segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Trilho da conspiração. Terão os EUA ajudado a criar o Estado Islâmico?


A ideia circula pela internet e há quem cite Edward Snowden e a Wikileaks de Julian Assange. Seguimos o trilho da conspiração. Washington tem responsabilidades - mas de outra natureza.

A era da informação é também a era da desinformação. E estar nas redes sociais é estar sujeito a um bombardeamento de suposta notícias em que as fontes se ocultam como bonecas matrioska. Em Julho, começaram a circular artigos com supostas declarações de Edward Snowden sobre o alegado papel que os serviços secretos dos Estados Unidos, do Reino Unido e de Israel teriam tido no nascimento do Estado Islâmico. Ou seja, que Washington, Londres e Telavive teriam financiado, armado e treinado os terroristas radicais que tomaram grande parte do Iraque e da Síria e que agora ameaçam o Ocidente com a publicação de vídeos de decapitações de reféns estrangeiros.

A Wikileaks, projecto de denúncias cujo principal rosto é o australiano Julian Assange, há dois anos exilado na embaixada equatoriana em Londres, decidiu desenrolar o novelo e publicou no Twitter que identificou o primeiro artigo a difundir a tese de uma conspiração. Trata-se de uma peça do site noticioso argelino Algerie 1. Segundo o artigo, que por sua vez cita a agência noticiosa iraniana Fars, o Ocidente aplicar a chamada "teoria do vespeiro", segundo a qual a constituição de um grupo terrorista ultra--radical teria o efeito de atrair para a região fronteiriça sírio-iraquiana "todos os extremistas do mundo".

O objectivo, afirma a Fars, ou o Algerie 1, seria proteger Israel. E teria sido a Mossad, aliás, a treinar política e militarmente o líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi.

OPORTUNIDADES FALHADAS Não há documentos que provem esta ligação entre as secretas ocidentais e o Estado Islâmico. Não vêm citados nos inúmeros artigos publicados por reputados jornais como o "The Guardian" ou a "Der Spiegel" com base nas fugas de informação do antigo técnico da NSA Edward Snowden, nem aparecem no imenso arquivo de comunicações diplomáticas secretas dos Estados Unidos reveladas pela Wikileaks.

Mas os documentos deste site provam um outro tipo de responsabilidade que recai sobre Washington. Se os Estados Unidos não são activamente culpados pela actual crise de segurança internacional com epicentro no deserto sírio-iraquiano, são-no pelo menos por inacção.

Recuemos a 18 de Fevereiro de 2010, em Damasco, capital da Síria. O então coordenador do Departamento de Estado norte-americano para a luta contra o terrorismo, Daniel Benjamin, reúne- -se aqui com o chefe da secreta síria, general Ali Mamlouk, e o vice-ministro sírio dos Negócios Estrangeiros, Faisal al-Miqdad. O encontro aconteceu um dia depois de uma reunião entre outro enviado norte-americano, William Burns, e o presidente Bashar al-Assad.

Em cima da mesa, nesta reunião mais recente, esteve a hipótese de cooperação entre Washington e Damasco na área da segurança. Concretamente, foi identificada por parte dos sírios a possibilidade de um esforço conjunto para reforçar a defesa da fronteira sírio-iraquiana - um ponto de partida para uma cooperação mais abrangente, sugeria Damasco.

Ainda sem ser sob a designação actual do Estado Islâmico, sírios e norte-americanos já tinham identificado a grave ameaça terrorista na região. Damasco tinha vários agentes infiltrados nos grupos armados que, por um lado, guiavam militantes e armamento para o campo de batalha iraquiano, e, por outro, traziam combatentes para o que seria um sangrento conflito em solo sírio.

No mesmo ano, os Estados Unidos indicavam a eliminação de 85% da liderança do Estado Islâmico do Iraque - a organização de onde nasceu o actual Estado Islâmico - e a quebra dos vasos de comunicação entre este grupo e a al-Qaeda afegano-paquistanesa. Curiosamente, estes mesmos relatórios do Departamento de Estado e da STRATFOR (empresa privada de inteligência), divulgados pela Wikileaks, mostravam que Washington assumia que fora a invasão de 2003 a alimentar o ódio anti-americano e a impulsionar o recrutamento de milhares de jihadistas na região.

Ou seja, em 2010, sírios e norte-americanos tinham a informação e a vantagem militar que lhes teria permitido um golpe capital na organização de Abu Bakr al-Baghdadi.

Os sírios, no entanto, estabeleciam um preço para a colaboração: o levantamento de sanções económicas ao regime de Assad. O motivo, diziam, era a necessidade de passar para a opinião pública a ideia de que as relações entre Damasco e Washington estavam a melhorar, de modo a poderem justificar politicamente a cooperação militar. Para os norte- -americanos, contudo, subsistia um obstáculo ao levantamento das sanções - a relação umbilical entre Assad e o grupo terrorista Hezbollah.

Um ano após esta reunião, deflagrava uma vaga revolucionária nas margens árabes do Mediterrâneo. Rapidamente, surpreendentemente, caem regimes autoritários na Tunísia, na Líbia e no Egipto. Politicamente, não era o momento para Washington colaborar com qualquer liderança musculada no Médio Oriente.

Dois anos depois, os Estados Unidos iniciavam o fornecimento de armas a facções rebeldes moderadas na Síria, um mês após um alegado ataque do regime com armas químicas. Indirectamente, através do enfraquecimento das forças de Damasco, o Ocidente acabaria por facilitar o actual avanço do Estado Islâmico.

Ao contrário dos supostos documentos que dariam conta de um financiamento directo de Washington, Londres e Telavive ao Estado Islâmico, todas estas informações foram tornadas públicas e podem ser consultadas.

Só que a confusão nasce muitas vezes na retransmissão destes dados. E aqui, a culpa também é da Wikileaks. A 8 de Agosto, a rede de Assange partilha um link para os referidos documentos relativos às acções norte-americanas no Iraque com a frase "STRATFOR mostra que os Estados Unidos criaram a estrutura de liderança e a sede de vingança do Estado Islâmico do Iraque". Trata-se de uma interpretação sobre os efeitos da ofensiva anti-terrorista de 2010 em Bagdade, não de uma informação factual. Mas quase 500 partilhas depois, muitos foram os que se ficaram pelo título, sem ler os documentos. Porque na era da desinformação, a ignorância também é uma opção.

Fonte: Jornali

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