segunda-feira, 23 de março de 2015

A história de um naufrágio que continua a provocar pesadelos


Navio foi ao fundo e levou com ele 30 vidas. Após mais de duas décadas, o i recupera a história através das viúvas e dos filhos das vítimas, mas as perguntas continuam sem resposta

Foi na freguesia da Luz, em Lagos, que nasceu Joaquim António da Fonseca, em 1928. Cedo foi viver para Almada, onde encontrou trabalho na pesca de arrasto até ser forçado a emigrar para a Holanda. Como tantos outros portugueses, saiu do país à procura de melhores condições de vida. Sempre que teve oportunidade voltou a Portugal para visitar a mulher e os filhos. E todos os meses enviou dinheiro para que não lhes faltasse nada. Regressou de vez 30 anos mais tarde com vontade de passar a reforma junto da família.

Joaquim era mais um pescador num país que sempre teve uma forte ligação com o mar. A pesca ainda é tradição que passa de geração em geração, mas quem se mete nesta vida sabe tem muitas tempestades pela frente, avisam os pescadores. Acima de tudo, é uma profissão em que o perigo espreita a cada instante. Muitas vezes quem vai à pesca é obrigado a trabalhar com temperaturas negativas, e quando todos os outros estão a dormir. Vários foram os sustos e os acidentes que surpreenderam Joaquim António da Fonseca no alto-mar. Nenhum com as proporções da viagem do Bolama.

Quando já se encontrava em Portugal a gozar a reforma recebeu um convite do mestre Faustino para fazer uma viagem. O gosto pelo mar e o dinheiro extra que iria receber falaram mais alto e fizeram com que aceitasse o desafio, juntamente com os outros 29 pescadores que completaram a tripulação do pesqueiro Bolama. O navio largou de Lisboa a 4 de Dezembro de 1991. Tinha como missão testar um novo sistema de recolha de redes. Não seria tarefa para demorar mais de cinco horas, mas o navio não regressou. Dois meses depois, a 2 de Fevereiro de 1992, a Marinha localizou o navio a 130 metros de profundidade entre o cabo Raso e o cabo Espichel.

José Manuel tinha nessa altura 37 anos e ficou sem o pai: “Por já não estar no activo é que custou mais, porque não esperávamos.” Ainda por cima tinha tentado convencer o pai a não embarcar nessa viagem com o tio, o mestre Faustino. O pedido foi em vão. O apelo do mar foi muito mais forte. O navio tinha sido reparado e estava na Docapesca. Para se certificarem de que estava tudo a funcionar, decidiram fazer uma experiência, mas ainda assim o navio saiu sem autorização, não tendo sido feito “o desembargo nem a vistoria”, recorda ao i o filho, agora com 61 anos, sem conseguir conter as lágrimas.

Dos 30 corpos só oito apareceram. Nenhum deles foi o do pai ou o do tio de José Manuel: “Tivemos de sofrer sem os corpos, o que nos deixava na eterna dúvida.” O acidente do Bolama é um dos mais graves ocorridos em Portugal e até hoje resiste na memória dos pescadores, estejam eles onde estiverem no país. Deixou dezenas de famílias, na maioria mulheres e filhos dos tripulantes, sem qualquer tipo de rendimento, dado que estavam totalmente dependentes do trabalho dos maridos. Na lista dos óbitos contam-se 20 pescadores – 11 portugueses e nove guineenses –, dois administradores e dois amigos de administradores, quatro metalúrgicos, um mecânico e um técnico de electrónica.

“Foram momentos de puro desespero e mágoa”, conta Lúcia Tomás, umas das viúvas. Não havia informação, apesar de estarem sempre agarrados aos jornais e colados aos noticiários da televisão. Lúcia, hoje com 62 anos, recorda que nos seis meses a seguir ao acidente acreditou que o marido, José Barros, ainda ia voltar. Tinham uma filha de oito anos e tinham esperado dez para conseguir uma gravidez de sucesso.

José Barros saiu de casa e foi para a Docapesca. Como se fosse um dia normal. “O tempo estava bom, o mar calmo, não havia razão para um desastre”, conta. A embarcação desapareceu e ela nada soube. Não recebeu um telefonema nem uma visita. Foi através da televisão que Lúcia, na altura com 39 anos, teve conhecimento de que o Bolama estava desaparecido. “Foi muito difícil, ele deixou-me no trabalho às cinco da manhã e disse que voltava para casa ao fim do dia porque apenas iam fazer uma experiência de mar por algumas horas. Nem levou roupa, só a que tinha no corpo”, conta a viúva, descrevendo todos os episódios como “uma luta desgraçada que deixou muito mal todos os envolvidos”.

Lúcia diz que se não fosse a filha “provavelmente não estaria cá”. Não acreditou na morte do marido nem quando começaram a mostrar fotografias dos corpos encontrados. “Não seria pela roupa que iria acreditar que ele estava morto.” Só que em Junho apareceu um corpo que já nem estava inteiro mas trazia com ele uma chave de casa que confirmou a identidade do pescador. Foi apenas quando experimentou a chave na porta que Lúcia se resignou, reconhecendo que o seu marido, José Barros Tomás, estava morto: “Tentei negar ao máximo, aliás, não conseguia dizer à minha filha que o pai estava morto porque eu própria não acreditava.”

DESESPERO E LUTA Várias foram as viúvas que passaram fome e lutaram anos a fio por descobrir a verdade e receberem indemnizações, garante Lúcia. “Cada um safou-se como pôde, a única indemnização que recebi foi por acidente de trabalho, nada mais.” Diz que ficou com uma pensão de 50 euros e uma filha pequena para criar: “Não imagina quanto tive de lutar, porque pescador tem uma vida pobre”, desabafa a viúva, reconhecendo no entanto que havia pessoas em situações bem piores.

Somente as viúvas dos pescadores com contratos que previam indemnizações em caso de morte é que receberam compensações financeiras. Os restantes requereram uma indemnização ao Tribunal Cível de Lisboa, que levou 14 anos a decidir que não era “competente” para determinar sobre o caso.

Três anos depois, Lúcia Tomás reconstruiu a vida com um novo companheiro, mas não esquece José Barros nem as perguntas que ficaram sem resposta: “Ainda hoje me sinto frustrada, pois sei que estas respostas estavam no fundo do mar.” A esperança é hoje um fio quase invisível, quase a partir-se. “Isto deu tantas voltas, lutámos tanto, que eu já não consigo acreditar que um dia terei a resposta a todas estas dúvidas”, conta a filha do pescador, Marta Tomás, agora com 31 anos.

Com o decorrer das horas, dos dias, dos meses e dos anos, a apreensão agravou-se, mas com o tempo habituaram--se à ideia de que as respostas não iam surgir nem após anos e depois décadas de batalhas e derrotas.

José Manuel conta que foram batalhas muito difíceis em conjunto com os familiares dos restantes pescadores e ainda do sindicato e do dirigente Joaquim Piló (ver texto secundário). Na época o governo era liderado por Cavaco Silva. O seu sucessor, António Guterres, chegou a prometer na campanha que antecedeu a sua eleição desenvolver esforços para clarificar as circunstâncias do acidente. Foi admitida a hipótese de trazer o navio à superfície, mas poucos meses depois da eleição o executivo de Guterres terá deixado afundar a ideia, o que alimentou ainda mais a revolta das famílias das vítimas. “Fomos encorajados pelo grupo parlamentar socialista, por isso é que não suporto os partidos do poder. Virei um comunista ferranho”, desabafa José Manuel.

Na justiça ficou provado que o pesqueiro Bolama transportava seis toneladas de electrodomésticos adquiridos pelos pescadores guineenses, entre outros objectos. No entanto, muita tinta correu sobre a suposta carga ilegal que o navio poderia transportar. O caso acabou por ser arquivado com uma única explicação: acidente de causas naturais. Mas, para José Manuel, essa hipótese está fora de questão pois está convicto de que o acidente foi provocado, não sabe é porquê.

“Com a cartografia dos nossos mares, demorarem dois meses a ir procurar um navio é no mínimo suspeito. Claro que existem várias teorias e que a maioria não passa de especulações, mas fazem sentido”, diz o filho do pescador. “Sabe, isto é revoltante. A partir daí começamos a cristalizar um pouco a ideia de que houve algo por explicar, existiram várias especulações”, conta José Manuel.

Lúcia partilha a mesma ideia. Não é apenas o facto de terem perdido os maridos e os pais dos seus filhos. Ambos dizem que só quem passou por esta mágoa de nunca ter descoberto o que aconteceu com o Bolama pode entender o que eles passaram e continuam a passar cada vez que se lembram do navio que nunca foi resgatado do fundo do mar.

ESPERANÇA (AINDA) RESISTE Foi em Dezembro de 1991, já passou quase um quarto de século, e as famílias cada vez acreditam menos que vão obter respostas. Ainda há uma réstia de esperança, que essa, já se sabe, é sempre a última a morrer. Se José Manuel ainda acredita que vai obter respostas para o que realmente aconteceu? “Sinceramente já não acredito nada nisso, mas posso dizer-lhe que a esperança é a última a morrer, se bem que já passou muito tempo e a classe política que nos governa está cada vez pior, só dificulta as coisas. Costuma-se dizer que o tempo se encarrega de tudo, mas caso isso algum dia aconteça provavelmente já não estarei vivo.”

TEORIAS E MISTÉRIOS Correu muita tinta em volta do mistério do Bolama. Desde o início foram lançadas várias especulações sobre os motivos do naufrágio; a falta de estabilidade do navio, uma sabotagem devido a tráfico de armas e um abalroamento por um submarino português. E como sempre, um número sem fim de teorias e boatos. Sabia-se que o navio tinha saído às 11h e, uma hora mais tarde, comunicara pela última vez via rádio.

O mestre Faustino João Luís conduziu o navio Bolama para o mar do Pombal, apenas umas 12 a 20 milhas a noroeste do cabo Espichel. Estava carregado de equipamento electrónico e de comunicações sofisticadas, inclusive via satélite. Tinha pelo menos seis rádios convencionais ou de emergência, mas mesmo assim nenhum alerta foi emitido. E no entanto bastava carregar num botão para lançar um sinal de pedido de socorro luminoso. Por que razão nada disso terá acontecido? É só uma das centenas de perguntas que as famílias ainda hoje fazem.

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