quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Os EUA e a Terceira (1944-1974)


A presença dos norte-americanos na Ilha Terceira teve e tem, ainda, um forte impacto na estrutura sócio-económica e cultural da nossa Ilha. A chegada norte-americana à Terceira deu-se em 1944 e depois de 1946, com a saída dos britânicos, ganhou força e consistência. Uma presença que dura até hoje ininterruptamente e que tem, por isso, um papel vital na História da Ilha. Assim, estudar as negociações do Acordo dos Açores, é compreender melhor a relação entre povos na Ilha e, sobretudo, conhecer melhor os meandros políticos que conduziram à contínua renovação do Acordo. Posto isto, sendo um período longo, vai-se dividir este trabalho em duas partes e nesta primeira, vamos estudar o período de 1944 até Abril de 1974, o período em que a Base foi a grande moeda de troca de Salazar junto dos EUA e a sua “bóia de salvação”.
O Acordo dos Açores, assinado entre Inglaterra e Portugal, que permitiu o desembarque britânico a 8 de Outubro de 1943, no Porto de Pipas, não possibilitava aos EUA o mesmo tratamento que o Aliado. Assim, os EUA iniciaram negociações com Portugal para a concessão de facilidades em Santa Maria, o que veio a acontecer em 28 de Novembro de 1944. Contudo, como a Terceira desempenhava um papel importante na Guerra, era necessário, no final de 1943, ampliar a pista das Lajes, desculpa utilizada pela Inglaterra para envolver os EUA na Ilha. Salazar não reagiu favoravelmente à ideia, mas acabou por aceitar, a 9 de Janeiro de 1944, o desembarque de técnicos americanos com material para a construção do hospital e do depósito de combustíveis, assim como para o aumento do Aeródromo das Lajes. Os norte-americanos desembarcaram, em solo terceirense, como técnicos para ajudar nas obras, não como militares, e ficaram sob as ordens do Comando Britânico.
Após a assinatura do acordo luso-americano de 1944, os EUA instalaram-se na Base de Santa Maria, mas mantiveram o apoio aos ingleses, nas Lajes. Em 1946, com a saída dos britânicos da Terceira, e para resolver a situação económica da Ilha, os EUA deixaram a Base de Santa Maria, instalando-de definitivamente nas Lajes. Iniciando-se, pouco tempo depois, uma nova ronda negocial para a renovação de um novo acordo,  com Lisboa, visto que em finais de 1947, o anterior cessava. A 11 de Fevereiro de 1948, o novo acordo era assinado e concedia à aviação norte-americana facilidades nas Lajes por um período de 3 anos. Era o acordo que iria permitir os EUA na Terceira até hoje.
As negociações para a renovação do Acordo de 1951, fizeram-se, já, no âmbito da NATO (1949), pois a Containment Policy (política de contenção face ao avanço soviético) ganhava importância, era preciso deter a URSS na sua esfera de influência. Um novo acordo foi assinado a 5 de Janeiro de 1951, prolongando a concessão de facilidades até 1956, com uma tolerância de quatro meses até Janeiro de 1957. Em 1954, com a revisão do plano de estratégia da NATO, os EUA reavaliaram a importância dos Açores e da Base das Lajes, percebendo que se mantinham vitais para a sua política. O acordo de 1951 previa que, em 1956, já estaria formado o pessoal técnico português necessário ao uso de equipamento electrónico necessário ao funcionamento da Base, pelo que desaparecia a necessidade de manter pessoal americano em tempo de paz. Contudo, as conclusões portuguesas mostraram que o Acordo de 1951 não tinha sido cumprido, não por culpa dos EUA, mas de Portugal, daí os militares reiterarem a manutenção da presença americana na Ilha. Assim, em 1957, foi renovado o Acordo por mais 5 anos, com os EUA a fornecer uma assistência financeira e técnica a Portugal, que devia ser combinada através de um entendimento independente entre os Ministros da Defesa dos dois países.
Em 1961, num ano particularmente difícil para Salazar, as renegociações começavam. Salazar tinha assistido ao início da Guerra Colonial em Angola, já Goa, Damão e Diu tinham sido ocupadas pela União Indiana, o paquete Santa Maria fora desviado por Henrique Galvão, Botelho Moniz intentara um golpe para derrubar o próprio Presidente do Conselho e, para além disso, os EUA votaram, pela primeira vez, contra o colonialismo português na ONU. Neste ano de 1961, Salazar viu a mão da nova administração Kennedy em tudo o que lhe acontecera. Assim, Salazar endureceu a negociação com os EUA, tentando usar o seu único trunfo, a Base das Lajes. Com a crise de Berlim e de Cuba e a influência crescente da URSS em África, a administração americana percebeu que os Açores continuavam vitais para a sua estratégia e mudaram a sua posição face a Portugal, deixando de votar contra Portugal e até, num contexto NATO, chegando a ajudar militarmente as tropas portuguesas em África. Com isso, Salazar percebeu que o melhor seria manter os 2 países em permamente negociação e, assim, evitar que os EUA retomassem nova política anti-colonial contra Portugal. Uma estratégia perspicaz. Contudo, Salazar permitiu que os EUA permanecessem nas Lajes. A renovação do Acordo só se deu em 1971, já com Marcello Caetano e numa nova fase da política portuguesa.
De 1944 a 1974, Salazar utilizou as Lajes para permanecer no poder, ajudado por uma política anti-comunista. Os ideais democráticos do pós II Guerra, foram menosprezados depois do início da Guerra Fria, pois o importante era manter a URSS fora da Europa Ocidental. Hoje em dia, assistimos ao esquecimento, por parte de Lisboa, da Terceira e do seu papel na História da II Guerra e da Guerra Fria. É de lamentar que os apoios dados pelos EUA fiquem esquecidos em Lisboa e não sejam empenhados na ajuda económica, social, cultural e política aos Açores.
 Em 25 de Abril de 1974, deu-se a Revoluçao dos Cravos e a Base das Lajes voltou para a ribalta da política internacional portuguesa, mas isso é tema da segunda parte desta crónica.
Francisco Miguel Nogueira

Nota: Para quem quiser saber mais do tema, recomendo: Os Açores e o controlo do Atlântico (1898-1948), os 2 volumes de Portugal na Segunda Guerra (1941-1945) e Portugal e a Nato: o reencontro da tradição atlântica de António José Telo, No coração do Atlântico. Os Estados Unidos e os Açores (1939-1948) e o artigo As negociações que nunca acabaram. A renovação do acordo das Lajes em 1962  na Revista Penélope, Fazer e Desfazer a História (vol. XXII, Lisboa, Quetzal Editores, 2000, pp 53-70) de Luís Nuno Rodrigues e a tese O Impacto da presença britânica na Ilha Terceira 1943-1946, apresentada a 3 de Novembro de 2008, de Francisco Miguel Nogueira (ISCTE-IUL).
União, 17.11.11

Fonte: Facebook

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