quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A presença britânica na Ilha Terceira (1943-1946)

Há 68 anos, a 8 de Outubro de 1943, 3 milhares de militares britânicos instalaram-se na Terceira, após a concessão de facilidades à Inglaterra na Ilha, no contexto da II Guerra Mundial. A 6 de Outubro de 1946, 3 anos depois, os militares ingleses partiam da Ilha. O período da presença britânica na nossa Terceira é marcado por uma fase de novidades e mudanças no modus vivendi da população, não só a nível económico, mas também das mentalidades, da sociedade e, claro, da cultura terceirense.
Na madrugada de 8 de Outubro de 1943, uma sexta-feira, chegavam a Angra do Heroísmo, as forças britânicas. A população terceirense foi apanhada de surpresa pela chegada dos estrangeiros, contudo as ordens superiores, que ditavam a obrigação de ajuda no desembarque, foram cumpridas “à risca”. Desembarcaram, no Porto de Pipas, 20 mil toneladas de material para o Aeródromo das Lajes. Dias depois começavam as obras na pista, mas as sucessivas necessidades de ampliação, levaram o Governo britânico a pedir a Oliveira Salazar o envolvimento norte-americano no arquipélago. Em Janeiro de 1944, os norte-americanos desembarcaram na Terceira, não como militares, mas como técnicos especializados, uma imposição do Presidente do Conselho de Ministros português. Os EUA tinham ambições maiores e pediram, também, a concessão de facilidades nos Açores, neste caso, em Santa Maria. O Acordo foi assinado a 28 de Novembro de 1944, após um longo e difícil processo de negociação.
A interacção com os locais permitiu aos britânicos envolverem-se na vida social da Ilha, participando em várias festas, convivendo alegremente com os terceirenses. O incentivo britânico ao futebol e ao atletismo permitiu a realização de jogos entre locais e estrangeiros, assim como torneios e, com isso, implantar o desporto na Ilha. A relação também teve aspectos negativos. Os britânicos estavam proibidos de participar nos bailes locais, mas “incentivados” pelo abuso do whisky, apareciam e tentavam dançar com as jovens, o que originou várias cenas de confronto.
Com a construção de tabernas, ao longo da estrada Praia-Lajes, muitas casas de prostituição surgiram aí, pois era a solução encontrada para evitar a aproximação dos britânicos às mulheres locais. Contudo, foi preciso criar um calendário: “Segundas e Quintas-feiras para as liberdades amorosas dos britânicos, Terças e Sextas para os americanos e Quartas e Sábados para os portugueses, o Domingo era dia de penitência para todos”. Este calendário, interpretado aos dias de hoje, não deixa de ter algo de peculiar e até anedótico. De facto, nos anos 70 do século passado, os EUA fizeram o mesmo em Saigão, Vietname.
Os terceirenses festejaram a vitória aliada na Guerra e as principais figuras britânicas abandonaram a Ilha, pois a ordem do Governo inglês era para regressarem ao seu país, porém a concessão de facilidades era muito importante para os EUA, que atrasaram a saída britânica da Ilha, enquanto tentavam “convencer” Salazar da importância da permanência norte-americana nos Açores. A Inglaterra conseguiu, então, promover uma aproximação entre Portugal e EUA.
No final da Guerra, os terceirenses estavam descontentes com o facto das indemnizações, por terem visto as suas terras na zona das Lajes expropriadas, não terem sido ainda pagas pelo Estado. E para piorar, a notícia que o Aeródromo das Lajes seria apenas utilizado para a aviação militar, veio reacender os ânimos terceirenses. Os locais só pensavam na perda de terras, de dinheiro e de trabalho por causa das obras da pista das Lajes. A contestação popular foi forte. Salazar resolveu a situação, trazendo os norte-americanos de Santa Maria para a Base das Lajes, onde estão até hoje ininterruptamente. A 6 de Outubro de 1946, os britânicos saíam definitivamente da Terceira.
O impacto da presença britânica na Terceira é visível, directamente nas obras do Aeródromo, Porto militar da Praia e na Aldeia Novas das Lajes e indirectamente na mentalidade dos terceirenses, sobretudo na sua relação com o desporto. Os problemas com os britânicos influenciaram indelevelmente a relação posterior com os norte-americanos, apesar destes terem tentado manter-se afastados de problemas, pois a relação delicada e difícil entre Salazar e os EUA, não permitia grandes controvérsias e os norte-americanos sabiam disso. Actualmente, o estudo da presença britânica tem sido relegado para segundo plano, sobretudo devido à importância que a Base das Lajes teve para os EUA durante a segunda metade do século XX. Hoje em dia, os EUA, ainda, utilizam as Lajes como a fronteira com a Europa. Há uma certa inferiorização no papel que os britânicos desempenharam na Terceira, o que não pode, nem deve acontecer, pois a concessão de facilidades à Inglaterra foi o prolongamento da “velha aliança” de 1373 e é um retrato vivo das nossas Relações Internacionais e um “pequeno” grande contributo da Terceira para a História Mundial.
Francisco M. Nogueira

Nota 1: Importa referir que o Capitão-Aviador Frederico de Melo foi o responsável pelas obras do primeiro aeródromo, o Campo de Aviação da Achada, em 1930, mas como era uma zona de muito nevoeiro, desistiu-se deste e construiu-se o das Lajes.

Nota 2:Para quem quiser saber mais do tema, recomendo: Os Açores e a II Guerra Mundial. Actas do colóquio internacional comemorativo dos 60 anos sobre a capitulação alemã do IAC; o artigo “Alguns tópicos sobre as relações entre os Açores e a Grã-Bretanha (durante a Segunda Guerra Mundial” na revista Arquipélago de Luís Andrade; a tese Os Açores na Segunda Guerra Mundial: A visão interna, de José Augusto Grave (Universidade dos Açores), os 2 volumes de Portugal na Segunda Guerra (1941-1945), de António José Telo, assim como a tese apresentada a 3 de Novembro de 2008, O Impacto da presença britânica na Ilha Terceira 1943-1946 de Francisco M. Nogueira (ISCTE-IUL).
in A União, 04/10/2011

Fonte: Facebook

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