pilotos são fictícios, a pedido da CEIIA, por razões de segurança). Nunca antes tinha pilotado e interrompeu o curso de Engenharia Mecânica para viajar para Israel. Rafael, 37 anos, de Lagos, já tinha experiência de pilotagem de helicópteros e assinala que estar ao comando deste drone "é igualmente gratificante", tratando-se de uma missão que, "não tendo, naturalmente, o risco pessoal associado", necessita de todo "o rigor e exigência que são uma constante no mundo da aeronáutica".

O DN contactou a Elbit para comentar este projeto, mas não recebeu resposta. Da parte da empresa portuguesa, fonte oficial sublinha a "grande satisfação de poder participar nesta operação com a Elbit, a maior empresa de defesa de Israel, com grande prestígio e capacidade tecnológica". A CEIIA destaca que a cooperação estabelecida com Portugal, com a operação dos drones a ficar sob responsabilidade de um país estrangeiro, "é única no mundo". "Criou-se um ambiente de grande confiança", assinala a empresa.

Além dos pilotos, cujos perfis a CEIIA procurou que fossem "variados, com mais e menos experiência, mais novos e mais velhos", foram também recrutados em Portugal seis mecânicos - ou seja, no total, a operação do Hermes 900 envolve 14 portugueses.

Com estes drones, explica o porta-voz da EMSA, "os Estados membros dispõem de vigilância marítima que não poderia ser alcançada com os meios clássicos (terrestres, satélites e aeronaves tripuladas). Os RPAS (remotely piloted aircraft systems) oferecem a capacidade única de fornecer dados de alta resolução a uma grande distância e têm a capacidade de permanecer imobilizados no ar em situações no mar, "como num caso de busca e salvamento".


O Hermes 900, acrescenta a EMSA, "tem a grande vantagem de ter uma autonomia de 12 a 14 horas, muito maior do que alguns aparelhos tripulados, como helicópteros e aviões, que normalmente têm uma resistência menor (quatro a seis horas), devido à necessidade de mudança de tripulação e de abastecimento de combustível".

A CEIIA e a Elbit ganharam este concurso - no valor de 56 milhões de euros - em 2018 e a sua missão na Islândia teve início em abril deste ano. O contrato é por dois anos, mas prolongável por mais dois. Com esta aliança, a empresa portuguesa ganhou pilotos com formação de alto nível para poder concorrer a outros concursos internacionais. "Foi construída uma capacidade de base", salienta a CEIIA.

Fonte: DN

Luzes espaciais a piscar no céu podem ser sinais de extraterrestres


Salvo raras exceções, as estrelas morrem e fazem-no numa de duas formas possíveis: passando lentamente para anãs brancas ou explodem rapidamente como supernovas.

No entanto, algumas estrelas parecem morrer apenas temporariamente sem explosão nem luzes espetaculares – apenas desaparecem do céu noturno e aparecem novamente mais tarde.

De acordo com os cientistas por trás de um novo estudo publicado este mês na revista científica The Astronomical Journal, este fenómeno estranho pode ter duas explicações: ou estamos a assistir a algo completamente novo no campo da astrofísica ou a ver sinais de atividade extraterrestre.

Na quinta-feira da semana passada, os cientistas envolvidos no projeto “Vanishing and Appearing Sources during a Century of Observations” (VASCO) publicaram o seu primeiro estudo, que detalha a busca por objetos que apareceram em pesquisas sobre o céu noturno que datam da década de 1950, mas que não não voltam a aparecer em pesquisas modernas.

Os investigadores analisaram 15% dos 150 mil objetos candidatos e encontraram 100 objetos vermelhos que surgiram e desapareceram nos últimos 70 anos. Os cientistas estão à procura de outros sinais de atividade extraterrestre, como lasers de comunicação interestelar vermelhos e esferas de Dyson – uma estrutura gigante hipotética que envolve uma estrela e aproveita sua energia.

O co-autor do estudo, Martin López Corredoira, observou, num comunicado divulgado pelo EurekAlert, que a equipa da VASCO não encontrou nenhuma evidência direta que ligasse as luzes à inteligência extraterrestre – mas o resumo do estudo implica que os autores também não estão a descartar essa possibilidade.

“As implicações de encontrar [fontes que desaparecem e aparecendo] estendem-se dos campos astrofísicos tradicionais às pesquisas mais exóticas de evidências de civilizações tecnologicamente avançadas”, escreveram.

Os investigadores afirmam ainda que uma explicação por trás de uma estrela desaparecida poderiam ser eventos raros chamados “supernovas fahadas” que ocorrem quando uma estrela maciça entra em colapso num buraco negro sem nenhuma explosão visível.

Agora, os cientistas querem organizar um Projeto de Ciência do Cidadão auxiliado pela Inteligência Artificial e terão ajuda da comunidade para examinar anomalias nos 150 mil candidatos identificados.

Fonte: ZAP

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Cromossoma Y está a desaparecer das células sanguíneas dos homens


Uma equipa de cientistas da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, descobriu que 44% dos homens com mais de 70 anos tinham perdido o cromossoma Y nas suas células sanguíneas.

De acordo com o portal The Atlantic, os especialistas analisaram amostras de 205.011 homens, obtidas através de um banco de genes no Reino Unido.

Os cientistas estimam que 20% da população masculina representada no estudo terá perdido o cromossoma Y nas suas céulas sanguíneas. Nos participantes com mais de 70 anos, a percentagem mais que duplicava, atingindo os 43,6%.

A equipa identificou 156 variantes genéticas autossómicas relacionadas com a perda do cromossoma Y, preferencialmente próximas aos genes envolvidos na regulação do ciclo celular, suscetibilidade ao cancro ou fatores somáticos de crescimento de tumores.

Os seres humanos, recorde-se, têm 23 pares de cromossomas. Nas mulheres, o 23.º par é XX, enquanto que nos homens o 23.º é XY.

Os autores do estudo não sabem ao certo o que causa esta situação, mas acreditam que a perda do cromossoma Y ocorre por predisposição a processos que promovem erros durante a divisão celular ou a processos que ajudam a criar um ambiente onde as células aneuplóides – células com um número anormal de cromossomas – podem proliferar.

Na prática, a perda do cromossoma Y nas células sanguíneas pode estar a permitir que mutações de vários tipos se acumulem, podendo estas mesmas mutações ser elos subjacentes para problemas de saúde, como é o caso do cancro e das doenças cardíacas.

Análises posteriores mostraram que pessoas com alta predisposição genética para perder o cromossoma Y correm maior risco de vir a ter algum tipo de cancro. As variantes genéticas encontradas também influenciam outros aspetos, como o envelhecimento reprodutivo ao a diabetes tipo 2.

John Perry, o biólogo da universidade britânica que liderou o estudo, sugere que os novos resultados são um sinal dos danos que o ADN sofre ao longo da vida. “Assumimos que a perda do cromossoma Y é determinada por mecanismos comuns que predispõem à instabilidade do genoma e ao cancro em muitos tipos de células”, apontou.

Os resultados da investigação foram publicados no fim de novembro na revista Nature.

Fonte: ZAP

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Aviso de asteróide: NASA rastreia rocha espacial maior que as pirâmides que se aproxima da Terra nas próximas horas


Um asteróide com a altura três vezes da Grande Pirâmide de Gizé está a apenas algumas horas de se aproximar do nosso planeta, revelaram os rastreadores de asteróides da NASA.

Os astrónomos da NASA acreditam que a rocha está em direcção ao nosso planeta numa trajectória de "aproximação aproximada". Estima-se que o asteróide tenha até 440 metros de diâmetro, tornando-o três vezes mais alto que a Grande Pirâmide de Gizé, no Egipto.

A NASA estima que a rocha espacial se aproximará de nosso planeta na tarde de quinta-feira, 19 de dezembro.

Passando pela Terra a uma velocidade de 101.520 km / h, o asteróide passará próximo à Terra por volta das 13h45 TMG.

A aproximação aproximada do asteróide está sendo rastreada pelo Centro de Estudos de Objectos Próximo à Terra da NASA ou CNEOS.

Os rastreadores da NASA chamaram o asteróide 2019 de XO3 após sua descoberta este ano.

A rocha espacial foi encontrada atravessando o sistema solar na semana passada, a 14 de dezembro.

A 18 de dezembro, a NASA fez 21 observações directas para determinar a velocidade, tamanho e trajectória da rocha.

A NASA determinou que o Asteróide XO3 é "potencialmente perigoso" Objecto Próximo à Terra (NEO) numa órbita de travessia da Terra.

De acordo com a NASA, asteróides potencialmente perigosos podem ficar "extraordinariamente próximos" do nosso planeta.

Ao estudá-los detalhadamente, a agência espacial dos EUA poderá um dia proteger a Terra de um impacto devastador.

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"Para os judeus sefarditas, a terra prometida nunca foi Israel. É Portugal e Espanha"

 

Da passagem medieval por Castelo de Vide à sinagoga do Porto criada no século XX. Do imaginário literário à materialidade da saudade. A TSF seguiu a rota da memória sefardita por Portugal e nela encontrou a terra prometida.

ichael Rothwell leva o livro sagrado até à linha dos olhos e abre-o com reverência, diante de uma sinagoga calada, a 25 Sivan do ano hebraico de 5779. O calendário civil marca 28 de junho de 2019, uma sexta-feira, e faltam poucas horas para o pôr-do-sol que inicia o sabat, e que apenas se extingue, de acordo com o Génesis, ao aparecimento das primeiras três estrelas da noite de sábado.

Aqui, em Portugal, não temos medo. O que temos é uma consciência histórica.

O templo está esvaziado da união de 10 homens de mais de 13 anos necessária ao serviço religioso, mas guarda a luz, sempre acesa, dirigida para Jerusalém. Para os judeus, a sinagoga tem de se orientar, como a própria ação o indica, para Oriente, onde o templo verdadeiro existiu em tempos.

"Escuta, Israel, o eterno é nosso Deus, o eterno é um. Bendito seja o nome daquele cujo glorioso reino é eterno. Amarás ao eterno, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas posses." As palavras são lidas da Tora, onde o hebraico e o português convivem como secularmente se falaram, sem empecilhos. A sinagoga portuense, Kadoorie - Mekor Haim ("Fonte de Vida"), a maior da Península Ibérica, reverbera as palavras de culto contra as paredes de azulejos com inspirações marroquinas, a favor da estrela de David.

 Michael Rothwell © Catarina Maldonado Vasconcelos

Com a eclosão da Guerra, as ideias de um projeto encantado desabaram. A ideia de resgate de marranos foi substituída pela necessidade da sobrevivência.

Michael Rothwell não ignora que há 500 anos poderia ser apanhado entre as rezas, pelos colarinhos, e levado até aos autos-de-fé. Há um peso histórico que se abate sobre os seus ombros, uma lembrança que vai sendo renovada, como uma história que tem várias formas de ser contada.

"Aqui, em Portugal, não temos medo. O que temos é uma consciência histórica, e sabemos que o que hoje está bem amanhã pode não estar", confidencia, à TSF, o professor de matemática, inglês, de 65 anos. As sombras de uma mão pesada da Inquisição são apenas silenciadas nos programas escolares, onde a questão judaica, aponta, raras vezes encontra protagonismo.

"Luz simboliza vida, não é? Tem de se manter sempre acesa essa luz." Foi debaixo deste ideal que a comunidade judaica do Porto foi criada há 96 anos, em 1923. Reza a história judaica que o militar Barros Basto, guiado pela motivação de fazer retornar ao judaísmo as famílias de cripto judeus/ marranos que tinham sido forçadas à conversão a partir de 1496. Em plenos anos 20, lembra Michael Rothwell, criar pontes entre as várias aldeias remotas de Portugal era uma tarefa hercúlea.

Ainda há orações em português e noutra língua muito rica, o ladino, formada com junção do espanhol e do português medievais.

Alguns jovens foram trazidos para o Porto para se tornarem líderes comunitários, depois de uma jornada penosa: "Não havia estradas, e ele ia a cavalo. Foram muito difíceis as viagens e as conversas com os cripto judeus, que por natureza escondiam a sua religião."

Na escalada que antecedeu a II Grande Guerra, no entanto, "o capitão foi alvo de inveja e de ódio, acusado de crimes que não tinha cometido, pelo que foi afastado do exército". Os marranos deixaram de sentir confiança no líder e regressaram às aldeias de origem. "Com a eclosão da Guerra, as ideias de um projeto encantado desabaram. A ideia de resgate de marranos foi substituída pela necessidade de sobrevivência", conta o representante da maior sinagoga da península.

Muitas famílias ainda hoje possuem chaves medievais das suas casas em Portugal da altura em que receberam o édito de expulsão em 1496.

As obras tinham terminado em 1938, um ano particularmente dramático para os judeus, com novembro a assinalar a Kristallnacht (Noite de Cristal), em que dezenas de judeus foram violentadas até à morte e as suas lojas vandalizadas, até partir o orgulho judaico em mil pedaços de vidro que faziam sangrar no peito. "Provavelmente foi a única sinagoga inaugurada na Europa nesse ano."

Ainda que o projeto de Barros Basto tenha sido deitado por terra nos seus primeiros anos, as sementes judaicas portuguesas tinham-se espalhado pelo mundo, sem que os fundamentalismos tivessem conseguido dizimá-las. "A cultura sefardita manteve-se ao longo dos séculos. Ainda há orações em português e noutra língua muito rica, o ladino, formada com junção do espanhol e do português medievais", explica Michael Rothwell.

É praticamente impossível que alguém em Portugal não descenda desses judeus.

Hugo Vaz, 31 anos, um dos casos raros de conversão ao judaísmo, ergue um molho de chaves, que tilintam: "Um dos objetos mais representativos dessa presença é precisamente este. Muitas famílias ainda hoje possuem chaves medievais das suas casas em Portugal da altura em que receberam o édito de expulsão em 1496."

"As casas já não existem, mas as chaves ainda existem", completa o professor de 65 anos. Em tempo de diáspora, os judeus levaram pedaços de Portugal e Espanha dentro do coração e pelos quatro cantos do mundo. "Ainda hoje há pessoas na Turquia com avós que falam ladino e que conseguem chegar cá e entender-nos, sem que qualquer membro da família, desde 1497, tenha pousado os pés na Península Ibérica", assevera o membro da direção da comunidade judaica do Porto.

Michael Rothwell © Catarina Maldonado Vasconcelos

Vem da inveja (...) Basta ver as estatísticas dos prémios Nobel para perceber que os judeus os ganham numa proporção bastante elevada.

Docente, Michael Rothwell volta-se para a História com a mesma ênfase com que soma conhecimentos matemáticos. Na perspetiva do inglês radicado em Portugal, é urgente rever os manuais escolares. "Muitas pessoas, senão todas, têm raízes judaicas em Portugal. Depois da expulsão decretada em Espanha, em 1492, estimamos que 100 mil judeus de Espanha se tenham juntado aos 100 mil que já havia em Portugal, o que perfazia 20% de população judaica. É praticamente impossível que alguém em Portugal não descenda desses judeus."

De acordo com Michael Rothwell, a comunidade judaica prefere manter-se discreta, resguardada do antissemitismo que "vem da inveja, porque há, sem dúvida, muitos judeus bem-sucedidos e inteligentes"."Basta ver as estatísticas dos prémios Nobel para perceber que os judeus os ganham numa proporção bastante elevada relativamente à sua quantidade", concretiza.

Uma comunidade pequena, sobre a qual ainda são apregoadas "teorias da conspiração", com um léxico português a favorecer preconceitos. As expressões 'és como um judeu' ou 'judiarias' não encontraram trava-línguas com o passar dos séculos e radicaram-se na cultura do país.

A ideia "ultrapassada" referente ao aspeto do judeu
© Catarina Maldonado Vasconcelos

A chave que voltou a casa, 400 anos depois

Foi em Castelo de Vide, no nordeste alentejano e a 12 quilómetros de Espanha, que se construiu uma das mais antigas e significativas ruas de habitações judaicas portuguesas. É um marrano que anda pela judiaria (no Priberam, 'bairro de judeus' ou 'reunião ou conjunto de judeus') sem travessura, mas com o olhar atento sobre os menorás - candelabros de sete braços - estilizados na pedra à porta das casas e sobre as reentrâncias onde se guardavam as escrituras judaicas sagradas.

© Catarina Maldonado Vasconcelos

Carolino Tapadejo, antigo autarca e estudioso dos assuntos sefarditas em colaboração com a Universidade Hebraica de Jerusalém, conta de cor as origens da História judaica em Castelo de Vide, que são também as páginas escritas pelos seus antepassados. E inicia-se assim: quando, em 1320, 17 famílias hebraicas se estabelecem na vila pertencente ao concelho de Portalegre. "Com o tempo, juntaram-se muitas outras famílias na rua da judiaria."

A rua da sinagoga © Catarina Maldonado Vasconcelos

Com a chegada da Inquisição a Portugal, em 1536, a lista de vítimas assassinadas em autos-de-fé avolumou-se, e o branco no preto não mente: foram mais mulheres perseguidas, para que se quebrasse o vínculo da educação judaica que a progenitora passaria aos filhos. Clara Mendes, Catarina Gomes, a Bonita, Isabel Gomes, Beatriz Henriques, Violante Lopes, Mécia Rodrigues, Inês Tristôa, Leonor Vaz. Estes são apenas alguns dos nomes por que Mário Soares, Presidente da República em 1989, pediu perdão "em nome de Portugal".

Sefarad transformou-se quase num mito.

Algumas das vítimas da perseguição da Inquisição em Portugal 
© Catarina Maldonado Vasconcelos

Em compromissos velados, algumas casas mantiveram as práticas (e as sinagogas escondidas) que o judaísmo lhes instruíra. Os cripto judeus, forçados à conversão por um batismo na fonte central da vila, continuaram a dizer 'dessa água não beberei', no que ao catolicismo dizia respeito, tudo isto consagrado em rituais secretos e à sombra do medo. "As minhas vizinhas, nas sextas-feiras à tarde, faziam umas cerimónias que eu nunca compreendi, e uma delas colocava aqui uma vela [retira a tampa de um jarro de argila]. Ela cortava em pedaços o rebordo do recipiente para lá dentro poder alojar a candeia. Dizia que a luz não podia ser vista da rua. Faziam isto sem saber explicar muito bem porquê", recorda Carolino Tapadejo, em entrevista à TSF.

Menorá, o candelabro de sete braços que representa os dias da semana
© Catarina Maldonado Vasconcelos

O entusiasta que já passou por Espanha, Grécia, Itália, França, Inglaterra, Bélgica, Alemanha, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Canadá e Brasil numa cruzada com recurso apenas ao dom da palavra veio a encontrar uma das histórias de amor à terra mais surpreendentes em Israel.

"Estive a dar uma palestra numa universidade a norte de Telavive. Quando já estava a sair do palco, uma das senhoras, já idosa e muito doente, disse-me, num ladino muito alterado: 'Eu sou de Castelo de Vide, mas eu nunca lá fui.' Eu disse-lhe que não tinha compreendido, e ela respondeu-me: 'A minha família fugiu de Castelo de Vide, na primeira metade do século XVI, para o Império Otomano; Constantinopla, depois Istambul, mas sempre me disseram que a minha terra era Castelo de Vide. Eu vi que vinha cá um homem da minha terra-mãe, e quis vir ouvi-lo.'" A castelo-vidense, deslocada em geografia mas nunca em identidade, percorreu mais de 170 quilómetros, porque não tinha descendentes, estava com cancro e só queria voltar a casa.

As chaves do retorno © Catarina Maldonado Vasconcelos

Foi em 2015 que se fechou o último capítulo de um livro há tanto tempo guardado nas prateleiras do legado familiar. Chegada a Castelo de Vide, "a senhora depositou nas minhas mãos a chave medieval e os nomes da rua e de umas vizinhas". Guardião da casa e da História dos seus conterrâneos espalhados pelo mundo, Carolino Tapadejo afiança: é a primeira vez que uma chave daquela época retorna à porta que em tempos abriu.

Carolino Tapadejo e a chave medieval © Catarina Maldonado Vasconcelos

Em ladino, também se diz 'saudade'

"É interessantíssimo como chegámos ao século XX e depois ao século XXI com uma diáspora de judeus pelo mundo que mantém uma lagrimazinha no cantinho do olho quando se fala de Sefarad. Sefarad transformou-se quase num mito, o que significa que muitos judeus de origem portuguesa hoje procuram Portugal para fazer uma arqueologia da sua memória." As palavras são de Paulo Mendes Pinto, coordenador da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona.

A História dos judeus em Portugal é fascinante, dramática, mas maravilhosa.

Sefarad - Portugal e Espanha - permaneceu no imaginário destas famílias obrigadas a abandonar o território peninsular como uma terra de esperança, uma terra onde foram felizes, onde houve prosperidade e possibilidade de diálogo, desde a época do domínio islâmico e até à primeira dinastia. "Efetivamente, para muitos judeus sefarditas, o fim da história não é Jerusalém. O fim da história é Portugal e Espanha", analisa o embaixador do Parlamento Mundial das Religiões e fundador da European Academy of Religions.

Capítulos que ainda não encerraram com um final feliz encontraram oportunidades de reconstruir a imagem idílica que estes antepassados longínquos têm de terras lusas. Desde 2016, mais de 2100 sefarditas solicitaram cidadania portuguesa , e, no final de junho de 2018, os israelitas já se encontravam em segundo lugar entre os candidatos à nacionalidade portuguesa. De portas abertas, Portugal dificilmente voltará a sofrer fenómenos de perseguição à comunidade judaica, de acordo com Paulo Mendes Pinto, que explica: "Curiosamente, nós não temos o antissemitismo que grassa pela Europa central. A maioria dos portugueses garantidamente nunca se cruzou na rua com um judeu, e, mesmo que tivesse cruzado, não o saberia."

Com mais literacia e cuidados com a higiene que os demais habitantes medievais das vilas e centros urbanos, os judeus foram ostracizados e incompreendidos. "O judeu começa a ser visto como o bode expiatório por todas as situações que corram mal: pode ser um ano em que há fome, pode ser um ano de peste, pode ser uma fonte com água contaminada", revela o autor, que aponta que os judeus mais religiosos não adoeciam por terem já hábitos de desinfeção, limpeza e fervura das roupas usadas.

As pessoas tinham medo e não queriam investigar ascendência judaica nas suas árvores genealógicas. Era um tabu.

O Bar Mitzvá, realizado aos 13 anos no caso dos rapazes e aos 12 para as raparigas, obrigava também a que todos comungassem da literacia para que, sem dificuldades, dissessem as palavras sagradas. "Aos 12 anos, qualquer judeu é letrado, sabe ler e escrever. Temos provas de que funcionava assim, e isso lançava sobre eles um olhar incómodo da turbe cristã analfabeta. No século XV, alguém que é letrado, tem conhecimentos de matemática e consegue calcular juros e percentagens está muito mais preparado para ter sucesso."

"Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória"

Para ter sucesso e para gerir as finanças das grandes instituições portuguesas. "A História dos judeus em Portugal é fascinante, dramática, mas maravilhosa. Antes da conversão forçada, todas as cidades e aldeias tinham uma comunidade judaica. Eram sapateiros, mercadores, alfaiates e participavam ativamente na vida pública. Tiveram também a sua participação nos Descobrimentos." É assim que Richard Zimler, autor de 11 romances, levanta o véu ao que desvelou, desde 1996, data de publicação d'O Último Cabalista de Lisboa.

Muitos poetas sefarditas escreveram sobre a saudade que tinham de Segóvia, Granada, Toledo, Barcelona, Valência, Lisboa, Évora ou Porto.

"Começava ao mesmo tempo a compreender que, ao voltar para Lisboa, me era dada a possibilidade de reparar o desvio do meu destino", está escrito nas primeiras páginas. Longe desse mergulho iniciático, Richard Zimler, mais judeu por identidade do que por crença, norte-americano, português, filho de um marxista que considerava ser a religião o "ópio do povo", continua a encarar com fascínio a presença sefardita na Península Ibérica.

"O que mais me espantou, quando comecei a escrever 'O Último Cabalista de Lisboa', foi que, sempre que eu falava com os meus amigos sobre o massacre de Lisboa de 1506, em que milhares de cristãos-novos foram queimados e mortos no Rossio, todos eles - advogados, médicos e professores catedráticos - respondiam: 'Mas qual massacre?' Ninguém sabia de nada, talvez apenas meia dúzia de peritos", recorda Richard Zimler. O estigma fazia com que nem mesmo o código genético e as raízes dos portugueses lhes fossem assuntos familiares: "As pessoas tinham medo e não queriam investigar a ascendência judaica nas suas árvores genealógicas. Era um tabu, porque aprenderam, depois de 240 anos de Inquisição e de 50 anos de ditadura, a não falar de certos temas como o judaísmo."

Richard Zimler © Maria João Gala / Global Imagens

Numa mesa de café, à roda das conversas mundanas, o autor, cidadão de Nova Iorque, Porto, Lisboa, Israel, mundo, faz questão de lembrar que os próximos tempos testarão a abertura e flexibilidade da jovem democracia portuguesa. "Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória." É a frase de José Saramago que ali se entrelaça nas ideias e convicções do também jornalista.

"A terra prometida, para os judeus sefarditas, não era a Palestina. Era Espanha e Portugal. Muitos poetas sefarditas escreveram sobre a saudade que tinham de Segóvia, Granada, Toledo, Barcelona, Valência, Lisboa, Évora ou Porto." Podiam não falar um português perfeito, mas sabiam como soa, quando bate, a palavra 'saudade'.

Embaixadores do judaísmo português da época moderna

Para José Oulman Carp, antigo presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, basta abrir o álbum de família para compreender como a História de Portugal se dilui, anónima e indistintamente, no legado dos judeus sefarditas. O primeiro registo que encontra data de 1818, ano em que Abraão Bensaúde retorna aos Açores, à ilha de São Miguel, por ainda constatar que, no território continental, o cenário não era nada católico, ou, por outra, era demasiado católico.

"A minha família chegou a Marrocos com o nome Hassiboni. No cemitério judaico de Ponta Delgada - um cemitério muito bonito, aliás, e com um nome muito adequado para um cemitério, que é Campo da Igualdade -, as campas mais antigas são de Bensaúde, depois de Hassiboni, e, mais tarde, voltam a ser Bensaúde", conta. Os primeiros retornados judeus pós-Inquisição iniciaram a edificação da mais antiga sinagoga portuguesa desde a perseguição cristã em Ponta Delgada, logo no ano de 1836.

Pioneiros na exportação da laranja açoriana, fundadores da fábrica de tabaco micaelense e donos de estufas de ananases, os Bensaúde, família judaica, impulsionaram a economia da região insular. Os conhecimentos eram trazidos do estrangeiro, onde os mais novos estudavam, porque, "nos finais do século XIX, os judeus não podiam frequentar universidades portuguesas".

José Oulman Carp detém-se sobre cada uma das fotografias, e, entre os dedos, desfia as contribuições mais diretas dos seus familiares. "A Matilde era uma mulher notável, que estudou em Portugal e nos Estados Unidos, e introduziu o certificado fitossanitário, que hoje ainda é utilizado em muitas transações de mercadorias."

"O Joaquim foi engenheiro e historiador. Publicou cerca de 300 livros, todos sobre o período das viagens de circum-navegação", continua. "O Alfredo Bensaúde fundou o Instituto Superior Técnico." José Oulman Carp é também sobrinho de Alain Oulman, poeta e compositor de fados cantados por Amália Rodrigues.

Portugueses, judeus, comerciantes, engenheiros e artistas, devolveram a diversidade religiosa e cultural ao país. "Cada pessoa é uma planta de estufa. Precisamos de luz, de água, de terra. Temos de cuidar uns dos outros, sobretudo quando somos uma comunidade tão pequena. Ser presidente da comunidade foi como ser um jardineiro que cuida desta página da História do judaísmo", conclui José Oulman Carp.

Por Catarina Maldonado Vasconcelos, 21 Julho, 2019

Fonte: TSF

18 de Dezembro de 1961 na Índia.


O aviso “Afonso de Albuquerque”, na baía de Mormugão, sob o comando do Capitão-de-Mar e Guerra António da Cunha Aragão, está cercado por 3 fragatas da União Indiana que a meio desse dia 18 de Dezembro de 1961, lhe ordenam que se renda. 

A resposta portuguesa foi abrir fogo com as suas 4 peças de 120 mm iniciando um combate com fim anunciado.

A Marinha Portuguesa perdeu o navio que propositadamente foi encalhado na proximidade de uma das praias da foz do rio Mandoviaqui, mas perdeu também o telegrafista Rosário Piedade e uma dezena de feridos entre os quais o seu comandante em estado grave. 

No combate ainda foi atingida uma fragata indiana, que se retirou da batalha.

"Na madrugada do dia 18 de Dezembro, o aviso de 1ª classe “Afonso de Albuquerque” encontrava-se fundeado em Mormugão. 

A sua guarnição entrara no regime de prevenção rigorosa no dia 8 desse mês. Na eventualidade de uma invasão a sua missão era defender o porto e impedir o desembarque de forças da União Indiana nas praias próximas. 

O Plano de Operações do Comando Naval de Goa previa, além da acção naval contra as forças navais indianas
:- O encalhe em local previamente escolhido quando, na sequência do combate, corresse o risco de se afundar;
  • Ação artilheira como bateria costeira, defendendo o acesso ao porto;
  • A sua destruição quando se esgotassem as munições, a sua artilharia ficasse incapacitada ou as forças invasoras ameaçassem directamente Pangim;
  • E, por fim, a incorporação da guarnição no núcleo de defesa concentrado em Mormugão após o abandono do navio.
Às 0640 foi recebida a bordo uma mensagem do Comando Naval informando que a invasão tinha sido desencadeada (a notícia já era, no entanto, conhecida desde as 0400, pois tinha sido transmitida pela Emissora de Goa), tendo o pessoal ocupado postos de combate às 0655.

Cerca de cinco minutos depois, a aviação inimiga bombardeava o aeroporto de Dabolim e a Estação Radionaval, que foi imediatamente reduzida ao silêncio. Às 0730, porém, o navio estabeleceu comunicações com Lisboa. Até às 1030 transmitiu (e recebeu) várias mensagens para o Estado-Maior da Armada, dando conta da sua posição e dos bombardeamentos observados. Uma das mensagens transmitidas foi do Comandante-Chefe para a Defesa Nacional em que, mais uma vez, comunicava a falta de meios para fazer face ao ataque.

Por volta das 0900 foram avistadas ao largo de Mormugão três fragatas indianas, tendo a guarnição ocupado os postos de combate de superfície (não existia a bordo pessoal suficiente para garantir simultaneamente as componentes anti-superfície e anti-aérea, pelo que teve de acorrer ora a uma ora a outra, conforme a ameaça do momento). Às 1200 as fragatas aproavam ao porto a grande velocidade e abriam fogo com toda a sua artilharia, tendo um dos cinco navios mercantes fundeados na baía sido atingido.

O Comandante do aviso, Capitão-de-Mar-e-Guerra António da Cunha Aragão, mandou, então, picar a amarra, abrir fogo e sair o porto para enfrentar os navios inimigos.

Destes foram transmitidos vários sinais de morse acústico que, devido ao ruído do combate, não foram imediatamente descodificados. O Comandante mandou suspender o fogo, tendo, porém, ordenado a sua continuação antes de terem sido recebidas as duas últimas letras que constituíam a única palavra da mensagem: “surrender”. Nessa altura uma das fragatas foi atingida e foi rendida por um destroyer.

O “Afonso de Albuquerque” estava, porém, numa situação altamente desvantajosa, pois manobrava numa área confinada, enquanto os navios inimigos, aos rumos norte e sul, fora do porto, podiam utilizar toda a sua artilharia.

Também se verificavam grandes disparidades ao nível do poder de fogo: cada fragata indiana dispunha de 4 peças de 101 mm, com uma cadência de 60 tiros por minuto (e melhor capacidade de pontaria devido à existência de direcções de tiro), enquanto o aviso português só possuía 4 peças de 120 mm, com um ritmo de 2 tiros por minuto. 

Não tardou, assim, que o “Afonso de Albuquerque” sofresse os primeiros impactes, um dos quais atingiu em cheio a torre directora, causando a morte do 1º grumete telegrafista Rosário da Piedade e ferindo o Comandante com gravidade. Este chamou o Chefe do Serviço de Navegação, 2º Tenente Sarmento Gouveia, e pediu-lhe que transmitisse ao Oficial Imediato a ordem de assumir o comando e de não se render.

Nessa altura, outra fragata inimiga era atingida e substituída por uma nova unidade.

Ao assumir o comando, o Imediato, Capitão-de-Fragata Pinto da Cruz viu-se confrontado com a destruição prematura da instalação propulsora, pois o Chefe do Serviço de Máquinas (que perdera as comunicações com a ponte) entendera a ordem de abertura das válvulas de fundo para alagar os paióis a ré como o início do plano de destruição do navio. 

Não lhe restou, então, outra alternativa senão ordenar o encalhe do navio fora do local previamente estabelecido (frente à praia de Bambolim e não à de Dona Paula), o que aconteceu por volta das 12:35. 

Verificou, entretanto, o 2º Tenente Sarmento Gouveia que alguém içara uma bandeira branca numa das adriças. 

Como estava enrolada na verga de sinais (o que tornava praticamente impossível o seu avistamento pelos navios indianos, que prosseguiram o fogo) a adriça partiu-se quando se tentou arriá-la, acabando por ser retirada e destruída pelo 1º Tenente Martins Gonçalves. 

Mas com a torre directora inoperactiva, os circuitos eléctricos avariados, os monta-cargas das peças de vante fora de acção e as duas peças de ré encravadas, o “Afonso de Albuquerque” tinha esgotado a sua capacidade combatente (efectuara cerca de 400 tiros, tendo infligido 18 baixas – 5 mortos e 13 feridos – ao inimigo), pelo que, cerca das 1250, foi dada ordem de iniciar o abandono do navio. 

A bandeira nacional permaneceu içada. O fogo inimigo prosseguia com grande intensidade, não só em torno do navio como também sobre a praia. Mesmo assim, um grupo de oficiais, sargentos e praças regressou ao navio, sempre debaixo de fogo, numa vã tentativa de encontrar uma embarcação que pudesse transportar o Comandante por mar até Mormugão.

Em terra, o Capitão dos Portos de Mormugão, Capitão-Tenente Abel de Oliveira, indicou como local de reunião à guarnição do “Afonso de Albuquerque” o Clube Militar Naval, em Caranzalem (ao abandonar o navio, - a maioria a nado - o pessoal não pôde transportar consigo mais do que algumas armas individuais, pelo que não estava em condições de incorporar a defesa em terra), tendo o Comandante sido transportado numa viatura ao Hospital Escolar de Pangim.

Cerca das 1300 do dia 19, a guarnição foi, por fim, aprisionada. O Comandante das forças indianas deslocou-se pessoalmente ao Hospital Escolar de Pangim para visitar o Comandante Aragão e inteirar-se do estado dos restantes feridos."

Texto parcial do artigo publicado na RA nº 348, Dezembro 2001 da autoria do CFR Moreira Silva.

Revista da Armada - Homenagem da Marinha aos mortos da Índia em 1961: https://www.marinha.pt/Conteudos_Externos/Revista_Armada/PDF/2012/RA459.pdf

O fim da Índia portuguesa: 


Fonte: Facebook
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