sábado, 1 de novembro de 2014

Livro "A filha do Papa" permite “perceber como funciona o Banco do Vaticano”


O escritor Luís Miguel Rocha afirma que o novo romance, “A filha do Papa”, a publicar na segunda-feira, permite “perceber como funciona o Banco do Vaticano” e também “os passos do exigente critério da canonização”.

“Neste livro consegue-se perceber como funciona o Banco do Vaticano: há gestores de contas que só eles conhecem os titulares que têm pseudónimos. Soube-se, por exemplo, há pouco tempo, que havia um pseudónimo que era “Roma” o qual correspondia a Giulio Andreotti”, político democrata-cristão que ocupou o cargo de primeiro-ministro da Itália, e é desde 1991 senador vitalício da República.

Segundo o autor, soube-se deste facto “porque o gestor, o arcebispo Donato De Bonis - também referenciado no romance -, o deixou escrito no seu testamento".

No documento "ele afirmou que os fundos de milhões da conta titulada como ‘Roma’ eram para ser entregues a Andreotti”, disse Luís Miguel Rocha à Lusa, tendo acrescentado que “este arcebispo geriu durante anos os milhares de milhões do Banco Vaticano”.

O banco foi uma ideia de Madre Pasqualina Lehnert, uma freira alemã que teve um “caso de amor” com Pio XII, Papa sobre o qual corre um projeto de canonização e que também é referenciado neste livro editado pela Porto Editora.

“A filha do Papa” que titula o romance é “Anna”, uma das personagens da narrativa, fruto da relação entre Pasqualina e o eclesiástico italiano.

“Conheceram-se em 1917, na Suíça, quando este era núncio apostólico em Munique e posteriormente, exerceu o mesmo cargo em Berlim”, contou o escritor.

“Ela foi sua confidente, muitas vezes ele chamou-a à nunciatura e até lhe contou o que não devia, como os passos do Tratado de Latrão [que decidiu a relações entre a Santa Sé e a Itália]”, disse o escritor tendo sublinhado em seguida: “Pasqualina foi confidente, governante, amiga e amante" de Pio XII.

Madre Pasqualina foi “uma das mulheres mais poderosas do Vaticano, que durou todo o papado de Pio XII (1939-1958), e sobre quem é difícil investigar”, disse Rocha que não escondeu o fascínio sobre a freira transformada em personagem no seu novo livro.

“Pasqualina foi a única mulher a participar, como testemunha e serviçal, num conclave”, realçou o escritor, acrescentando que "foi o braço direito de Pio XII, um Papa que não teve nem secretário de Estado, nem camerlengo".

“O IOR [Instituto de Operações Religiosas], o banco do Vaticano, criado em 1942, foi uma ideia dela, mas não como ele é hoje usado”, realçou.

A ideia, contou Rocha, era que “as esmolas e contribuições de solidariedade fossem para um conjunto de contas – fundos e fundações – a usar em prol dos que precisavam, hoje o IOR é um banco de investimento, um paraíso fiscal puro”.

Luís Miguel Rocha referiu-se a esta instituição como “um banco mafioso”, tendo-se tornado intocável, dando alguns argumentos:

“João Paulo I meteu-se com o Banco do Vaticano acabou morto, João Paulo II meteu-se com o Banco do Vaticano sofreu um atentado [e] mudou completamente a sua gestão sobre o Banco a partir de 1981 e já não permitiu auditoria, nem permitiu nada”, referiu.

Bento XVI, prosseguiu o autor, tentou que “o Banco do Vaticano cumprisse todas as normas internacionais, pediu uma auditoria à Moneyval, da União Europeia, para que em todas as instituições financeiras do Vaticano não se possa lavar dinheiro”.

Bento XVI acabou por resignar, algo que o autor não esperava, mas suspeitou que se iria passar algo, daí ter adiado a publicação deste romance de outubro passado para a próxima segunda-feira.

“Sabia que havia movimentações com vista à realização de um conclave e confidenciei a amigos, mas nunca pensei nesta possibilidade de o Papa resignar”, disse à Lusa.

Referindo-se a Pio XII, o escritor afirmou que e ”foi um Aristides Sousa Mendes em grande escala" e "terá salvado direta ou indiretamente 800 mil judeus.

Fonte: Jornali

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