quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O fim do mundo é amanhã. Apocalipse será ao som do Gangnam Style

Facto: amanhã, pelas 11h12, acontece o solstício de Inverno no Hemisfério Norte e começa o Inverno. Especulação: para a mesma data, mais coisa menos coisa, os antigos maias – que contavam o tempo em grandes ciclos de 5125 anos mas não conseguiram prever o seu próprio fim fustigados pelas alterações climáticas (e só isto daria uma profecia muito mais realista) – esperavam o fim de uma era, a que se seguiria outra. Crenças à parte, certo é que há quem se prepare para sobreviver ao apocalipse com a carteira bem recheada. Desde o turismo na região maia até a kits de sobrevivência na Sibéria, o slogan do fim do mundo revelou-se um bestseller. Até o sul coreano PSY, autor do vídeo mais visto de sempre no YouTube e já milionário, aproveitou a profecia para vender, ou alguém o fez por ele
Nostradamus  previu o Gangnam Style e não era bom
Não há nada mais convincente do que uma teoria da conspiração e esta é das que mais tem ganhado força depois de a própria NASA ter afastado a hipótese de qualquer cataclismo. PSY, o cantor sensação da Coreia do Sul, é o novo anjo da morte, substituindo nesse papel o planeta Nibiru em rota de colisão com a Terra ou a ameaça de explosões solares e inversões abruptas do campo magnético. A profecia, rezam as redes sociais, liga os Cavaleiros do Apocalipse (os do apóstolo São João, portadores de peste, guerra, fome e morte), o profeta Nostradamus e o famoso hit “Gangnam Style”. Em 1503, Nostradamus terá escrito que “da calma manhã, o fim virá/ Quando o número de círculos/ do cavalo dançante chegar a nove”. Importa dizer que o profeta nasceu nesse ano, o que significa que teve a premonição no berço. Por outro lado, nasceu a 14 ou 21 de Dezembro, demasiada coincidência para ser ignorado por quem tenta lucrar com o apocalipse, seja Psy ou um terceiro. A teoria tem tudo para pegar, não sendo claro qual é a fonte deste dizer de Nostradamus que circula como fidedigno: um nome antigo da Coreia do Sul, Joseon, significa manhã calma. A dança viral de PSY imita um cavalo. Os nove zeros estão iminentes – é que o vídeo original do “Gangnam Sytle” aproxima-se dos mil milhões de visualizações no YouTube depois de 5 meses online. Ontem eram 983,1 milhões e prevê-se que a marca dos nove zeros seja superada amanhã. Ainda antes deste empurrão, fontes citadas pela Associated Press estimavam que só o cantor de 34 anos iria lucrar 8,1 milhões de dólares este ano em eventos, publicidade e downloads.       
Veja a mensagem na net – viajar está especialmente caro
Não é nenhuma experiência mediúnica: está prevista para sexta-feira a transmissão global de uma mensagem do conselho de antigos maias. Segundo o site worldunity2012.com, que funciona como portal das concentrações a propósito do fim da era maia, portanto com uma tónica muito pouco fatalista, a transmissão será feita a partir do festival Synthesis 2012, que terá lugar sexta-feira em Pisté, na província de Yucatán no México e perto das ruínas maias de Chichen Itza. Se só agora percebeu que gostava de estar perto deste epicentro da celebração, há passagens de Lisboa para Mérida (a 100 km) a partir de 1500 euros, mas só chegará sexta-feira ao final do dia e terá passado mais de 30 horas em escalas e aeroportos. Outra opção é voar para o Belize ou para a Guatemala, onde também haverá festas, mas talvez morra de ataque cardíaco quando procurar os voos mais baratos em agregadores como o site eDreams. Se a opção for o Belize, para gozar a sexta-feira em terras maias tem de pagar mais de 5000 euros, ida/volta. Se preferir as ruínas na Guatemala, há viagens em tempo útil a partir de 4000 euros. Se não se importar de gozar a efémeride com atraso, e confiar que o mundo não acaba entretanto, para a semana há viagens para todos os gostos a menos de metade do preço, mesmo se só voltar depois do fim do ano. O problema é que vai perder experiências únicas como uma ceia do Fim do Mundo que terá lugar em Mérida. O banquete, pela módica quantia de 650 dólares por pessoa e com direito a mais de nove pratos assinados por chefes, terá lugar no hotel Fiestamericana. 
Venham mais fins do mundo, diz o turismo. Não todo...  
Em 2008, a Sony Pictures gerou polémica no marketing do filme “2012”, que estrearia em 2009, ao criar um alegado Instituto para a Continuidade Humana. Quem não quisesse sucumbir à hecatombe deveria inscrever-se numa lotaria para ser salvo. Vários cientistas e académicos têm sido críticos deste uso comercial do fim do mundo como trunfo publicitário, alertando para o risco de alimentaram fanatismos e suicídios. O resultado, contudo, tem-se revelado mais tentador. Mostram-no os 770 milhões de dólares de receita em bilheteiras do filme “2012” e agora os números do turismo no México e na Guatemala, onde os especialistas em cultura maia vêm desmistificando o conceito de fim do mundo, ao mesmo tempo que o sector do turismo promove os destinos maias com slogans ambíguos. No México, o objectivo da campanha do governo era atrair 52 milhões de turistas mas até ao final do ano eram já esperados 80 milhões. Em cidades fetiche como Bugarach, uma aldeia francesa nos Pirinéus apontada pelos seguidores do movimento New Age como o único lugar a salvo, os hóteis estão lotados e a vida dos 200 habitantes tornou-se caótica. Segundo a France 24, a polícia cortou as estradas que dão acesso à montanha na terça-feira à noite. Também na Argentina, as autoridades decidiram bloquear os acessos à Serra de Uritorco, popular entre amantes do esoterismo. Gustavo Sez, presidente da câmara mais próxima, Capilla del Monte, explicou que a decisão surgiu depois de uma mensagem no Facebook apelar a um “suicídio espiritual em massa”. 
Bunkers e kits de sobrevivência: o negócio do ano   
Sobrevivência. Podia ser a palavra do ano, não dominasse por cá o apocalipse da austeridade. Abrigos e kits de sobrevivência são negócios em expansão. A lengalenga é geralmente a mesma: o mundo não deve acabar já, mas mais vale prevenir. Ou como diz a Atlas Survival Shelters, com abrigos a partir de 50 mil dólares, “é melhor estar preparado do que assustado”. Ron Hubbard, fundador da empresa, não teve papas na língua ao falar com o “Daily Mail”: “Vendi abrigos a astrofísicos que acreditam que há a possibilidade de sermos atingidos com uma chama solar forte ou radiação. Irei para o meu abrigo no dia 21. Se algum dos astrofísicos estiver certo, sentir-me-ia muito estúpido.” Se a histeria dos EUA é famosa, uma sondagem da consultora Ipsos mostra que a população mais crente no fim do mundo em 2012, à luz das profecias maias, é a chinesa. Num inquérito em Abril, 20% dos chineses acreditavam no fim iminente, seguindo-se Turquia, Rússia, México, Coreia do Sul e Japão (13%). Era na Rússia, contudo, que havia mais inquiridos a admitirem estar assustados. Talvez por isso o presidente Medvédev seja o único político europeu a falar sobre o tema. “Não acredito no apocalipse, mas acredito que o ano vai acabar e devemos preparar-nos para entrar no novo ano com bom humor.” Muitos russos não pensarão da mesma maneira, ou pelo menos estão animados o suficiente com o dia de amanhã para gastar dinheiro. Por 21 euros, mais de mil pessoas compraram um kit de sobrevivência à venda em Tomsk, Sibéria. Tem velas, sabão, vodka, conservas, uma corda e propostas de jogos para sobreviver ao tédio.  
Livros sobre o fim do mundo para dar e vender
É sabido que a indústria livreira já não é o que era, pelo que todas as modas são de aproveitar. O que aconteceu com a euforia em torno de 2012 é prova disso mesmo: do espaço gratuito na internet, saltou em força para o papel. Só nos últimos 30 dias no portal de vendas Amazon há registo de 190 novos títulos relacionados de alguma forma com o fim do mundo. Ganham os das teorias da conspiração, com raras excepções. “Saiba a Verdade: porque é que o mundo não vai acabar em 2012”, de Carmen Dana Smith, está à venda desde Novembro por 15 dólares. Espreitamos para ver se há novidades. Logo na introdução, embora o livro prometa abanar a nossa percepção dos acontecimentos, mais do mesmo. “Contrariamente ao que possa ler na internet, o mundo não vai acabar em 2012.” Um livro a aguardar será contudo um trabalho sobre o fenómeno de uma profecia global e quem ganhou com ele. David Morrison, cientista da NASA que diz ter recebido nos últimos meses mais de mil mensagens relacionadas com o fim do mundo, acusa empresas como a Sony de alimentarem um medo irracional, que a explosão de desinformação não ajuda a controlar. Ao i, o investigador enviou alguns exemplos de correspondentes cosmofóbicos, uma consequência prática e que se traduz no medo de um apocalipse provocado pelo universo, cada vez mais visível entre as crianças. “Tenho 14 anos e faço pesquisas sobre as teorias para 2012 desde os 10. Estou interessado, assustado e muito confuso. Estão a esconder alguma coisa? Por favor, contem a verdade”, lê-se num email recebido por Morrisson. 

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