quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Invenções sociais. Como uma garrafa de plástico pode mudar o outro lado do mundo

Iluminar com garrafas de plástico

Na era tecnologia, há gadgets pensados para resolver problemas básicos de quem tem pouco ou nada para gastar

Sitio Maligaya, um imenso bairro-de-lata em San Pedro de Laguna, nas Filipinas. As barracas encostadas ao caminho-de-ferro são buracos escuros, a maioria sem electricidade. Lá dentro, velas e candeias causam anualmente centenas de incêndios. Sem luz, pouco há a fazer em casa senão dormir. Os habitantes estão quase sempre na rua, haja ou não trabalho, escola ou sono. "Chamam-me Solar Demi, porque eu iluminei as suas casas escuras", conta Mang Demi, carpinteiro que em Abril de 2011 levou para o terreno uma ideia que em poucos meses mudou a vida da comunidade e se tornou o rosto de uma campanha que está hoje em 20 cidades filipinas, mais de dez países e espera entrar num milhão de casas até ao final de 2015.

O projecto-piloto que nasceu de um protótipo desenvolvido no MIT e foi apoiado pela ONG filipina MyShelter Foundation recebeu o nome de Isang Litrong Liwanag, agora internacionalizado na expressão Liter of Light. Mas a inovação pertence a um mecânico brasileiro, Alfredo Moser, que há um ano contava à BBC ter orgulho em ser pobre. Natural de Urebaba, cidade no Sul do Brasil onde os apagões são frequentes, um dia viu numa garrafa de plástico uma forma de acabar com a escuridão. Abre-se um buraco nos telhados de chapa, o suficiente para encaixar a garrafa de litro e meio, que se enche de água destilada. A luz do Sol, refractada na água, ilumina como uma lâmpada de 55 watts. "É luz divina. Deus deu o sol a toda a gente e a luz é para todos", disse.

Como o litro de luz, não faltaram nos últimos anos ideias fora da caixa e de baixo custo destinadas a melhorar a qualidade de vida nas regiões mais pobres do planeta. Chamam-lhes invenções solidárias ou sociais e visam contrariar uma estatística simples: apenas 10% da população mundial vive em países desenvolvidos, onde acontece a maioria da inovação e todos os anos chegam ao mercado novos gadgets. Mais de 2,7 mil milhões de pessoas em todo o mundo vivem com menos de 2 dólares por dia, por vezes em aldeias e cidades onde existem enormes dificuldades e desigualdades no acesso a energia, água potável ou cuidados de saúde. Estudantes, organizações não-governamentais e empreendedores locais têm mostrado como soluções por vezes fáceis de executar ajudam a tornar a vida pelo menos mais simples, com ideias que até são roubadas para negócios nos países ricos.

Na Guatemala, a ONG Maya Pedal começou em 1997 a transformar bicicletas em bicimáquinas, de máquinas de lavar roupa a bombas de água ou debulhadoras de milho. Os manuais para as adaptar estão no site da organização, que promove workshops. Um jovem de Portland usou a ideia para criar uma máquina de fazer smoothies e ficar em forma ao mesmo tempo. Foi ao programa Shark Tank este ano mas não teve apoio dos tubarões: queriam que a ideia de usar a bicicleta para outras aplicações fosse dele.

13 Invenções Sociais

Iluminar com uma garrafa de plástico

Como é que uma garrafa de água mudou o mundo? Em 2002, um mecânico brasileiro teve a ideia de usar uma garrafa de plástico para iluminar espaços interiores, partindo de orifícios nas casas para trazer a luz solar para o interior. Em 2011, a fundação filipina MySheltter com a ajuda do MIT criou um novo protótipo e começou a instalá-lo num dos bairros mais pobres do país, Sitio Maligaya. Desde então foram instaladas 15 mil garrafas solares em 20 cidades filipinas e perto de 200 mil em projectos idênticos em 15 países como Bangladesh, Colômbia ou México. Saiba mais em aliteroflight.org.

Transportar 90 litros de água com a ponta dos dedos

Hippo Water Roller

Nelson Mandela fez um apelo público para que esta ideia ganhasse forma por toda a África do Sul e tem uma fotografia ao lado de um Hippo Water Roller. A solução simples para a tarefa diária de abastecer de água potável aldeias e casas onde os pontos de acesso são por vezes a dez quilómetros de distância e não existem transportes surgiu em 1991. Pettie Petzer e Johan Jonker juntaram uma armação de alumínio a um bidão com capacidade para 90 litros que permite aos habitantes empurrarem a água até casa em vez de a carregarem em bilhas e baldes em menores quantidades e em cima da cabeça, como sempre foi hábito. No site do projecto –www.hipporoller.org – é possível doar um depósito rolante por 100 euros. Desde o início foram distribuídos 42 mil depósitos na África do Sul e noutros 20 países africanos.

Um ciberquiosque alimentado a energia solar

O Digital Drum foi considerado em 2011 pela revista “Time” uma das 50 invenções do ano. Aproveitando bidões de petróleo usados, o hardware de portáteis de baixo consumo de electricidade, teclados à prova de água e painéis solares, a UNICEF conseguiu instalar ciberquiosques em zonas rurais do Uganda, país onde apenas 10% da população tem acesso à internet. Em 2012 estes quiosques foram instalados em 50 comunidades, fornecendo manuais escolares e informação sobre saúde. Em Janeiro deste ano o Digital Drum evoluiu para uma mala de ensino à distância, projecto chamado School in a Box. A ideia é levar este quiosque de informação portátil para campos de refugiados e escolas com poucos recursos.

Bicicletas para lavar roupa e partir nozes

Bicicleta para lavar roupa e partir nozes

A primeira bicicleta moinho foi instalada em 1998 em Patzicia, na Guatemala e no mesmo ano surgiu a Maya Pedal. A ideia da organização não-governamental é criar ferramentas de trabalho auto-sustentáveis e mais eficientes para as comunidades rurais e não só, também para quem se preocupa com o desperdício de água, energia e tempo. Sediados em San Andrés Itzapa, no interior do país, a organização ensina a transformar bicicletas usadas em máquinas de lavar roupa ou de partir nozes de macadâmia e tem alguns manuais de reciclagem no site mayapedal.org.

Uma incubadora por 19 euros

Incubadora por 19 euros

As incubadoras usadas nas maternidades dos países desenvolvidos chegam a custar mais de 10 mil euros. A pensar no milhão de bebés que morrem no primeiro dia de vida todos os anos, muitas vezes por falta de assistência adequada, os estudantes de Stanford desenvolveram uma espécie de incubadora portátil que custa 200 euros e permite lidar com um dos principais problemas: a hipotermia, comum nas crianças prematuras ou com baixo peso. Os jovens, que se conheceram num curso de design acessível, começaram a desenvolver o protótipo do berço térmico em 2007 e no início chegaram a usar margarina no revestimento. Actualmente, cada utilização sai a 19 euros e podem ser usadas até 50 vezes. No final de 2013, a incubadora Embrace venceu um prémio de inovação da “Economist”. Já está a ser usada em 11 países e chegou a 50 mil crianças de baixo peso. No site embraceglobal.org é possível fazer donativos ao projecto sem fins lucrativos.

O bispo das cadeiras de rodas

Kike Figaredo, missionário jesuíta espanhol, é hoje conhecido como o bispo das cadeiras de rodas. Em missão no Cambodja, onde milhares de pessoas vivem mutiladas após sofrerem acidentes com minas antipessoais, criou há 20 anos uma cadeira com três rodas que veio tornar possível as deslocações em terrenos acidentados. Já foram distribuídas mais de 20 mil cadeiras de rodas Mekong, que se tornaram parte da paisagem e um sinal de esperança num país onde todos os anos os restos da ditadura de Pol Pot continuam a causar 300 acidentes. A história foi contada em 2013 num vídeo disponível no YouTube com o título “El Milagro de Mao.”

Jogar futebol para ter luz à noite

Chama-se Soccket e até Obama já deu umas cabeçadas. É uma bola-de-futebol-candeeiro, que carrega quando rola em campo. A empresa Uncharted Play, criada por um grupo de estudantes de Harvard, tem planos para distribuir bolas por todo o globo, mas ainda não acertou no protótipo. Depois de versões pouco robustas, aceitam pré-encomendas de uma soccket que diz carregar em meia hora de jogo o suficiente para três horas de lâmpada LED. Custa 75 euros.

Óculos de um dólar

O alemão Martin Aufmuth conta que a ideia nasceu com a leitura do livro “Out of Poverty” de Paul Polak: o autor falava de uma importante invenção por ver a luz do dia: óculos acessíveis a quem ganha menos de um dólar por dia. Ao sair da casa, o matemático viu um par de óculos à venda por um euro e começou a pensar numa forma do produto chegar ao mesmo preço aos países em desenvolvimento. Entre 2009 e 2010, desenvolveu uma fábrica portátil que permite produzir armações a nível local sem aumentar os custos e criou uma associação sem fins lucrativos. Com ajuda de donativos, espera distribuir nos próximos anos 150 milhões de óculos low-cost e formar fabricantes nos países.

Um saco-latrina que vira fertilizante

Estima-se que quase 40% da população, 2,5 mil milhões de habitantes, não tenham acesso a saneamento adequado. Em 2005, um professor universitário sueco Anders Whihelmson desenvolveu um saco higiénico que desde então tem sido implementado em bairros de lata no Quénia. No bairro de Kibera, empreendedoras locais vendem os sacos a três xelins, o equivalente a dois cêntimos. O saco Peepoo já é também usado em campos de refugiados e cenários de catástrofe. Ao receber fezes ou urina, o saco liberta substâncias que inactivam eventuais bactérias e vírus potencialmente perigosos e que poderiam contaminar água e solo, contribuindo para o início de surtos de salmonela ou cólera. Quatro semanas após o uso, os restos do saco funcionam como fertilizantes dos terrenos onde são enterrados.

Um autocolante contra mosquitos

Ainda são chamadas doenças negligenciadas por afectarem sobretudo os países mais pobres, mas cada vez há mais ideias inovadoras para prevenir as infecções causadas por picadas de mosquitos como malária e dengue. Um adesivo para usar na roupa parece ser capaz de enganar os mosquitos, impedindo-os de detectar o dióxido de carbono que libertamos quando respiramos e que nos torna presas fáceis. Os inventores desta nova tecnologia, o Kite Patch, pretendem começar a testar o autocolante este ano no Uganda.

O frigorífico do deserto

Nos anos 90, o professor nigeriano Mohammed Bah Abba arranjou uma forma de transformar vasos tradicionais de argila em preciosos frigoríficos que não precisam de estar ligados à electricidade. Estudos mostraram que o sistema de refrigeração, que implica que regar a areia duas vezes por dia, consegue preservar alimentos a uma temperatura 14 graus inferior à do ambiente, reduzindo o desperdício e evitando problemas de saúde. Beringelas que duravam apenas três dias passaram a poder ser conservadas quase um mês e os espinafres que tinham de ser deitados fora se não fossem consumidos no próprio dia podem agora ser guardados mais de uma semana. Os potes custam menos de um euro. No ano 2000, Abba venceu o prémio Rolex, que usou para distribuir centenas de frigoríficos em aldeias áridas do Norte da Nigéria mas também para expandir o projecto para o Darfur, Camarões, Chade e Congo.

Caçar o nevoeiro

Carlos, professor de física e matemática na Universidade do Chile, começou nos anos 60 a desenvolver umas telas de fibras que se tornaram uma fonte inesperada de água nas regiões desérticas do Chile. As telas captam a humidade da neblina e iniciam o processo de condensação, estando ligadas a reservatórios para onde a água extraída das nuvens é escoada. Pode ser usada para consumo ou rega. As chamadas atrapanieblas hoje são usadas no interior da América do Sul, estando as maiores na zona de Majada Blanca, na região chilena de Coquimbo. A estrutura com nove metros de altura e 150 de largura capta 450 a 600 litros de água por dia.

Um filtro de água de cerâmica

Chama-se MadiDrop e começou a ser testado em 2013 na África do Sul. Investigadores da Universidade de Virginia, nos Estados Unidos, desenvolveram um novo filtro de água com a aparência de um disco de cerâmica, que poder ser produzido a nível local e assim ajudar a ter água potável e a melhorar a economia. Quando é posto na água, liberta prata e cobre que eliminam as bactérias e não deixam resíduos perigosos para a saúde. Cada disco dura seis meses e custa 5 dólares. A empresa que tem a patente do produto, Pure Madi, quer ajudar empreendedores locais a instalar fábricas capazes de produzir 500 a mil filtros por mês.

Fonte: Jornali

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