terça-feira, 4 de junho de 2019

Os portugueses na segurança armada de alto risco


Formam-se nas Forças Armadas. Depois de terminarem a ligação contratual com o Estado, apostam numa carreira bem mais lucrativa, apesar de terem de enfrentar pirataria e cenários de guerra.

A combater piratas em alto mar, a travar a ameaça armada em explorações de petróleo ou a defender embaixadas em zonas de conflito, são vários os portugueses integrados numa indústria legal que movimenta milhões de euros. Recusam o selo de “mercenários”, associados a atos ilícitos ou ao romantismo dos filmes de Hollywood, e apontam o dedo à falta de oportunidades de construir uma carreira em Portugal. 

Ricardo, nome fictício, tinha 27 anos quando terminou as funções nas Operações Especiais em Lamego. Esteve sete anos ao serviço das Forças Armadas Portuguesas e participou numa missão no Kosovo, em 2005. Passados quatro anos, com o contrato a terminar, percebeu que podia continuar a carreira no privado. “Fui, a título pessoal, fazer formações em Inglaterra para ir trabalhar para o Iraque e para o Afeganistão”, revela. O curso, todo ele pago do próprio bolso, custou seis mil euros e as oportunidades não apareceram. “Em 2009, era muito complicado para um português conseguir um contrato lá fora. Na altura, estive algum tempo sem trabalho”, recorda. 


A primeira oportunidade surgiu em 2010. “Fui contratado por uma empresa norte-americana para uma missão de segurança armada contra a pirataria, na Somália.” Desde então, foram cerca de 60 países, grande parte na costa do continente africano, mas também mais a Oriente, como no Paquistão ou Israel. “Em dez anos, já foram cinco passaportes e nenhum deles por ter expirado.” A trabalhar na indústria desde 2007 está Nelson, de 32 anos, que prefere igualmente manter o anonimato. Também ele com ligações às Forças Armadas Portuguesas, integrou um Regimento de Infantaria entre 2005 e 2007. Já esteve em África, a fazer proteção a empresas de extração de pedras preciosas, e no Médio Oriente, em Bassora, no Iraque, a fazer checkpoint na zona portuária, em 2012. Um trabalho de segurança que exige pessoal altamente armado. “Quando saí do Exército sempre mantive aquela paixão e tive conhecimento da indústria privada. Fiz uma série de formações, fui convidado para fazer uma na África do Sul e fiquei a trabalhar para essa empresa”, assinala. 

Atualmente, opera mais de perto com a indústria petrolífera, como consultor de segurança. Apesar das oportunidades, reforça o quão difícil é conseguir uma hipótese nesse mercado. “Estou a chegar de Inglaterra, depois de gastar mais de quatro mil euros numa formação. Mas nada disto nos garante trabalho. A maioria dos interessados pensa que só por tirar uma formação consegue logo trabalho, mas não é bem assim.”



Além do desafio profissional, há outro elemento que torna a indústria privada apetecível para quem tem formação militar. O salário é, de acordo com os dois portugueses, bem mais alto do que o auferido ao serviço do Estado. “Quando comecei a trabalhar na segurança marítima, ganhava cerca de 350 euros por dia. Numa semana, conseguia receber mais do que num mês inteiro se continuasse em Portugal”, admite Ricardo. No entanto, prossegue, “já se pagou mais” e a culpa é da concorrência das empresas que crescem em países orientais. “Os operadores asiáticos vieram alterar o mercado, diminuindo em muito os salários. Se me oferecerem um salário de mil euros para um determinado serviço, eu não vou, mas as empresas, contratando nepaleses e indianos, a quem vão pagar seiscentos euros, fazem o serviço na mesma”, explica.


Os dois antigos militares já integraram as equipas armadas dessas empresas, colocados em zonas problemáticas e muitas vezes envolvidos em situações de elevado risco. “Andamos armados, mas só numa perspetiva de segurança. Não podemos disparar só porque sim”, esclarece Ricardo. “O mais perto do conflito bélico é o apoio que podemos prestar indiretamente às forças militares. Foi isso que fiz no Iraque, durante os três meses em que lá estive, como chefe de uma equipa em que ajudámos à segurança no porto, controlando todo o material que por lá passava”, conta Nelson. Ainda assim, as situações de risco são uma constante. “Em 2011, estávamos a fazer segurança contra pirataria, na zona do Suez, e éramos atacados literalmente todos os dias. Eu era chefe de equipa e numa dessas situações tivemos que reagir ao fogo e iniciar técnicas de evasão. Quando a ameaça acabou, ficámos sem saber se atingimos fatalmente alguém. Apenas garantimos que conseguimos evitar o pior cenário e é para isso que nos pagam”, assevera Ricardo.

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