quinta-feira, 19 de junho de 2014

E hoje o topo de um monte vai abaixo para construir a casa de um telescópio

Ilustração do telescópio a construir no topo do Monte Armazones, no Chile AFP/ ESO
Explosão do topo do Monte Armazones, no Chile, pode ser acompanhada em directo pela Internet, ao final da tarde desta quinta-feira. É o início estrondoso da construção do European Extremely Large Telescope.

O mundo da astronomia está habituado a acontecimentos dramáticos: uma estrela supermaciça que explode, um buraco negro que devora matéria, o próprio Big Bang no início do Universo… Mas costumam ser muito distantes e já aconteceram há tanto tempo que a luz que emitiram demorou uma imensidão a chegar até nós. Desta vez, o dramatismo é mesmo aqui na Terra, no topo de um monte no Norte do Chile, que vai explodir nos ares ao final da tarde desta quinta-feira, para que possa aí nascer a casa do próximo grande telescópio da Europa.

A estrada que levará ao topo do Monte Armazones, a mais de 3000 metros de altitude, em pleno deserto de Atacama, já começou a ser construída em Março deste ano. Agora, a explosão de nivelamento do topo do monte destina-se a criar uma zona plana necessária à construção do E-ELT – o European Extremely Large Telescope ou, se preferirmos uma designação em português, o Telescópio Europeu Extremamente Grande. O acontecimento será transmitido em directo, via Livestream ou YouTube, a partir das 17h30 e até cerca das 19h30 (hora de Lisboa).

Portugal já disse, em 2013, que participará na construção deste telescópio, um projecto do Observatório Europeu do Sul (ESO), organização intergovernamental europeia com 14 países-membros e sede na Alemanha. Estima-se que custará 1083 milhões de euros (a preços de 2012). Além de Portugal, todos os outros países do ESO já disseram "sim" ao telescópio (Espanha foi o último, no início de Junho). Assim, as quotas anuais dos países-membros vão aumentar 2% ao ano, de forma cumulativa durante dez anos (a quota de Portugal, indexada ao produto interno bruto, foi de 1,8 milhões em 2012). Além disso, a contribuição adicional de Portugal para o E-ELT está estimada num total de 5,1 milhões de euros durante os dez anos que demorará a construção.

A expectativa é que o Brasil também entre para o ESO, tornando-se o primeiro país fora da Europa a pertencer a este clube de astronomia. Isto porque se espera que só o Brasil contribua com cerca de 30% do custos de construção do E-ELT. A decisão de entrada no ESO foi aprovada pela Presidente do Brasil, Dilma Rousseff, e espera-se a palavra final do Congresso Nacional brasileiro. Neste momento, a proposta segue a sua tramitação na Câmara dos Deputados do Brasil: a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional aprovou-a em Setembro de 2013, tendo então ainda de ser analisada por uma série de comissões antes de seguir para o Plenário daquela câmara.

Independentemente da decisão final do Brasil, a construção do E-ELT vai para a frente, uma vez que esta decisão já foi tomada pelo ESO, em 2012. Mas a construção do próprio telescópio só começará quando 90% do dinheiro estiver garantido. Para o caso de o Brasil dizer “não”, o plano B que o ESO começou a discutir no ano passado passaria pela entrada de outros Estados-membros na organização.

Um espelho único de 40 metros
Seja como for, a preparação do terreno da futura casa do E-ELT começa agora. Despido de árvores, como aliás toda a paisagem castanho-avermelhado circundante, o Monte Armazones deverá ficar com menos 40 metros depois da explosão, que arrancará cerca de um milhão de toneladas de rochas e terra.

No cimo do Armazones será construída uma numa única cúpula, onde ficará alojado o único espelho principal do telescópio: terá 40 metros de diâmetro, composto por 798 espelhos hexagonais. Não só nunca se construiu nada assim, em terra ou no espaço, como nenhum telescópio se lhe comparará em termos de resolução. Irá criar imagens 16 vezes mais nítidas do que o telescópio Hubble, que se encontra no espaço, portanto acima das perturbações causadas pela atmosfera nas observações astronómicas.

O E-ELT passará então a ser maior telescópio óptico – ou seja, que observará a luz visível, a mesma que os olhos humanos vêem – do mundo. Tal como o seu antecessor, o Very Large Telescope (VLT), situado no topo do Monte Paranal, a 20 quilómetros de distância do Monte Armazones, além da luz visível, também observará a radiação infravermelha. Igualmente construído pelo ESO, o VLT é composto por quatro espelhos principais, albergados em quatro cúpulas, que podem funcionar em conjunto como um único telescópio de 16 metros de diâmetro. Por enquanto, é o maior telescópio óptico e de infravermelhos do planeta, que será suplantado pelos 40 metros de diâmetro do espelho principal do E-ELT em 2023, quando se espera que capte a primeira luz.

Porquê fazer do deserto do Atacama a casa de muitos telescópios? É fácil explicar: é um dos locais mais secos do planeta, pelo que as nuvens, a chuva e a humidade na atmosfera, que perturbam as observações astronómicas, não são aí um problema. O céu é de um azul incrivelmente intenso, sem uma única nuvem a pontuá-lo, e quando a noite cai a Via Láctea é um espectáculo.

Fonte: Publico

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