quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Deep Web. A internet tem segredos que até o Google desconhece


A internet não é só o que encontra quando faz pesquisa. Há um universo paralelo onde se compram armas ou se contratam criminosos

R., britânico entretanto detido, criou um site de pornografia infantil que chegava a receber 500 visitantes por segundo. O segredo? A página estava "escondida" numa zona obscura da internet que permitia aos utilizadores passearem-se de forma anónima e invisível. Em 2010, a polícia da Catalunha desmantelou uma rede de pedófilos que operava numa camada - inacessível à maioria dos utilizadores - chamada Protégenos.

O que o Google ou outro motor de busca vêem é, na verdade, só a ponta do icebergue. A maioria dos conteúdos da internet não está acessível através das ferramentas convencionais de busca. O universo paralelo não é apenas o esconderijo preferido de pedófilos, mas também dos adeptos de pornografia macabra (sexo com cadáveres incluído), experiências com humanos, fóruns de canibalismo ou simples traficantes: a chamada deep web - há quem prefira chamar-lhe dark web - é uma gigantesca montra de produtos ilegais. O Silk Road, o maior mercado anónimo de venda de drogas, chegou a movimentar 1,2 biliões de dólares, antes de ser fechado pelo FBI em Outubro de 2013. Edward Snowden, o especialista em tecnologia de informação que denunciou a espionagem da Agência de Segurança Nacional americana (NSA), os rebeldes sírios, e quem esteve por trás da revolução no Egipto também usavam esta via para navegar sem levantar suspeitas. O método serve criminosos mas também activistas políticos que temem ser facilmente apanhados na internet. Por uma razão ou por outra, todos preferem navegar sem ser vistos.

Nas profundezas da rede (deep web) é possível comprar qualquer tipo de arma ou droga, uma carta de condução ou um cartão de identificação, um cartão de crédito clonado, notas falsas ou bitcoins (a moeda usada naquele espaço virtual). Numas horas não chegámos lá, mas um utilizador português contou ao i ser até possível contratar um assassino ou comprar imagens de violações, torturas ou homicídios.

Viktor Sayenko e Igor Suprunyuck, dois jovens de 19 anos condenados a prisão perpétua em 2009, espalharam na deep web vídeos dos homicídios - os chamadossnuff films. Num deles, durante cerca de sete minutos dão repetidas marteladas na cabeça de um idoso. De seguida, perfuram-na com uma chave de fendas.

Apesar de estas redes garantirem uma navegação anónima, alguma da criminalidade organizada concentrada na deep web tem sido desmantelada. O fenómeno também não escapa aos olhos da PJ, a polícia com competência para investigar pedofilia e cibercrime. Um especialista em criminalidade informática explica ao i que têm sido feitas acções na deep web. "É mais um patamar, mais uma dificuldade no mundo das novas tecnologias", conta, acrescentando que para rastrear estes conteúdos é necessário "recorrer a outros meios de obtenção de prova", que podem passar por acções encobertas no mundo virtual.

Apesar de ser um dos "escritórios" preferidos dos criminosos, o especialista alerta: "Não podemos pensar que tudo o que se passa ali é ilegal. Muita coisa é do domínio da ficção, da encenação." As histórias que por vezes circulam de suicídios ou homicídios em directo podem não passar disso mesmo: histórias, pura ficção.

Uma das maiores bizarrias que se contavam nos fóruns da deep web era a suposta compra de raparigas antes de chegarem à puberdade para que lhes fosse feita uma série de transformações físicas e, posteriormente, serem vendidas como bonecas sexuais.

A., o utilizador português que explicou ao i como aceder à dark web, também é céptico em relação à veracidade dos conteúdos mais grosseiros: "Há ali coisas bem hardcore. Mas como é tudo na internet, nunca sabes se é de facto verdadeiro." Como a navegação é anónima "e quase sempre impossível chegar à verdadeira fonte do site", avisa A., "costumam aparecer coisas ilegais, bizarras, porque não há censura nem autoridades que controlem o conteúdo." Na deep web, A. já encontrou alguns sites em português, mas "não muitos", e quase sempre em português do Brasil.

João Barreto, consultor de segurança na empresa SysValue, prefere distinguir a dark web da deep web. Na primeira inclui todos os sistemas que "não estão anunciados em lado nenhum", em que se interage em regime fechado e normalmente centrados na criminalidade organizada, no narcotráfico e na pedofilia. Na segunda colocaria tudo aquilo que está numa camada mais profunda da internet, mas não é tão obscuro, como as intranet de grupos de extrema-direita ou extrema-esquerda.

João Barreto Consultor de segurança na empresa SysValue 

“Os motores de busca nunca vão chegar à dark web”

Como podemos descrever a deep web ou dark web? Sei que há autores que não distinguem, eu prefiro separar a dark web da deeb web.

Na sua perspectiva, o que é a dark web? São sistemas que não estão anunciados em lado nenhum, em que se interage em regime fechado, não têm sites, ninguém anuncia e os motores de busca nunca lá vão chegar. É, por norma, o lugar da criminalidade organizada. É lá que se encomendam crimes ou se vai à procura de um cartão de crédito roubado.

Como posso lá chegar? É uma internet mais discreta, mais desconhecida. Quem por lá anda são comunidades organizadas que podem enviar-lhe um convite, um link através da qual pode aceder.

A que é que chamaria a deep web? Já não tem a vertente do crime. É uma outra camada da internet, mais enterrada, mais discreta, e a que o Google ou outro motor de busca também não chegam. Podemos dizer que são camadas mais profundas a que nem toda a gente chega. O que divulga apenas para os seus amigos no Facebook, por exemplo, não está disponível através de uma simples pesquisa. É o mesmo que acontece com o conteúdo pago dos jornais, outros serviços em que o acesso está dependente da compra, ou em intranet de grupos de extrema-direita ou extrema-esquerda.

E é possível aceder à dark web para desvendar crimes? Será preciso passar para o domínio virtual a figura do agente infiltrado. Se quiser desvendar uma rede pedófila, terá de conseguir que alguém lhe dê acesso a um desses sistemas.

Fonte: Jornali

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