| Uma representação de 2004 do cometa e da Roseta ESA/AFP (ARQUIVO) |
Nas últimas imagens divulgadas do cometa 67P/Churiumov-Gerasimenko, ele parece composto por dois pedaços. Foram tiradas pela sonda Roseta, que está quase a chegar ao seu destino.
Semana após semana, a sonda europeia Roseta aproxima-se do seu objecto de estudo, o cometa 67P/ Churiumov-Gerasimenko, agora a menos de 5000 quilómetros de distância. Nos últimos dias, a Agência Europeia Espacial (ESA, sigla em inglês) divulgou imagens cada vez mais detalhadas deste cometa, que revelam afinal uma forma bastante irregular. Parece um pato de borracha: um pedaço alongado faz lembrar a cabeça, enquanto outro maior e mais arredondado seria o corpo. Além de suscitar perguntas sobre a sua origem, a forma do núcleo do cometa irá determinar como a Roseta se aproximará dele e qual será o local de aterragem de um pequeno módulo que a sonda transporta consigo.
“Teremos de fazer uma análise e uma modelação do formato do cometa, para determinar a melhor forma de voarmos à volta de um corpo com uma forma tão única, tendo em conta o controlo do voo e a astrodinâmica, as necessidades científicas da missão e os elementos relacionados com a aterragem, como a análise do local e a visibilidade entre o módulo de aterragem e a sonda”, explicou Fred Jansen, o chefe da missão da Roseta, citado num comunicado da ESA. “Mas, a menos de 10.000 quilómetros do encontro [entre a sonda e o cometa], a 6 de Agosto, as nossas questões irão ser rapidamente respondidas.”
A missão da ESA pode ser vista como um projecto de arqueologia espacial, que irá fazer algo inédito: um módulo vai pousar num cometa e analisar a sua composição. Os cometas, que têm poeiras cósmicas e são ricos em gelo, vêm dos tempos iniciais do sistema solar. Formaram-se ainda antes de haver planetas. A análise de um destes corpos dará assim pistas sobre a composição inicial do sistema solar e a formação dos planetas. Por outro lado, pensa-se que a água e os compostos orgânicos que originaram a vida na Terra poderão ter vindo de cometas semelhantes ao 67P/Churiumov-Gerasimenko, que bombardearam intensamente a Terra no início da sua existência.
O nome da sonda, inspirado na pedra de Roseta exposta hoje no Museu Britânico – que foi descoberta em 1799 e permitiu ao arqueólogo francês Jean-François Champollion decifrar os hieróglifos egípcios –, reflecte esta procura por informação que ajude a explicar os momentos iniciais da formação do nosso jardim cósmico. E que conduziram ao aparecimento de vida na Terra e à evolução recente do homem.
A construção da Roseta foi aprovada pela ESA em 1993. A 2 de Março de 2004 um foguetão Ariane-5 lançou-a no espaço. Na década seguinte, a sonda, com 2,8 metros de altura e dois painéis solares de 14 metros de comprimento cada um, foi girando à volta do Sol. Nestas revoluções, ganhou impulso quando passava junto de planetas, para conseguir atingir o 67P/ Churiumov-Gerasimenko. Com uma órbita elíptica para lá de Júpiter, o cometa aproxima-se do Sol até ficar entre Marte e a Terra, de seis em seis anos.
A 8 de Junho de 2011, a sonda entrou em hibernação para poupar energia. A 20 de Janeiro de 2014 acordou, a 800 milhões de quilómetros de distância da Terra, muito para lá da órbita de Marte. Desde aí, tem estado a fazer a aproximação final ao cometa, que atingirá o ponto mais próximo do Sol a 13 de Agosto de 2015. Nessa altura, a sonda e a cometa já estarão juntos há mais de um ano.
Mas antes, já no próximo dia 6 de Agosto, dar-se-á o tão desejado encontro, quando a sonda estiver apenas a 100 quilómetros de distância do cometa. O módulo que transporta – o File, de 100 quilos – abandonará a sonda em Novembro, para descer até à superfície do cometa.
As imagens mais recentes do núcleo do 67P/ Churiumov-Gerasimenko foram tiradas a 14 de Julho, quando a Roseta ainda estava a 12.000 quilómetros de distância do cometa. Obtidas pela câmara da sonda (a OSIRIS), cada uma foi tirada a cada 20 minutos, permitindo fazer um filme em que se vê o cometa a girar com a sua forma singular de pato de borracha.
| Os cientista ainda não conseguem explicar o que causou a forma do 67P/Churiumov-Gerasimenko ESA |
Já se tinham identificado outros cometas com esta forma atípica do núcleo, em que parece que dois pedaços de cometas foram colados num só. Mas as hipóteses sobre o aparecimento deste tipo de cometas são várias. A mais popular defende que um objecto destes surgiu a partir da fusão de dois cometas, há milhares de milhões de anos, que colidiram a baixa velocidade. Este processo, chamado de “acreção”, também terá originado os planetas. “Talvez o cometa nos dê um registo único sobre o processo físico de acreção”, avança o comunicado da ESA.
Há, no entanto, outras hipóteses para a origem desta forma irregular: a deformação dos cometas devido à força gravitacional exercida por grandes astros como o Sol e Júpiter; a evaporação do gelo dos cometas, sempre que se aproximam do Sol, alterando a sua forma; ou um grande impacto que tenha transformado radicalmente o cometa.
“As imagens que vemos sugerem um cometa com uma forma complexa, mas ainda precisamos de aprender muito para chegar a uma conclusão”, defendeu Fred Jansen. Avizinham-se assim meses importantes para o estudo do sistema solar.
Fonte: Publico
Sem comentários:
Enviar um comentário