João Inácio afirma que todas as respostas ao desaparecimento do avião da Malaysia Airlines são, nesta fase, especulativas. Encontrar as caixas negras é fundamental para aclarar o mistério.
O dado mais relevante na busca do Boeing 777 da Malaysia Airlines foi, na última semana, a transferência da área de buscas milhares de milhas mais para Norte no Oceano Índico. Já a Austrália confirmou, este domingo, que os objectos recuperados no mar por um navio chinês são lixo de cargueiros.
João Inácio é piloto e médico. À Renascença, afirma que todas as respostas ao mistério do desaparecimento do voo MH370 são, nesta fase, especulativas. Não se inclina, ainda assim, para a hipótese de "problemas médicos" dos pilotos do 777 malaio como explicação da queda.
Como avalia os últimos dados nas buscas do avião desaparecido?
Enquanto não forem encontradas as caixas cor de laranja – as chamadas caixas negras – não se vai chegar a qualquer conclusão neste caso. É virtualmente impossível extrair uma conclusão com os dados disponíveis e sem se chegar à informação disponível nessas caixas.
As razões são estas: se houve um qualquer incidente a bordo interferindo com a capacidade de pilotagem dos tripulantes no "“cockpit" – por exemplo, um incêndio a provocar asfixia, sufoco, inalação de monóxido de carbono e de fumos pelos pilotos –, não se justifica a mudança de rota de quase 180 graus.
Se o avião estava a voar em direcção à China, por que inverteu o sentido do voo, voltou para Sul em direcção ao Oceano Índico?
É muito estranho. Todas as perguntas que se possam fazer agora implicam respostas especulativas Insisto para benefício do esclarecimento da opinião pública: tudo o que se tem dito – e possa continuar a dizer com os mesmos dados na mesa - é pura especulação. É imaginação, não é mais nada.
É piloto e médico, está com os pés nas duas comunidades, a aeronáutica e a médica. Quais são as teses mais frequentes em cada uma das frentes?
Não acredito que tenha havido problemas médicos a bordo, tendo como implicação imediata a perda de conhecimento por parte dos pilotos. Se a rota inicial – em direcção à China – se tivesse mantido, assegurada pelo sistema de piloto automático, aí sim, consideraria como plausível a tese de um incêndio a bordo. A inalação de monóxido de carbono teria impedido a tripulação do "cockpit" de continuar a pilotar o avião e o sistema de pilotagem automática teria continuado a dirigir o aparelho na rota inicial. A inversão de sentido, de quase 180 graus em direcção ao Oceano Índico, não me sugere que tenha havido problemas médicos a bordo.
Terá havido então uma acção deliberada por parte de pilotos ou terceiros?
Admito que sim – sublinhando sempre ser um quadro especulativo. Com as informações disponíveis, enquanto não se souber, com rigor, o conteúdo das caixas negras, todas as hipóteses ficam de pé. Todas as hipóteses são válidas, mas todas as hipóteses são especulação. É fundamental esperar para ver. É fundamental rezar para que se encontrem as caixas.
A transferência da área de buscas – o triplo de Portugal -, mais para Norte no Índico, alimenta algum optimismo?
Essa decisão resulta do estudo de parâmetros registados nos satélites relacionados com a velocidade a que o avião se deslocava. Em abstracto, mas há outras variáveis: mais velocidade pode implicar maior consumo de combustível e menor autonomia de voo, logo menor distância percorrida. Há ainda a fazer a localização e a identificação de objectos de alguma dimensão a flutuar nas águas do Índico. Aqui não detecto muitos elementos especulativos. Só esse processo de sinalização e identificação, associado ao cálculo das movimentações das correntes, pode permitir saber se o avião caiu na área que foi esquadrinhada ou mais a Norte, como parece ser o caso. Mas não se pode produzir uma afirmação peremptória num ou noutro sentido. Continuamos na dúvida. Importa localizar destroços do avião e as caixas negras. Ponto.
Fonte: Rádio Renascença
Fonte: Rádio Renascença
Sem comentários:
Enviar um comentário