sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Telepatia: ciência, magia ou espetáculo de efeitos especiais?

Telepatia: ciência, magia ou espetáculo de efeitos especiais?

Os investigadores da Universidade de Harvard apresentaram como uma experiência revolucionária que conseguira que dois indivíduos comunicassem telepaticamente. Mas afinal o que foi feito está muito longe de ser inovador ou cientificamente relevante, explica Vasco Galhardo, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. 

De olhos e ouvidos tapados, um indivíduo na Índia pensou na sequência binária (linguagem constituída por sequências de zeros e uns) correspondente às palavras hola e ciao. A sua atividade cerebral foi registada através de electroencefalograma e o registo enviado pela internet para a França, onde outro individuo, também de olhos e ouvidos tapados, recebeu essa mensagem cerebralmente, através de estimulação magnética transcraniana.

"É como que a concretização tecnológica do sonho da telepatia, mas, decididamente, não é magia", afirma Giulio Ruffini, coautor da investigação, citado pela agência AFP.

Conduzida por investigadores da universidade norte-americana de Harvard e divulgada na publicação científica "Plos One", foi apresentada como uma experiência revolucionária, um passo decisivo que abriria caminho para grandes avanços tecnológicos, nomeadamente para a criação de sistemas que permitissem a tetraplégicos moverem membros robóticos através da mente.

Mas, afinal, segundo explica ao Expresso Vasco Galhardo - docente do departamento de Biologia Experimental da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto - , para além de não ser magia é também completamente ilusória a ideia de que a experiência seja cientificamente inovadora ou relevante, pois tudo o que foi ali feito está mais do que testado e comprovado.

"É tão telepatia como comunicação por tambores" 

"É tão telepatia como a comunicação por tambores ou por código morse", afirma o investigador português, acrescentando: "Conceptualmente, isto é uma transmissão simbólica normalíssima... Por acaso é feita com técnicas não invasivas de leitura cerebral e estimulação cerebral, mas para todos os efeitos é igual a qualquer outra transmissão simbólica de associação direta (números, cores, sons...)".

Galhardo indica que a leitura cerebral através de eletroencefalografia já é feita desde 1924 e a estimulação magnética transcraniana - utilizada na segunda parte da experiência, com a comunicação dos zeros e uns da linguagem binária através da alternância entre estimulação do córtex visual (que causa no cérebro um efeito equivalente aos olhos terem visto um flash luminoso) e a estimulação fora do córtex visual (que não causa a sensação de flash) - é algo também já há experimentado.

O investigador da Universidade do Porto considera tratar-se do tipo de estudo que procura, através do aparato envolvido (o que no caso passou por colocar os dois indivíduos em países muitos distantes e utilizar técnicas de leitura cerebral), chamar as atenções e causar impacto, apesar de contar com resultados perfeitamente banais.

O desenvolvimento tecnológico já vai atualmente ao ponto de se conseguir ler dados muito mais complexos da atividade cerebral, como emoções ou comandos para reações motoras, refere Galhardo.

Fonte: Expresso


Sem comentários:

Enviar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...