Quando os acólitos da Troika, entenda-se o governo português e os partidos que o apoiam, decidiram lançar um desafio ao povo e às forças políticas e sociais representativas para refundar, primeiro, o memorando, depois, o estado social e, finalmente, o país, lançaram-se numa insana tarefa de atirar a ver se pega.
Primeiro, diz-se que temos de cortar 4.000 milhões na despesa do estado de forma a satisfazer as exigências da Troika. Depois, só depois, se vai dizer em que se corta.
É assim mesmo. Porque no fim, “se o país aguenta? Ai, aguenta, aguenta”.
Só é pena que os banqueiros deste país não aguentem com a crise das suas chafaricas sem pedir ao estado que meta a mão no bolso dos portugueses
para tapar os buracos enormes das suas aventuras ou má gestão.
Se o taberneiro passar o dia a oferecer “meisinhos” aos amigos, vai à falência. E se não lhe sobrar outro engenho ou meio para matar o vício, há-de pedir esmola ou roubará uma galinha para trocar por vinho.
Mas os pergaminhos das boas famílias e a honradez dos negócios financeiros não permitem determinadas liberdades aos seus atores. Por trás das suas gravatas e arreados com seus botões de punho, permanecerão incólumes para espanto de todos.
Fica-nos sempre uma espécie de azedume quando, tratando do sistema financeiro e bancário, nos falam de risco sistémico. Entende-se por sistémico o risco que tem em si potencialidade de contagiar toda a vida à sua volta, tal como um vírus ou bactéria o faz em relação à transmissão de uma doença.
Ora, o azedume acontece quando sabemos que o que estamos a dar para o sistema financeiro, nós todos, é para tapar os enormes buracos com origem na falta de seriedade e/ou prudência. E essa mesma falta de seriedade e/ou prudência leva as mesmas instituições a devolverem ao Banco Central Europeu 3 mil milhões de euros fruto de empréstimo a taxas muito baixas, concedido por este, e que devia ter sido injetado na vida das empresas e das famílias.
Ou seja além de nos tirarem com a esquerda, obrigando a pagar impostos e mais impostos, ainda nos empobrecem com a direita, não nos fazendo chegar os meios que poderiam ser essenciais para um pequeno crescimento da economia.
E o povo começa a perguntar-se: porque é que não se deixa um banco falir? Porque é que pode ir à falência uma fábrica, uns estaleiros, uma empresa de construção mandando para a miséria milhares e milhares de famílias?
Porque é que os bancos em Portugal continuam a distribuir dividendos,
juntamente com as grandes companhias de seguros, de energia, combustíveis e comunicações, enquanto o único dividendo que o país consegue ter para distribuir é mais desemprego e mais austeridade?
O poder político tem-se posto a jeito para o poder financeiro poder exercer, não a influência, mas a opressão. Esquecer-se de declarar oito milhões de euros… Ai aguenta, aguenta.
Se temos culpa nesta situação, não é por termos gasto mais do que podíamos, nem por termos tido mais olhos que barriga. Mas apenas porque pusemos à frente dos destinos da coisa pública gente que se banqueteou e banqueteou os amigos ou pura e simplesmente foi fechando os olhos ao que tiraria o sono a qualquer pessoa de bem.

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