Há 69 anos no mar dos Açores: Marinha de Guerra Portuguesa Salva 118 náufragos do ‘Lima’
24 Janeiro 2012
Navegando 1.500 milhas debaixo de violento temporal
Entre 13 e 31 de Janeiro de 1943, altura de violenta fase da Batalha do Atlântico, na Segunda Guerra Mundial, a Marinha de Guerra Portuguesa efectuou uma, de entre muitas, das mais difíceis e corajosas missões de salvamento de náufragos no mar dos Açores, vítimas de torpedeamentos por submarinos alemães.
Os protagonistas desta valorosa acção humanitária, foi a tripulação do contratorpedeiro “Lima” sob o comando do então Capitão-Tenente Manuel Maria Sarmento Rodrigues, mais tarde Almirante e uma das figuras mais destacadas do Estado Novo, ocupando altas funções militares e civis, nomeadamente Governador da então Província Ultramarina de Moçambique, aonde desenvolveu uma notável acção politica, sendo das primeiras vozes da estrutura oficial a discordar de alguns aspectos da política ultramarina de Salazar, defendendo uma maior autonomia para as então colónias africanas portuguesas e a progressiva introdução de personalidades delas naturais na sua administração.
Cabe aqui recordar, que o Almirante Sarmento Rodrigues, cremos que depois de passar à reserva, foi Presidente do Conselho de Administração da já desaparecida “Empresa Insulana de Navegação” tendo nessa qualidade efectuado uma visita aos Açores a bordo do paquete “Angra do Heroísmo”, viagem que tivemos oportunidade de acompanhar na qualidade de redactor do “Correio dos Açores”, funções que na altura exercíamos, momentos que permitiram contacto mais próximo com aquele prestigiado oficial da Marinha de Guerra Portuguesa.
O Almirante Sarmento Rodrigues tem, de entre os seus vários trabalhos publicados, uma obra notável sobre as nossas ilhas, “Portos e Ancoradouros do Arquipélago dos Açores”, até há poucos anos guia indispensável para os que navegavam nos mares açorianos e um seu filho, Almirante Junqueiro Sarmento, casou nesta cidade de Ponta Delgada com uma senhora micaelense. São diversas as suas ligações aos Açores, aonde tinha muitos amigos. Entre estes, o piloto-mor do porto da Horta, Herculano Silveira com quem se encontrou na referida viagem, reencontro muito emocionante, que testemunhamos.
Mas estas são questões para os historiadores. Há vários trabalhos publicados sobre a matéria, e apenas a corajosa missão de salvamento no mar é o objectivo único desta reportagem, feita a partir de depoimentos recolhidos com alguns protagonistas e testemunhos da época, diversas leituras, nomeadamente da “Revista de Marinha”, do livro “Contratorpedeiro Lima – Relatório do Comandante de 15 a 31 de Janeiro de 1943”, vários documentos avulsos e consulta do site alemão “U-Boats”.
O começo da missão
Desde sempre, como ainda hoje acontece, a marinha de guerra portuguesa mantinha nos Açores, principalmente em Ponta Delgada, um navio, nas décadas de trinta e quarenta do século XX, normalmente um contra-torpedeiro, numa comissão à época chamada de “missão de soberania”. Era nestes termos que vinha a determinação na “Ordem da Armada” da altura da deslocação para os Açores de um navio. No tempo da “Segunda Guerra Mundial” essa presença foi aumentada com a colocação na Horta e Ponta Delgada de vários navios, conhecidas que eram as intenções e os planos, alemães e dos Aliados, para assegurarem a utilização daqueles portos açorianos, para reabastecimento de fuelóleo, só em Ponta Delgada, e de carvão, nos dois portos, além das necessárias arribadas para reparações.
Em Outubro de 1943, quando Salazar acabou por ceder às pressões Aliadas, foi estabelecida na Horta uma base naval inglesa, sediada no que restou do contratorpedeiro “HMS Chanticleer”, torpedeado pelo submarino alemão “U 515” quando escoltava o comboio “MKS – 30/SL – 139” ficando gravemente avariado mas de forma que foi rebocado para a Horta e atracado à doca servindo de QG da base inglesa. Em 31 de Dezembro de 1946 recebeu a designação de “Lusitânia” e foi desmantelado.
Mas voltemos ao relato da acção do contratorpedeiro “Lima”. No dia 6 de Janeiro o contratorpedeiro, “Lima” abrigado de temporal na Doca de Alcântara, em Lisboa, recebeu ordens “… de aprontamento para largar no dia 11…” com destino aos Açores, mas a partida, devido ao mau tempo, só foi na madrugada do dia 15 já com melhor tempo. Mas as condições meteorológicas agravaram-se progressiva e rapidamente e no dia 16 “… as coisas já não corriam amenas. O vento era muito forte de SW, o navio enxovalhava-se imenso e caturrava com força. A velocidade teve de ser reduzida e foi decidido alagar o tanque de nafta nº 3 – que juntamente com o nº1 já se encontrava vazio – a fim de por o navio em condições de estabilidade dignas do temporal que já se estava formando.”
A crescente violência do temporal, as circunstâncias dificílimas que o navio teve de suportar e as avarias provocadas, são detalhadamente descritas no já citado livro do comandante, o então Capitão-Tenente Sarmento Rodrigues, até que o “Lima” chegou a Ponta Delgada.
Feitas as reparações e o reabastecimento o “Lima” ficou operacional a 23 de Janeiro e o relatório do Comandante Sarmento Rodrigues é muito elogioso para o esforço da guarnição nas reparações necessárias, detalhadamente descritas no já citado livro de sua autoria.
O inicio da operação de salvamento de náufragos
No dia 26 de Janeiro o “Lima” foi mandado sair para procura e recolha dos náufragos do navio americano “City of Flint” afundado na véspera a cerca de 340 milhas a sudoeste de Ponta Delgada, local atingido pelas 16 horas do dia seguinte mas só cerca das quatro da madrugada do dia 28 foram avistadas baleeiras e jangadas sendo recolhidos 71 náufragos mas de outro navio, o “Júlia Ward Howe” que tinha sido torpedeado na véspera.
O “Lima” prosseguiu as buscas e entre as oito e o meio-dia encontrou três embarcações, do “City of Flint” com 48 náufragos, mas como os marinheiros recolhidos disseram haver uma outra baleeira as buscas prosseguiram. Entretanto, foi recebida a informação de que outro navio, o “Charles Pinckney” fora torpedeado e afundado, mas nada se encontrou a não ser um objecto esférico que, por representar perigo para a navegação, foi afundado a tiro de metralhadora.
Entretanto foi recebida a notícia de que um outro navio, o “Harry Beecher Stowe”, fora torpedeado e afundado, mas nada mais se soube sobre este caso.
No mesmo dia, faleceu a bordo do “Lima” um dos náufragos cujo corpo foi lançado ao mar, com o cerimonial da praxe.
No seu relatório, Sarmento Rodrigues anota que a maioria doa náufragos eram muito jovens e sem experiência de mar, recrutados nas difíceis circunstâncias da guerra
A violência do temporal
O tempo conservava-se bom desde a saída de Ponta Delgada mas pela manhã do dia trinta começou agravar-se rapidamente para ao meio-dia estar já muito mau.
O “Lima” fez rumo a Ponta Delgada com vento e mar sempre a crescer, produzindo grandes balanços e cerca das “…17:30 horas registou-se uma extraordinária inclinação de 67 graus, tendo havido nessa altura importantes avarias no material e ferimentos no pessoal”.
Segundo o relato do Comandante Sarmento Rodrigues,”… o mar entrou na enfermaria e fez uma pasta de tudo o que encontrou, medicamentos, roupas, tudo… parece que a água entrou na ponte baixa e houve quem afirmasse ver a parte inferior da cinta preta da chaminé de ré tocar no mar”.
E mais adiante no seu relato Sarmento Rodrigues escreve “ nos interiores foi um cataclismo. As mesas, cadeiras, aparelho de rádio e pessoas que se encontravam na câmara, tudo náufragos, viram-se amontoados sobre as vigias de BB …e alarmaram-se ao ponto de vários declararem preferir um torpedo a tal espectáculo”.
A navegação até Ponta Delgada foi sempre sob violento temporal, estando o “Lima” de capa por diversas vezes, como se poderá avaliar por estas passagens do relatório do Comandante Sarmento Rodrigues “a girobússola desregulada pela famosa inclinação, não dava conta de si. Agora chegava a vez à mâi, visto que, durante quase toda a viagem, a repetidora da ponte baixa fugia sistematicamente, grau a grau, para um dos bordos, não sendo possível dar-lhe com o defeito.”
E continua Sarmento Rodrigues no seu relato, “vinha anoitecendo e o mar e o vento cresciam sempre do SW, de alheta de EB. Pelas 2000 já o tempo era tempestuoso. O governo continuava muito difícil. Os aguaceiros pesados tudo encobriam O mar rebentava em toda a parte.”
A descrição da tormentosa viagem e o detalhe das muitas avarias provocadas e as manobras a que o temporal obrigava, são detalhadamente descritas no já referido livro “Contratorpedeiro Lima – Relatório do Comandante de 15 a 31 de Janeiro de 1943”, do então Capitão-Tenente Sarmento Rodrigues que, segundo julgamos, estará à venda no Museu da Marinha, em Lisboa.
A missão, tema desta reportagem jornalística, sem pretensões de relato histórico mas, apenas, tendo como objectivo recordar um episódio que atesta bem o sentido humanitário e de serviço da Marinha de Guerra Portuguesa, em condições de extrema dificuldade, terminou na manhã do dia 31 de Janeiro de 1943, quando o “Lima” atracou no porto de Ponta Delgada, sendo a sua guarnição alvo de vários louvores e agradecimentos das autoridades portuguesas e norte-americanas e dos armadores dos navios cujos tripulantes foram recolhidos.
Anos mais tarde, quando Almirante Sarmento Rodrigues foi a Londres comandando a flotilha na qual viajou, em visita oficial ao Reino Unido, o então Presidente da República General Craveiro Lopes, uma grupo dos náufragos salvos na missão que descrevemos, foi a bordo cumprimentá-lo e, uma vez mais, manifestar o seu reconhecimento.
Outros salvamentos
Para além deste salvamento, o contratorpedeiro “Lima” cumpriu outras missões de busca e salvamento de náufragos no mar dos Açores como são os casos dos navios “Ávila Star”, de que recolheu 73 náufragos; do “Roxburgh Castle”, 64 sobreviventes o que dá um total de 255 náufragos recolhidos em duas missões.
1 - Termo náutico utilizado quando o navio tem um forte balanço popa/proa que o faz embater com a proa no mar com muita violência.
2 - Termo náutico que significa lado esquerdo do navio.
3 - Termo náutico que significa estar o navio aproado ao vento e praticamente parado
4 - Termo náutico que indica o Sudoeste
5 - Termo náutico que indica o lado direito do navio.
6 - Termo náutico que significa manobrar o navio
Autor: Gustavo Moura
Muito boa noite pois eu tive o prazer de ser comandado pelo filho deste Senhor Almirante meu chefe em 1969 1970 1971 na Guiné C.D.M.GUINÉ BISSAU...
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